17 de outubro de 2011

Porque o cinema sempre me acompanhará para onde quer que vá. Até qualquer dia companheiros.

8 de outubro de 2011

O que realmente trata Gion no Shimai é da distinção entre as duas mulheres do filme, as duas irmãs que regem a vida de forma distinta. Aí reside a centralidade do filme, ainda que se trate do “martírio” da condição social das mulheres (mesmo tratando-se de gueixas), é a forma de pensar que interessa, a distinção entre a forma como tratam o amor, como o sentem - o instinto de sobrevivência tem muita importância -, como tratam a vida, a personalidade duma e doutra, o instinto duma e doutra (é a disparidade total tendo em conta que são duas irmãs), a moralidade duma e a ausência dela na outra, conto da ascensão do amor, da moral, do amor ultrapassar a sobrevivência, a ambição…

5 de outubro de 2011

Viaggio in Italia (1954)
Roberto Rossellini

"Fim de Outubro ou princípio de Novembro de 1955. Eu tinha 20 anos, ainda não conhecia ninguém do grupo que um ano mais tarde formou o CCC da JUC. Também não lia os Cahiers du Cinéma, que nem de nome era dos meus ouvidos. Desde 1950 - ano da estreia de Stromboli em Portugal - que me andavam a dizer que Rossellini perdera as qualidades iniciais (essas de Roma, Città Aperta, que tanto me fizeram chorar quando eu ainda andava de calções) ao deixar-se apanhar pelas saias de Ingrid Bergman. Deus Omnipotente não perdoara aos adúlteros. O pecado só lhes tinha feito mal. Ele, já nem era neo-realista, já nem era nada. Ela, uma sombra triste do que fora.
Verdade ou consequência, nem Stromboli, aos 15 anos, nem Europa 51, aos 18 (com o Tucho) me deixaram - ai de mim! - marcas duráveis. Só muito mais tarde abri os olhinhos. Nem sei por que fui ao Eden, numa tarde de Outono, em que havia muita luz e fazia muito sol. Certamente foi mais por fidelidade a Ingrid Bergman (e talvez a George Sanders) do que a Rossellini. Mas fiquei colado à cadeira. No fim, no milagre, desatei a chorar. Os meus companheiros (melhor, as minhas companheiras) desataram a rir. Do filme e de mim. Como era possível, João? Ainda hoje me espanto como foi possível, João. Não foi a carne nem o sangue quem mo revelaram. Mas algum Deus que está no céu. Aceito que o propriamente dito.
Disse da minha justiça, à esquerda e à direita. Nem um eco. À esquerda diziam-me que era coisa de católico, nos dias mais beatos. À direita, que era coisa de neo-realista, nos dias mais estúpidos. A esquerda tinha mais razão do que a direita. Em coisas de fundo, acontece.
Demorou um ano - já disse - a encontrar gente (católica gente) que sentira o mesmo que eu. Ela levou-me a ler um número célebre dos Cahiers, seis meses anterior à minha visão, em que Jacques Rivette escrevera («Lettre sur Rossellini»): «Par l’apparition de Voyage en Italie tous les films ont soudain vieilli de dix ans» e em que Eric Rohmer dissera («La Terra du Miracle»): “Dans ce film où tout semble accessoire, tout, même les plus folles divagations de notre esprit, fait partie de l’essentiel”. Levaram-me a ler Bazin e o texto sagrado Défense de Rossellini.
Quando, em Abril de 1958, revi o filme no Jardim-Cinema, 26ª sessão do CCC, já éramos um grupo a defender a genialidade da obra. E um bonito texto do Pedro Tamen - sempre muito pedagógico e sempre a fugir dos provocadores - converteu mais incrédulos do que o próprio filme: «Depois, há um milagre que não sabemos se o foi (um paralítico que corre brandindo as muletas) e outro que, esse fim, sabemos que foi: duas pessoas descobrem-se no mais dentro, no mais fundo, fundem-se, são finalmente capazes de dizer que sim e que se amam, que sim, que sim, que se amam». Em 1958, já os Cahiers du Cinéma colocavam Viaggio in Italia no terceiro lugar da lista dos «melhores filmes da nossa vida», depois de Sunrise de Murnau e de La Règle du Jeu de Renoir.
Com o tempo, essa posição vanguardista e elitista deixou de o ser. Hoje, já ninguém se escandaliza com nada. Viaggio in Italia é pacificamente aceite entre as glórias da nossa terra (a terra do cinema) e, de cada vez que o programo, a sala esgota. Não há gato nem cão que queira ter voto na matéria que ouse sequer uma reticência. Juro pela unanimidade crítica das cinco estrelas se for reposto no Ávila. Mas quem vê caras não vê corações. A não ser que se chame Roberto Rossellini e há mais de dezoito anos que ninguém se chama assim.
Viaggio in Italia, para quem nunca o tenha visto, o que é? Como Sunrise de Murnau, como O Convento de Oliveira, como Lucky Star de Borzage ou como Os Contos da Lua Vaga de Mizoguchi, é a história da separação e da reconciliação de um casal. O casal Joyce, casal inglês de meia-idade (trinta e muitos, quarenta e poucos) bem instalado na vida, que vem a Itália vender uma propriedade que herdara de um tio chamado Homer (Joyce e Homero podem ser nomes casuais, podem não o ser). Casal são-no, porque são casados. Casal não o são, porque estão razoavelmente fartos um do outro. A viagem - rumo a Nápoles e nos arredores de Nápoles - dura sete dias (número mágico). Alex, o marido (George Sanders), namora por aqui e por ali, engata (ou é engatado) por uma pega, aborrece-se de morte. Katherine, a mulher (Ingrid Bergman) faz muito turismo: Museu Arqueológico de Nápoles, ruínas de Cuma (antro da Sibila), Templo de Apolo, Vesúvio, Pompeia, a solfatara de Pozzuoli. Recorda um poeta que a amou e morreu novo e tuberculoso, finge ciúmes do marido, farta-se com ele e dele. Ao sétimo dia, a propósito de uma discussão absurda sobre o Bentley deles, decidem divorciar-se logo que voltem à Inglaterra. Horas depois, o carro em que viajavam, muito calados, é forçado a parar porque uma procissão atravessa a estrada. Saem, cada um de sua vez, para ver o que se passa. A certa altura, a multidão desata a gritar «milagre» a propósito do tal paralítico. Na confusão, cada um deles é empurrado em direcções opostas. Katherine chama pelo marido. Quando este a consegue alcançar, abraçam-se e juram nunca mais se separar.
Nem Katherine nem Alex parecem pessoas muito interessantes. Nada lhes acontece de muito particular. Qualquer pessoa está mesmo a ver que divorciar-se é o que podem fazer de melhor. Uma procissão, o «ave» de Fátima e os dois nos braços um do outro a jurar amor eterno. Milagre da Virgem que protege o santo matrimónio? Quem nunca tinha visto e só isto ler, percebe facilmente as reacções da época.
Só que dizer isto ou não dizer nada é praticamente a mesma coisa. Não porque a história não seja isto, mas porque sob isto, ao lado disto, ou sobre isto (e nenhuma das preposições é boa) se passa tudo o que é essencial e não é traduzível em palavras.
Não vou citar nenhum exemplo dos mais célebres, como a perturbação de Katherine face aos nus masculinos do Museu de Nápoles, o passeio solitário dela ao Templo de Apolo, a «ionização» na solfatara, com o fumo e o cheiro a sufocá-la, o esqueleto visto nas catacumbas, a descoberta, durante umas escavações em Pompeia, dos corpos calcinados de um casal abraçado, há dois mil anos abraçados. Não vou falar da confusão das ruas de Nápoles ou de Capri, das mulheres grávidas que se cruzam constantemente com Katherine, das zaragatas conjugais a que assistem e que tanto chocam reservados ingleses.
Vou referir-me apenas à sequência inicial, quando, no Bentley, Katherine e Alex se dirigem para Nápoles. Primeiro, um diálogo, pedagogicamente concebido, que nos dá todas as informações úteis: quem são eles, onde se dirigem, o que vieram fazer a Itália. Depois, o marido adormece e percebemos que é a mulher quem guia. O marido acorda e propõe à mulher trocar de lugar. Em vez do corte e novo plano do carro com as novas posições, assistimos à troca toda, com toda a minúcia. No segundo minuto do filme, segunda paragem: agora é uma manada de bois que atravessa a estrada e os impede de prosseguir. Irritação de Alex, que já comentara que as estradas em Itália são um perigo. Segue-se uma bifurcação: uma seta indica Nápoles para a esquerda e Latina para a direita. O carro vira à esquerda (já sabíamos que o destino era Nápoles), mas a câmara vira-se para a direita, como se o outro caminho fosse o bom e eles o não soubessem. Pouco depois, Katherine faz uma expressão de horror: «Que é isto? Sangue?» E Alex responde, irónico, que foi só um mosquito que se esborrachou no vidro. Falam dos perigos da malária.
Aparentemente, nada se passou de particularmente interessante. Mas, nesses cinco minutos de filme, quem for capaz de ver, viu o essencial. A viagem é conduzida pela mulher, como sempre o será ao longo do filme, porque é ela quem vê quase tudo o que o marido não vê, como é ela quem o chama no final. Mas ela sem ele não existe. Por isso, ele tem de conduzir também e tudo o que lhe acontece, depois, é tão fio condutor quanto o que lhe acontece a ela. Em cada bifurcação, há sempre duas possibilidades. Seguir o que está predeterminado implica deixar em aberto o desconhecido. A qualquer plano ou ordenação sobrepõe-se a desordem e o imprevisto: bois não querem saber de Bentleys e podem parar - ou atrasar - uma viagem. Uma mancha de sangue pode não ser uma tragédia mas pode não ser tão banal como parece. Na vida não há símbolos, há sinais. A cada momento, cada sinal.
E é a acumulação de todos esses momentos e de todos esses sinais que, a cada momento e a cada sinal, vai minando aquele homem e aquela mulher que parecem fatalmente seguir numa direcção (a ruptura) e não menos fatalmente estão a seguir noutra (a redescoberta). Quando perdem o pé (o carro, a casa, a direcção, a estrada), tudo o que de vital e mortal se acumulou neles explode, tão irracional e tão racionalmente, como a fé da multidão no milagre da Virgem. E é essa explosão - essa erupção, essa ionização, se quisermos ficar ao pé dalgumas imagens do filme - que os atira um para o outro, no mesmo abraço dos cadáveres de Pompeia. Talvez que eles também - que sabemos nós? - não estivessem a fazer amor, nem mesmo se amassem. Talvez que, surpreendidos pela erupção do Vesúvio, se tivessem agarrado para não morrerem sós. Só que dois corpos juntos, juntos mesmo, dois mil anos ou dois segundos, são o milagre total. No Evangelho de Pseudo-Tomé há uma variante, mais profunda e mais certeira, da conhecida passagem dos sinópticos em que se diz que a verdadeira fé move montanhas. Em vez da passagem: «Se tiveres a verdadeira fé e disseres àquela montanha move-te, a montanha mover-se-á», diz-se: «Se um homem e uma mulher viverem em verdadeira paz um com o outro e um deles disser àquela montanha move-te, a montanha mover-se-á.» Em vez da fé, a caridade. É o cerne do cinema de Rossellini.
Nem eu nem ninguém vos pode jurar que, regressados ao carro ou a casa, Alex e Katherine não recomecem as quezílias. Mas o milagre aconteceu. Não é bom que o homem ou a mulher estejam sós. Viaggio in Italia, como disse Rohmer, é um drama com três personagens. O terceiro é Deus. E em Viaggio in Italia quem O não vir não vê nada.
É só um filme? Precisamente."
João Bénard da Costa
祇園の姉妹/Gion no Shimai - As Irmãs de Gion (1936)
溝口 健二 Kenji Mizoguchi

3 de outubro de 2011

Иваново Дэцтво/Ivanovo Detstvo - A Infância de Ivan (1962)
Andrei Tarkovsky

And this I dreamt, and this I dream,
And some time this I will dream again,
And all will be repeated, all be re-embodied,
You will dream everything I have seen in dream.
To one side from ourselves, to one side from the world
Wave follows wave to break on the shore,
On each wave is a star, a person, a bird,
Dreams, reality, death - on wave after wave.
No need for a date: I was, I am, and I will be,
Life is a wonder of wonders, and to wonder
I dedicate myself, on my knees, like an orphan,
Alone - among mirrors - fenced in by reflections:
Cities and seas, iridescent, intensified.
A mother in tears takes a child on her lap.

Arseny Alexandrovich Tarkovsky

Ivanovo Detstvo revisto uma e outra vez deslumbra ainda mais que a primeira vez. É tudo tão liricamente negro, coisa que brota das cinzas e das trevas da guerra e da sua destruição, olhar sobre a candura corrompida pela dor e pelo horror da guerra, a queda abrupta da candura. Ivan é tão inocente quanto a sua idade o exige mas tão homem quanto os maiores homens do mundo, tão bravo e tão corajoso quanto os grandes heróis da história, aprisionado pela inocência e pelo horror da guerra, pela dor da perda e pela sobrevivência. Revoltado, imerso nas mágoas e nas lembranças duma infância perdida, roubada, abandonado à sua sorte no mundo e nas suas trevas. É a angústia de Ivan, a brutalidade da guerra, o caos. São os planos assombrosos de Tarkovsky, a metáfora quase sempre presente, coisa onírica e lírica.

O espaço, coisa que Tarkovsky controla eximiamente, a claustrofobia que surge daquele enclausuramento do espaço, a sequência do delírio de Ivan naquele bunker enquanto sozinho espera por Kholin e pelo tenente, das melhores cenas jamais filmadas, alucinação e demência a explodirem junto com as bombas, sozinho, no escuro, num espaço fechado, a claustrofobia a emergir daquele Ivan imerso no terror e na crueldade da guerra, dos Homens, do menino tornado homem pela agrura do horror, do medo, da sobrevivência. O passado a assombrar o presente.

O negro. Sim, é tão negro quanto os mais negros de Murnau ou de Ford, imerge nos medos e pesadelos da candura perdida. “A guerra não é para crianças” diz-lhe várias vezes o tenente. Mas ele já não é criança embora o seja, a infância foi-lhe arrancada pela guerra. Já sofreu mais que muitos homens. Ainda assim é criança sim, “estou farto disto” diz ele algures. Nos sonhos sim é feliz, nas lembranças da mãe e da irmã, nas brincadeiras de criança, aí onde a esperança ainda tem lugar, nos sonhos é o paraíso. Por isso aquele final, o paraíso de Ivan, as suas lembranças. Mas a realidade é outra e Ivan sabe que só nos sonhos pode voltar a ser criança.

30 de setembro de 2011

Leningrad Cowboys Meet Moses (1994)
Aki Kaurismäki

29 de setembro de 2011

Leningrad Cowboys Go America (1989)
Aki Kaurismäki

Se há influência que se note em Leningrad Cowboys Go America é a de Jarmusch (e a dada altura o cineasta americano aparece mesmo como um vendedor de carros numa sucata), principalmente naqueles travellings e em todo o absurdismo da história. Mas Leningrad Cowboys Go America não é nenhuma comédia negra à imagem do que Jarmusch faz, pelo contrário, é coisa hilariante, com uma certa similaridade a Kusturica (não tão excessivo), um road movie com tons de sátira, seco e com tudo o que caracteriza o cinema do finlandês, a frieza e a inexpressividade dos personagens que só acentua a ridicularização e o absurdo da narrativa.
The Big Parade (1925)
King Vidor

28 de setembro de 2011

Midnight In Paris (2011)
Woody Allen

Para mim, muito provavelmente o melhor filme de Woody Allen desde o grande Bullets Over Broadway.

27 de setembro de 2011

26 de setembro de 2011

Northfork (2003)
Michael Polish

Ainda que totalmente imergido na fantasia, Northfork assenta sobretudo no seu ambiente melancólico (que a muito ajuda o tema musical) e cinzento para relatar uma estória do fim dum lugar, de perda e do abandono desse mesmo lugar. O que Polish faz é um lamento poético repleto de tristeza e melancolia sobre essa cidade, o seu desaparecimento e o abandono das suas gentes, ainda que para isso recorra à fantasia e ao misticismo envolto sobre a localidade. Uma agradável surpresa este Northfork.
Thunder Over The Plains (1953)
André De Toth

25 de setembro de 2011

20 de setembro de 2011

The Wild One (1953)
Laslo Benedek

16 de setembro de 2011

L'illusionniste (2010)
Sylvain Chomet

14 de setembro de 2011

13 de setembro de 2011

Train de Vie (1998)
Radu Mihaileanu

Train de Vie é um filme engraçado, uma comédia ambientada em dias de "pré-Holocausto", diria mesmo uma paródia aos judeus, na senda dum Kusturica, desprovido de qualquer tipo de sentimentalismos ou sensacionalismos (e por isso distante, bem distante, de La Vita è Bella).

12 de setembro de 2011

O Biutiful do Iñárritu é um filme catarse, mesmo com todos os facilitismos a foder a premissa do filme, mesmo com todas as choradeiras lamechices e planos à la intelectual de Hollywood a querer explorar o sentimento ou o abstracto ou a luta interior do moribundo, mesmo com histórias paralelas de merda para preencher papel, mesmo com todos os clichés e embelezamentos e sensacionalismos e toda a merda acabada em ismos para fazer render (ai os dólares!) a coisa, mesmo com tudo isso o filme chega lá, à catarse, depois de muita reflexão (ou a tentativa) da morte, depois de tanto sadismo para fazer sofrer tudo e todos (espectador sobretudo), é claro que não deixa ninguém indiferente, a isso apela desde o início (explora-o até ao tutano), a melancolia e a morte estão ali sempre presentes, mais que a morte a preocupação em deixar os filhos com uma mãe bipolar e puta e por aí fora. No final o semblante duro e fechado (de fortaleza) de Bardem transforma-se nas lágrimas agarrado à filha, a rogar para esta nunca o esquecer, porque ele sabe-o bem que a ausência traz o esquecimento, custa-lhe tanto deixar a vida. E a mim custa-me que isto tenha sido realizado por esse Iñárritu, porque em vez dez dum bom ou dum grande filme temos uma premissa mal explorada, oportunista como disse o Luís M. Oliveira. Enfim...uma porcaria.

11 de setembro de 2011

10 de setembro de 2011

E esta é porque é das músicas mais belas que já ouvi na vida.

7 de setembro de 2011

M (1931)
Fritz Lang

The horror of the faces: That is the overwhelming image that remains from a recent viewing of the restored version of ``M,'' Fritz Lang's famous 1931 film about a child murderer in Germany. In my memory it was a film that centered on the killer, the creepy little Franz Becker, played by Peter Lorre. But Becker has relatively limited screen time, and only one consequential speech--although it's a haunting one. Most of the film is devoted to the search for Becker, by both the police and the underworld, and many of these scenes are played in closeup. In searching for words to describe the faces of the actors, I fall hopelessly upon ``piglike.''

What was Lang up to? He was a famous director, his silent films like "Metropolis'' worldwide successes. He lived in a Berlin where the left-wing plays of Bertolt Brecht coexisted with the decadent milieu re-created in movies like "Cabaret.'' By 1931, the Nazi Party was on the march in Germany, although not yet in full control. His own wife would later become a party member. He made a film that has been credited with forming two genres: the serial killer movie and the police procedural. And he filled it with grotesques. Was there something beneath the surface, some visceral feeling about his society that this story allowed him to express?

When you watch "M,'' you see a hatred for the Germany of the early 1930s that is visible and palpable. Apart from a few perfunctory shots of everyday bourgeoisie life (such as the pathetic scene of the mother waiting for her little girl to return from school), the entire movie consists of men seen in shadows, in smokefilled dens, in disgusting dives, in conspiratorial conferences. And the faces of these men are cruel caricatures: Fleshy, twisted, beetle-browed, dark-jowled, out of proportion. One is reminded of the stark faces of the accusing judges in Dreyer's ``Joan of Arc,'' but they are more forbidding than ugly.

What I sense is that Lang hated the people around him, hated Nazism, and hated Germany for permitting it. His next film, "The Testament of Dr. Mabuse'' (1933), had villains who were unmistakably Nazis. It was banned by the censors, but Joseph Goebbels, so the story goes, offered Lang control of the nation's film industry if he would come on board with the Nazis. He fled, he claimed, on a midnight train -- although Patrick McGilligan's new book, Fritz Lang: The Nature of the Beast, is dubious about many of Lang's grandiose claims.

Certainly "M'' is a portrait of a diseased society, one that seems even more decadent than the other portraits of Berlin in the 1930s; its characters have no virtues and lack even attractive vices. In other stories of the time we see nightclubs, champagne, sex and perversion. When "M'' visits a bar, it is to show closeups of greasy sausages, spilled beer, rotten cheese and stale cigar butts.

The film's story was inspired by the career of a serial killer in Dusseldorf. In "M,'' Franz Becker preys on children -- offering them candy and friendship, and then killing them. The murders are all offscreen, and Lang suggests the first one with a classic montage including the little victim's empty dinner plate, her mother calling frantically down an empty spiral staircase, and her balloon--bought for her by the killer--caught in electric wires.

There is no suspense about the murderer's identity. Early in the film we see Becker looking at himself in a mirror. Peter Lorre at the time was 26, plump, baby-faced, clean-shaven, and as he looks at his reflected image he pulls down the corners of his mouth and tries to make hideous faces, to see in himself the monster others see in him. His presence in the movie is often implied rather than seen; he compulsively whistles the same tune, from "Peer Gynt,'' over and over, until the notes stand in for the murders.

The city is in turmoil: The killer must be caught. The police put all their men on the case, making life unbearable for the criminal element ("There are more cops on the streets than girls,'' a pimp complains). To reduce the heat, the city's criminals team up to find the killer, and as Lang intercuts between two summit conferences -- the cops and the criminals -- we are struck by how similar the two groups are, visually. Both sit around tables in gloomy rooms, smoking so voluminously that at times their very faces are invisible. In their fat fingers their cigars look fecal. (As the criminals agree that murdering children violates their code, I was reminded of the summit on drugs in "The Godfather.'')

"M'' was Lang's first sound picture, and he was wise to use dialogue so sparingly. Many early talkies felt they had to talk all the time, but Lang allows his camera to prowl through the streets and dives, providing a rat's-eye view. One of the film's most spectacular shots is utterly silent, as the captured killer is dragged into a basement to be confronted by the city's assembled criminals, and the camera shows their faces: hard, cold, closed, implacable.

It is at this inquisition that Lorre delivers his famous speech in defense, or explanation. Sweating with terror, his face a fright mask, he cries out: "I can't help myself! I haven't any control over this evil thing that's inside of me! The fire, the voices, the torment!'' He tries to describe how the compulsion follows him through the streets, and ends: "Who knows what it's like to be me?''

This is always said to be Lorre's first screen performance, although McGilligan establishes that it was his third. It was certainly the performance that fixed his image forever, during a long Hollywood career in which he became one of Warner Bros.' most famous character actors ("Casablanca,'' "The Maltese Falcon,'' "The Mask of Dimitrios''). He was also a comedian and a song-and-dance man, and although you can see him opposite Fred Astaire in "Silk Stockings'' (1957), it was as a psychopath that he supported himself. He died in 1964.

Fritz Lang (1890-1976) became, in America, a famous director of film noir. His credits include "You Only Live Once'' (1937, based on the Bonnie and Clyde story), Graham Greene's "Ministry of Fear'' (1944), "The Big Heat'' (1953, with Lee Marvin hurling hot coffee in Gloria Grahame's face) and "While the City Sleeps'' (1956, another story about a manhunt). He was often accused of sadism toward his actors; he had Lorre thrown down the stairs into the criminal lair a dozen times, and Peter Bogdanovich describes a scene in Lang's "Western Union'' where Randolph Scott tries to burn the ropes off his bound wrists. John Ford, watching the movie, said, "Those are Randy's wrists, that is real rope, that is a real fire.''

For years "M'' was available only in scratchy, dim prints. Even my earlier laserdisc is only marginally watchable. This new version, restored by the Munich Film Archive, is not only better to look at but easier to follow, since more of the German dialogue has been subtitled. (Lorre also recorded a soundtrack in English, which should be made available as an option on the eventual laserdisc and DVD versions.) Watching the new print of "M,'' I found the film more powerful than I remembered, because I was not watching it through a haze of disintegration.

And what a haunting film it is. The film doesn't ask for sympathy for the killer Franz Becker, but it asks for understanding: As he says in his own defense, he cannot escape or control the evil compulsions that overtake him. Elsewhere in the film, an innocent old man, suspected of being the killer, is attacked by a mob that forms on the spot. Each of the mob members was presumably capable of telling right from wrong and controlling his actions (as Becker was not), and yet as a mob they moved with the same compulsion to kill. There is a message there somewhere. Not "somewhere,'' really, but right up front, where it's a wonder it escaped the attention of the Nazi censors.

Roger Ebert

6 de setembro de 2011

Beed-e Majnoon (2005)
Majid Majidi

Tema reincidente na obra de Majidi, Beed-e Majnoon trata da invisualidade (depois de Rang-e Khoda) e do ganho da visão. O cinema de Majidi é sobretudo humano, pleno de compaixão, sentimentalismo e fé pelo ser humano e por Deus, mergulha no realismo e na crueza do espaço inserido para falar de problemáticas sociais e familiares, sonhos, medos e conflitos interiores. Na verdade, tanto este como Rang-e Khoda têm uma forte ligação ao divino, à fé (antes dos créditos iniciais vemos escrito em letras bem grandes “Em Nome de Deus”), são como que “filmes-irmãos”. E é aí, na fé, que reside todo o lirismo do cinema do iraniano, na fé não só em Deus como no ser humano (e tanto em Rang-e Khoda como aqui traz-nos uma certa desumanização do homem para no fim alcançar a redenção).

Beed-e Majnoon fala-nos de um cego de quarenta e poucos anos que depois de uma queda se desloca a Paris para fazer uns exames. Descoberto um tumor benigno no olho direito fazem-lhe a operação e nesse entretanto descobrem que os olhos reagem à luz. Conclusão, outra operação e Youssef fica a ver. A partir daí, Majid (ainda que traga todo o sentimentalismo que todos os seus filmes têm) constrói a complexidade dum homem novo, dum homem que após trinta e tal anos sem ver ganha uma nova visão do mundo (no início Youssef chamava ao seu lar e à sua família “o pequeno paraíso”, coisa que depois rejeita), novos desejos. Beed-e Majnoon é uma fábula, algo que nos diz que só temos uma oportunidade na vida e que a devemos aproveitar, algo que nos diz que às vezes é preferível ser cego, viver na escuridão como diz Youssef. Ainda que ele demonstre sempre essa fé, há em Youssef, depois de recuperar a visão, uma tentativa de recuperar também o tempo perdido, de construir uma nova vida longe daqueles que sempre o amaram e a quem lhes deve tanto (e de esquecer o passado, de o apagar até), uma ganância que aos olhos de Majidi se revela como uma ingratidão para com Deus (a oportunidade de voltar a ver foi-lhe dada por Deus após rogo de Youssef), e por isso aquele final em que ele vai buscar outra vez o livro e alcança a redenção. Por isso, e além de todo o humanismo e de toda a fé presente, Beed-e Majnoon é um filme sobre a ingratidão e sobre como as pessoas só se lembram de Deus quando precisam dele. O lirismo e a fé de Majidi.

5 de setembro de 2011

早春 Sôshun (1956)
小津 安二郎 Yasujiro Ozu

Ozu, o cineasta do quotidiano, da beleza da simplicidade, dos pequenos gestos e das suas compreensões, dos erros e da aprendizagem da vida. Ozu, o cineasta da sinceridade, porque o seu cinema é o mais sincero de todos, o mais leal à vida, à semântica da vida (o que quer que seja que isso signifique), coisa mundana, coisa que irrompe da realidade e das pequenas (grandes) questões da vida.

Ozu, o cineasta da serenidade, nada no cinema se compara a esta serenidade, ainda que toda ela se veja envolta pela azáfama da vida, pelos problemas da realidade, do dia-a-dia, ainda que em todos eles (os seus filmes) brote ou a tragédia ou a traição ou a velhice ou o desemprego ou qualquer outra coisa que advém do realismo e das suas contrariedades. Ozu, o cineasta do optimismo, da transcendência da vida e do seu valor, do humano, da dádiva que é uma vida. Ozu, o mestre japonês.

Sôshun, filme do recomeço, dos erros e do perdão. Monumental. O filme em que Ozu faz dois movimentos de câmara, naquele corredor da empresa, sempre com destino à porta do escritório de Shoji, o filme em que mais do que nunca Ozu faz uma crítica social, em que o modo de vida do pós-guerra é posto em causa, o filme em que mais do que nunca Ozu se preocupa com as relações conjugais, aqui as dos funcionários, em como tudo isso traz o tédio, a insatisfação e a alienação dessas relações. Sôshun é o filme em que Ozu tira os jovens de casa, dá-lhes emprego e uma vida familiar autónoma, longe dos pais, o começo da sua família, é o filme em que a melancolia da separação dá lugar à melancolia social e laboral que afecta a conjugal/familiar, os erros daqueles jovens inexperientes que restaram da guerra, o recomeço e a remissão. A vida, nada mais que a vida.

1 de setembro de 2011

Ainda sobre Bigger Than Life, e salientando a imagem do post anterior, ressalva-se a sombra de Ed Avery que denota a sombra de Abraham Lincoln, a que vem o propósito do que Adrian Danks fala, a ilusão do poder e da grandeza e a sua metáfora.
Bigger Than Life (1956)
Nicholas Ray

"(...) In its final scenes, Bigger Than Life’s ultimate reinstatement of the family – a move typical of the family melodrama (though equally ironically rendered in a film like There’s Always Tomorrow) – is undermined by the precariousness of Ed’s recovery and our memory (though probably his wife and son’s too) of his past actions. Upon waking from the nightmare of his drug-addled state, Ed replaces his paranoid visions of and identification with the “new” – but very Old Testament – Abraham (who would now kill his own son) with the emancipative visions of another Abraham: “I walked with Lincoln… Abraham… Abraham”, Ed intones. Thus, Ed tries to contain his previous psychotic, murderous and highly egotistical state within the metaphorical frame of the “Father” of the new America. His walk with Abraham is clouded by delusions of grandeur, tolerance and reunification, and the spectre of emancipation and education.

Ed Avery becomes a man for his times, deluded into believing in an illusion of freedom, idealism and emancipation weaved into the fabric of modern consumerist America. But he also remembers, if only vaguely, the very real threat he posed to his family. In the end, as he beckons to his wife and son to come “closer, closer”, one must ask just who Ed is: everyman; Christ; Abraham; the great emancipator; a rebel without a cause; society itself; an empty vessel; or just a closet despot carried away by his own petty expressions of power?"
Adrian Danks in Senses of Cinema
The Asphalt Jungle (1950)
John Huston

31 de agosto de 2011

乱れ雲 Midaregumo - Nuvens Dispersas (1967)
成瀬 巳喜男 Mikio Naruse

A derradeira obra de Naruse é talvez o seu filme mais melancólico e mais implacável, desarma qualquer um, vai buscar a tragédia para juntar dois seres tão melancólicos quanto humanos, clementes. Aí, nessa bondade que extravasa como água duma fonte, tem lugar a moralidade e a mágoa de se perder o ser amado (juntamente com a mágoa, do outro lado, de ser o responsável moral por essa perda) para se resistir à entrega ao novo amor. A redenção é desde aquele momento em que se visita o espaço fúnebre e seus intervenientes o objectivo a alcançar por aquele homem que gradualmente se vai vendo assombrado e torturado pela culpa e pela redenção que parece inatingível. Como em todos os seus filmes, Naruse explora o conflito interior do ser humano e as suas relações inter-pessoais para descortinar a ambiguidade da acção humana e das suas emoções.

27 de agosto de 2011

Steamboat Round the Bend (1935)
John Ford

"Última adenda: será “Steamboat Round the Bend “, um dos cúmulos de todas as artes, um filme sobre corridas de barcos? Panfleto humanista? Jamais...é o supremo elogio às maravilhas liquidas e às suas envolvências, ao glorioso mississipi simbolo de todas as águas e de tantos heróis, navegantes, capitães e lobos dos mares, ode às imperiais máquinas que as atravessam, num maravilhoso que vai de Grifith a Walsh ou Tourneur, Lord Jim, Julio Verne, ou aos grandes pintores idilicos de tudo isso, Manet, Corot, Wyeth."
José Oliveira, daqui

25 de agosto de 2011

La Paura (1954)
Roberto Rossellini

24 de agosto de 2011

Womb (2010)
Benedek Fliegauf

Aquilo que primeiramente se denota em Womb é a ausência dos movimentos de câmara à Tarr que Dealer e as curtas-metragens traziam (Tejút era já uma incursão no plano fixo embora aí se prefira falar no experimentalismo ou radicalismo do cineasta), ainda que todo esse universo do mestre húngaro se sinta presente no filme. Falo não só da lentidão como dos enquadramentos e do aspecto sensorial, ascético e melancólico que comprova a continuada influência de Tarr no cinema de Fliegauf.

Womb é um filme cinzento, coisa que acentua a melancolia e o ambiente depressivo que gradualmente vai crescendo. É aí, na melancolia, que tudo assenta e inclusivamente a ambiguidade e a imoralidade do tema se constrói e desenvolve. O que me parece, ainda que se possa atribuir uma conotação política relativa ao tema, que o que mais interessa ao cineasta húngaro seja a ambiguidade da questão. O que temos, construída nos alicerces da dor e da mágoa que a morte traz, é a tentativa duma mulher (que ao fim de doze anos ao voltar “a casa” para reencontrar o seu amor de criança o perde num abrupto acidente) trazer o seu amado de volta à vida. Resolução: clonagem. O que acontece ou o que Fliegauf explora é a ambiguidade do tema, a moralidade e a falsa satisfação (ou felicidade) que o acto trará àquela mulher, o egoísmo e a efemeridade que tudo representa, a complexidade que deriva da decisão, o que resulta num filme belo, melancólico e muito bem filmado que embora procure nunca alcança a redenção.

23 de agosto de 2011

Nos últimos dias dois filmes de Zurlini vistos, Le Soldatesse e Seduto Alla Sua Destra, dois filmes políticos, dois filmes corrosivos, de lutas interiores e plenos de compaixão e de amor ao próximo, moralistas, filmes anti-guerra, coisas brutais e negras na imensidão da desolação da guerra, do mundo e do ser humano. São ambos manifestos à paz e à humanidade, filmes de princípios e de sacrifícios. Tragédias, tormentos, vias-sacras…
The Killing Fields (1984)
Roland Joffé

Meus companheiros amados,
não vos espero nem chamo:
porque vou para outros lados.
Mas é certo que vos amo.


Nem sempre os que estão mais perto
fazem melhor companhia.
Mesmo com sol encoberto,
todos sabem quando é dia.

Pelo vosso campo imenso,
vou cortando meus atalhos.
Por vosso amor é que penso
e me dou tantos trabalhos.

Não condeneis, por enquanto,
minha rebelde maneira.
Para libertar-me tanto,
fico vossa prisioneira.

Por mais que longe pareça,
ides na minha lembrança,
ides na minha cabeça,
valeis a minha Esperança.

Cecília Meireles in "Poemas"

22 de agosto de 2011

20 de agosto de 2011

Só umas palavrinhas sobre alguns filmes (ou projectos de filmes) que aí vêm: o Cisne da Villaverde deixa-me bastante expectante e curioso. Fala-se também, e cada vez mais, em remakes de filmes do Peckinpah, no comments. No comments também para a sequela do Blade Runner (cheira-me que agora é que o Scott vai mostrar que ter feito o Blade Runner foi coisa que lhe caiu do céu!!!). Quanto a Malick, sem ainda ter visto o seu The Tree of Life, começo a estranhar (e a desconfiar) tão movimentada agenda cinematográfica.

19 de agosto de 2011

Cronaca Familiare (1962)
Valerio Zurlini

Se há coisa que Cronaca Familiare tem, e digo-o com toda a certeza, é a “veia” Viscontiana que carrega consigo, os planos e enquadramentos majestosos e imponentes quer dos símbolos da velha aristocracia quer do espaço rural e urbano da época, a família como coisa sagrada (ainda que amputada desde a tragédia inicial), a secura e a palidez da imagem, a música...

Em Cronaca Familiare existe uma total e contida submersão de mágoa e de nostalgia dilacerante que nasce da tragédia (ou das tragédias) para alcançar a sua plenitude na intensidade dramática que se torna erosiva na implacabilidade e na intensidade dessa dramaturgia. Se é verdade que Cronaca Familiare é um filme trágico que nasce e morre na tragédia, ainda mais verdade é que, acima de todo esse tragicismo épico, Zurlini faz um filme de reencontros e de lutas interiores com a solidão e os laços fraternais. Da ausência surge esse vazio familiar interior que teima em se dissipar mesmo no reencontro e após dele. É a tragédia ou a aproximação dela que vem colmatar esse vazio e fortalecer o amor fraternal que tanto tempo esteve adormecido. Aí tudo é libertador da mágoa contida por anos, tudo é implacável e brutal na aceitação da força do mesmo sangue que corre nas veias e une aqueles dois irmãos. O amor, adormecido pelo tempo e pela ausência, emerge lentamente para explodir sob a ameaça da tragédia.

É por isso, e sobretudo em Enrico (um assombroso Mastroianni), um caminho tortuoso e negro (alegoricamente pois o filme é repleto de luz no seu radioso technicolor) de dúvidas e de ambiguidades quer existencialistas quer espirituais na procura da redenção e do amor fraternal. Ainda que Cronaca Familiare transporte consigo todo o realismo (ou o neo-realismo) italiano do pós-guerra é o lirismo dessa visão da vida (e dos destinos daquelas duas vidas) que mais nos atrai, é a brutalidade do tempo que tudo fez para os castigar pela ausência. É aí que Cronaca Familiare irrompe toda a sua implacabilidade, todo o sentimento e todo o dramatismo que irá verter todas as lágrimas da tragédia, é aí que as trevas da mágoa, da solidão e do conflito interior irrompem para libertar o homem. Implacável, brutal, grandioso, Zurlini.

16 de agosto de 2011

Der Blaue Engel (1930)
Josef von Sternberg

O que me interessa destacar em Der Blaue Engel é a utilização do espaço como símbolo de corrupção moral e decadente do homem. Mais uma vez, Sternberg enegrece tudo pelas sombras do submundo e da devassidão humana para aqui nos contar uma fábula ou um conto trágico do declínio dum homem cuja sexualidade reprimida lhe permite o fascínio e o deslumbramento ingénuo e etéreo na sensualidade e na paixão efémera por uma dançarina. Entre o expressionismo e o realismo é sobretudo nessa aproximação ao primeiro que partimos para o tenebroso, subvertido e degradante trajecto do homem corrompido pela devassidão do ambiente nocturno e de lascívia da “serpente humana” (a mulher) em direcção à cruel humilhação, à demência e às trevas mais profundas que podem emergir na alma do homem. No momento final Sternberg mata o homem pelo arrependimento, pela condição mais vil e degradante que este atinge. Essa é a sentença trágica de quem se deixou ludibriar pelo coração da obscenidade e da devassidão, isso é que faz de Der Blaue Engel um bom filme. O resto, o surgimento duma nova estrela (Dietrich), a interpretação de Jannings (distante da de The Last Command, isto para nos restringirmos a filmes de Sternberg), alguns planos e movimentos de câmara dignos de registo e o jogo de luzes, não me pareceu que fosse suficiente para superar quer Crime and Punishment quer os mudos The Docks of New York (sobretudo este) e The Last Command.

15 de agosto de 2011

The Last Command (1928)
Josef von Sternberg

"(...) The Last Command contains echoes of Jannings’s famous role in The Last Laugh. The exceptional importance assumed by the uniform in that German classic is carried over into the American film. When, in The Last Laugh, Jannings’s nameless character is demoted from his elevated position as a doorman to washroom attendant, he takes off his uniform and hands it over in an excruciating gesture of dejection, as if relinquishing his identity along with the garment. In The Last Command, we encounter the reverse: standing in a line with other extras, Jannings picks up a uniform to regain his former identity as a Russian general. What he surrenders in the German film he recoups in the American one. Employees in the costume department hurtle the bundled uniform to Jannings unceremoniously, indifferent to what it symbolizes. Without his uniform, Jannings looks as wretched in the American film as he does in the earlier German one. In both movies, the uniform changes the person: it bestows status, glamour, identity. The Last Command can also be read as an American counterpoint to the German film: it concludes with the death of the protagonist, while the German film offers a satiric Hollywood ending. The only intertitle of The Last Laugh states: “Here the story should really end, for, in real life, the forlorn old man would have little to look forward to but death. The author took pity on him and has provided a quite improbable epilogue.” With this, Murnau reveals the ending of a melodrama to be a mere construct: it is up to the director to end the story as he wishes.

The same level of reflection about the act of constructing filmic fiction occurs in The Last Command. Toward the end of the film, we witness the creation of a scene—the director calls for various elements, one after another: “Music, please—the Russian National Anthem!” “Wind machine!” “Lights!” And finally, “Camera!” Jannings is directed to inspire his troops to follow him and fight a final battle. The uniform has transformed him into his former chauvinist character (to the sound of the national anthem), and he rapidly loses his grip on “reality.” Past becomes present and acting becomes life. Frequent crosscuts to the running camera and the director, who monitors the scene with increasing apprehension, keep the viewer distanced from the pathos of the general reliving his traumatic past. A revolutionary soldier attacks the general: “You’ve given your last command! A new day is here! Down with your Russia!” Jannings strikes him down, grabbing the flag and climbing out of the trench. Hallucinatory images of the dead from his former Russia appear as superimposed ghostly figures—signifying (in the tradition of German expressionist cinema) that the general is going crazy. As his gestures become more imperious and threatening, reinforced by an extreme low-angle camera and high-contrast lighting, he exclaims: “The command is forward—to victory. Long Live Russia!” The reenactment of his past proves to be fatal: he dies in the arms of the director, his former adversary.

The Last Command can be seen, in part, as a melodrama about the Russian Revolution, with political conflicts translated into private tensions between two men over a woman whose death allows their reconciliation. But von Sternberg’s framing of this story turns the film into something else altogether, taking us out of the melodrama to explore the nature of acting and pretense. The last line of the movie states: “He was more than a great actor—he was a great man.” This distinction points to the director’s ambivalent attitude about the role of actors in the make-believe world of cinema. (...)"

Anton Kaes
(texto completo aqui)

14 de agosto de 2011

The Docks of New York (1928)
Josef von Sternberg

The Docks of New York é filme de mestre, conto milagroso ou coisa de utopias que emerge das sombras, da névoa e do pecado para alcançar não só a redenção como a plenitude. Aquele matrimónio vem trazer toda a luz àquelas duas almas errantes que num impulso súbito se atrevem a desafiar o destino, a escorraçar a amargura que momentos antes originou o quase suicídio. Sim, bela muito bela história de amor de Sternberg, coisa angelical bem no coração da libertinagem, o encantamento a trazer a candura, a renovada esperança e a luz à alma, mesmo que se hesite, mesmo que tudo a principio não passe de uma noite de diversão, mesmo que tudo seja inicialmente ilusão, conto de fadas por uma noite, mesmo que na manhã seguinte ele volte atrás, mesmo que aquele renascer só venha lá perto do final. Na verdade é o outro primeiro impulso, o de salvar a donzela das águas das docas, que marca a mudança, é esse passo dado que vem trazer o recomeço, a mudança, a redenção, mesmo não passando da inicial tentativa de engatar uma mulher para aquela noite. A resistência de Bill à mudança quebra naquele momento dela lhe coser o bolso da camisa… quando ela pega na linha e na agulha para coser o bolso e com as lágrimas nos olhos é incapaz de enfiar a linha na agulha, é aí que algo nele muda, é aí que o carinho e a mútua necessidade de se terem um ao outro começa, mesmo que essa mudança só se consuma depois frente ao calor abrasador das caldeiras do navio. É a singeleza e o lirismo de Sternberg a emergir na redenção de dois seres dissolutos, a luz do amor e da felicidade a irromper na névoa e na negrura do mundo.

13 de agosto de 2011

City Girl (1930)
Friedrich W. Murnau

12 de agosto de 2011

Le Quattro Volte (2010)
Michelangelo Frammartino

Tudo o que possa ser dito sobre Le Quattro Volte jamais fará jus ao filme, jamais conseguirá transmitir o poder que aquelas imagens transportam, a beleza e a imponência daqueles planos-sequência (principalmente aquele de que Vasco Câmara falava aqui) que não existiam em Il Dono, a destreza da câmara e do olhar sobre aquelas quatro vidas ou quatro voltas como que a ganhar vida entre essas voltas, porque tudo volta, tudo é um ciclo, porque tudo começa nas cinzas para nelas acabar (ashes to ashes como dizia VC), porque ali tudo é lúcido e objectivo como no anterior Il Dono, porque ali filma-se a realidade a sobrepor-se à ficção mas sem que esta se apague, filma-se uma qualquer transcendência dos sentidos, do mundo e da natureza que vai desde o homem ao carvão, da vida à morte. Grandioso é dizer pouco.

9 de agosto de 2011

Archangel (1991)
Guy Maddin

"(...) Archangel is a reverie on identity (Veronkha tells Boles to call her anything he likes) authenticity, and the ontological essence of the individual, who constructs that identity by shaping narratives that are shown in this film to be wrong-headed. The theme is echoed in its troubled family units, its doubles and reproductions, and the cinematic ghosts that haunt the film. To list the most obvious: the luminous American melodramas of Griffith, de Mille, Borzage and Vidor; the outré gestures of French Impressionists Gance and Epstein; the post-war melancholy of All Quiet on the Western Front (1930) and La Grande Illusion (1937); the subjective war horrors of Klimov’s Idi i smotri (Come and See) (1985); the avant-garde fragments of Deren, Brakhage and Anger; the post-modern experiments of early Von Trier; the shadowplay of Murnau and technology-fetish of Lang; the homosexual mythologies of Cocteau, Genet and Fassbinder; and the Surrealist-filtered Sadism of Picabia, Buñuel and David Lynch.

The events in Archangel are roughly contemporary with those of the great Russian films mythologising the Revolution, such as October (1927, Sergei Eisenstein) and The End of St. Petersburg (1927, Vsevolod Pudovkin) though because of the polyphony of this film’s bricolage, Maddin is more sparing in his use of the Soviet masters then he would be in the celebrated short The Heart of the World (2000). There are quotes from films like Aelita (1924, Yakov Protazanov), Battleship Potemkin (1925, Eisenstein) and Arsenal (1928, Aleksandr Dovzhenko), and some expert Eisensteinian montages of faces, but it is the Soviets’ symbolic relation to Maddin’s work that is important. Where these propaganda classics extolled the masses and teleological model of society and history, Maddin focuses on anti-social deviants and perverts, caught in the circles of their own primitive obsessions. The Soviet films generally focused on political centres like Moscow, St. Petersburg or Kiev; Maddin, like Pudovkin in Storm over Asia (1928), hangs on the margins. His montage, rather than synthesising opposites for a greater whole in the Eisenstein manner, isolates individuals from society and history, alone in their demented desiring. This is not to characterise the Russians as dull apparatchiks – when given the freedom, as in ¡Que Viva Mexico! (1932) and Ivan the Terrible (1945, 1958), Eisenstein was just as capable of the lurid and baroque. Ironically, Maddin’s films, like those of most “independent” film-makers, are often state-subsidised.
(...)"

Darragh O’Donoghue in Senses of Cinema

8 de agosto de 2011


Kin-Dza-Dza (1986)
Georgi Daneliya


Kin-Dza-Dza, sátira cómica e mordaz à sociedade moderna, coisa tão fantasista quanto realista, tão cómica quanto melancólica.

7 de agosto de 2011


Chronik der Anna Magdalena Bach (1968)
Jean-Marie Straub & Danièle Huillet

"...- Impossível não falar do primeiro plano do filme. Parece que o travelling foi inventado para que pudesse existir aquele plano. Após alguns minutos fechado somente em Bach tocando o cravo, o plano se abre por um travelling para trás e reconhece que há um espaço à volta dele, e que há outros músicos nesse espaço. O movimento de câmera começa no exato instante em que a música solicita a participação dos outros instrumentistas. É um movimento obediente, pois segue a demanda da música e, portanto, do espaço. É também a relação de Bach com o entorno, do indivíduo com a comunidade, do gênio com o mundo – tudo dado de um só golpe. “Se o acordo de um gesto e de um espaço é a solução e a conquista de todo problema e de todo desejo, a mise en scène será uma tensão rumo a esse acordo, ou sua imediata expressão” (Michel Mourlet). O que temos aqui é da ordem da “imediata expressão”."

texto completo de Luiz Carlos Oliveira Jr. aqui

5 de agosto de 2011

4 de agosto de 2011

Duas ou três coisas sobre Macbeth e Othello de Orson Welles:

1º a negrura; não há, ou pelo menos não vi ainda, adaptações destas duas obras de Shakespeare tão negras quanto estas, tão terríficas, tragicamente subversivas, submersão total nas trevas e na ideia quer demoníaca quer demente do homem.

2º os planos, os enquadramentos, as sombras, a expressividade, o poder do texto.

3º a ideia ou a similaridade com o expressionismo alemão (nos planos, nos enquadramentos, nas sombras…).
Macbeth (1948)
Orson Welles

The Tragedy of Othello - The Moor of Venice (1952)
Orson Welles

3 de agosto de 2011

The Lady from Shanghai (1947)
Orson Welles

* “Certa vez, na costa do Brasil, eu vi o mar, negro de sangue, enquanto o sol desaparecia no horizonte. Paramos em Fortaleza e alguns de nós pescávamos. Consegui a primeira fisgada. Era um tubarão. Então veio outro… e mais outro. Todo o mar ficou repleto de tubarões. E continuavam a surgir. Já nem conseguia ver a água. O meu tubarão feriu-se no anzol e o cheiro a sangue enquanto se debatia deixou os outros loucos. Então as feras começaram a comer-se umas às outras. No seu frenesim, comeram-se a si próprios. Podia sentir o desejo de matar como um cisco dentro do olho, podia sentir o cheiro da morte a exalar do oceano. Nunca vi nada pior… até este pequeno piquenique. E, sabem, nenhum tubarão daquele cardume sobreviveu.”

O mais importante ou o mais assustador e brutal nos filmes de Welles é o seu olhar, o terror daquele olhar, o medo que o domina. Tudo naquele Michael de The Lady from Shanghai é pleno de lirismo, homem sonhador, idílico, cheio de esperança e de confiança em si, é tudo isso e toda a ideia do amor e da redenção que o consome, que o persegue, que o faz caminhar para o meio das trevas. Aí tudo é negro, subversivo, irascível, brutal tão brutal quanto as noites do Tabu do Murnau, tão psicótico e sensual envolto num noir classicista bruto que submerge nas trevas da paixão e do desejo que tudo turva ao homem, na cegueira que o domina e que o conduz para o terreno tortuoso que tudo confunde e tudo esconde, a delicadeza e a fragilidade daquela mulher (uma espantosa Rita Hayworth loura) que tudo ou quase tudo consegue daquele homem, nada das habituais femmes fatales, coisa tão próxima da Tierney do Laura do Preminger, aquela doçura do olhar dela, a fragilidade que se mistura com a sensualidade, o olhar dele de quem tudo fará para a ter e tudo espera dela mas que sabe que cada vez mais se afunda numa teia corrompida. É esse o olhar de Welles, a procura do refúgio que acaba no meio da traição e do crime, a culpa que virá da obscuridade de toda a viagem tortuosa que se inicia naquele cigarro oferecido logo no inicio, a beleza e a fragilidade a enfeitiçar o homem e a moldar os seus actos, a complexidade do mistério, o mergulho vertiginoso na negrura daquele cardume de tubarões* que culmina naquela espantosa sequência final dos espelhos. Brutal.
A Casa (1997)
Sharunas Bartas

2 de agosto de 2011

楢山節考 Narayama-bushi kô (1983)
Shohei Imamura

Remake dum filme de 1958 com o mesmo título realizado por Keisuke Kinoshita (que ainda não vi), A Balada de Narayama de Imamura é um filme negro, sombrio, primitivo. O plot segue uma velha de 70 anos que apesar de ainda saudável anseia e determina a sua ida para Narayma. Ora, Narayama é o monte onde todos os velhos daquela aldeia primitiva japonesa (num tempo indeterminado mas primitivo) vão morrer. Tradições, costumes e regras ou leis próprias àquele povo. Essa, a de aos setenta anos irem para Narayama morrer, é uma regra que é imposta ou que deve ser cumprida porque a aldeia é escassa em alimentos, porque com a exclusão desses sobra mais para os outros. O mesmo para crianças indesejadas ou para o excesso delas numa família. O castigo é severo para quem rouba e para quem não cumpre as regras daquela comunidade. Imamura filma o caos, a fome, filma a sobrevivência ou a luta por ela, os mitos e os ritos primitivos, a negrura do mundo, a ausência (ou quase) de dignidade, de amor, filma a desumanidade e a natureza, a austeridade dela, da vida e do mundo. No entanto, naquele final, naquele homem que tem voltar sem olhar para trás Imamura deposita ali todo o amor ausente neste grande filme.

1 de agosto de 2011

L'Eclisse (1962)
Michelangelo Antonioni

L’Eclisse, o culminar perfeito duma trilogia estrondosa e brutal sobre a incomunicabilidade e a alienação do ser humano, coisa social da alta sociedade porque os pobres estão muito ocupados em tentar sobreviver. Existencialismos sim, mas acima de tudo conflitos interiores e incertezas pessoais, a solidão plena mesmo inclusivamente no seio duma relação, inadaptação ou abstracção ao mundo, às regras, à sociedade, aos convencionalismos, ao amor, coisa irascível ainda que contida, aprisionada no interior das personagens ou no vazio das imagens, das estradas e dos edifícios. São planos e planos e enquadramentos e planos e movimentos de câmara tão virtuosos e tão geniais a invadir o ecrã...

31 de julho de 2011

Gene Tierney
Anna Karina
Lauren Bacall
Yekaterina Golubeva
Setsuko Hara
Maureen O'Hara
Isabel Ruth
Sophia Loren
Kinuyo Tanaka
Claudia Cardinale
Marilyn Monroe
Brigitte Bardot
Inês de Medeiros
Marlene Dietrich
Ingrid Bergman

29 de julho de 2011

The Conversation (1974)
Francis Ford Coppola

Tudo em The Conversation implode na obsessão por uma coisa, a invisibilidade. O que isto é? Vamos por partes. Em primeiro, The Conversation é um filme que irrompe num presente que transporta um passado subjacente, ou seja, todas as acções de Harry Caul ocorrem segundo o passado, um passado traumático que a meio (do filme) nos é desvendado mas que condiciona ou que dilata a tal obsessão da invisibilidade (culminada naquele final desesperativo de quem perdeu essa invisibilidade e a sua segurança) e que molda a sua conduta profissional e pessoal, ou seja, a sua insociabilidade e essa obsessão na invisibilidade deve-se não só mas também ao passado que o liga (e o traumatiza) com o assassinato (leia-se o acto em si) - naquele sonho enigmático que antecede o seu despertar para a realidade (a falha da invisibilidade) Caul diz a dada altura “Não tenho medo da morte. Tenho medo de assassinatos.” - o que leva a um isolamento quer interior quer exterior que acarreta a obsessão e posteriormente a demência.

Segundo, e à superfície bem à superfície, o cariz político-social (e analogias à conjuntura politica da época) ou a tentativa em “denunciar” os perigos da tecnologia e mostrar que “o feitiço se pode virar contra o feiticeiro”. Mais ou menos isto.

Terceiro e último (não me querendo alongar), The Conversation é mais do que tudo um thriller enigmático à boa moda Hitchcockiana (ainda que, sim, se vislumbrem demasiadas influências do Blow Up do Antonioni), voyeurista, onde Caul vive as vidas dos outros e acaba por se perder na sua. O jogo de Coppola (a conversa que dá título ao filme e a sua interpretação - que é, de facto, o que está ali em causa) e a sua realização são de facto magistrais, o que indubitavelmente faz de The Conversation um dos melhores filmes de Coppola.

*A propósito deste post, descobertas recentes (e muito agradáveis) quer destes Polar Bear quer dos já postados aqui no tasco Asva quer do próprio blog que desconhecia.

26 de julho de 2011

Pelle Erobreren (1987)
Bille August

Épico da crueza e da sobrevivência, Pelle Erobreren é qualquer coisa como um irromper do sol nas trevas, é um filme que, à semelhança das estações do ano, deambula entre o acaloramento do sonho e da esperança e a frieza e a negrura da realidade. Em análise, a emigração da Suécia para a Dinamarca, pessoas em busca de prosperidade carregando consigo ilusões duma vida melhor, dum futuro risonho e daquilo que na pátria não encontraram. A realidade, a triste realidade, opõe-se ao sonho, afigura-se negra e caótica e composta por uma quase escravidão de classes. Aquilo que Lasse e o filho Pelle encontram na “terra prometida” é apenas ilusões e crueldades humanas que dissipam qualquer sonho do homem, mundo de servidões escravizadas e explorações humanas que decepam o homem e a sua esperança. É o que acontece a Lasse (uma grande interpretação do grande Max Von Sydow), que de confronto àquela dura realidade vai gradualmente perdendo a esperança e a coragem de enfrentar a crueldade e mergulhando no caos do álcool e da resignação. Por isso o vaguear da obra entre o sonho e a resignação, porque ao contrário do pai, Pelle nunca perde a esperança e alimenta em si o sonho de um dia partir e, como Erik lhe falava, conquistar o mundo. Esse conflito entre os dois, ou essa disparidade de encarar a realidade e o mundo que existe entre pai e filho, terá o seu culminar naquele final dramático e épico onde o sonho se torna realidade. Bille August filma esta história de diferenças sociais e étnicas e de ilusões quebradas de forma irrepreensível, segura, recorrendo à beleza paisagística que oscila entre a vivacidade dos campos amarelados das segadas ou do verde primaveril e a fragilidade do manto branco e do gelo dos invernos nórdicos. Ainda que aliado a um realismo cru e frio que acentua a crueldade e as adversidades da vida, Pelle Erobreren é uma ode singela e portentosa sobre a esperança e a determinação do ser humano.
I Soliti Ignoti (1958)
Mario Monicelli

25 de julho de 2011

L'Uomo Delle Stelle (1995)
Giuseppe Tornatore

L'Uomo Delle Stelle é mais uma fábula Tornatoresca, mais uma tragicomédia que arrasta uma certa doçura nostálgica (que atinge o ápice no final) e romântica sobre um impostor que se serve do cinematógrafo e a ilusória promessa da fama para extorquir dinheiro. Numa Sicília pós-segunda grande guerra onde a miséria reina, onde o sonho do cinema é coisa remota e ilusória, Morelli é o personagem que faz rir e faz chorar, que traz a falsa esperança do sonho de se ser actor a quem já pouca tem. Ao contrário da sua opus magnum Cinema Paradiso, Tornatore distancia-se da homenagem e do amor ao cinema para aqui o usar como instrumento falacioso e esperançosamente vão. L'Uomo Delle Stelle é sobretudo uma ode à Sicília ou ao povo siciliano, um conto do vigário que espreme a miséria de um povo, o seu isolamento social e económico, os sonhos e a ingenuidade desse povo. No entanto, Tornatore humaniza tudo (como é hábito) incluindo o seu anti-herói que depois de enfrentar as consequências do seu acto encontra na paixão por Beata a sua remissão. Um bom filme, um belo filme (espantosa cinematografia), mas nada mais que isso.

23 de julho de 2011

Persona (1966)
Ingmar Bergman

21 de julho de 2011

First Blood foi um dos “meus” primeiros filmes. Vi e revi, gostei e adorei, até um dia em que o detestei. Há coisa de dois anos, voltei a ver e voltei a gostar. Ontem revi mais uma vez e gostei ainda mais. O que interessa? Tudo, desde o primeiro momento que First Blood é um filme mítico, embrenhado num classicismo bruto, num humanismo (e na falta dele) que já pouco existe no cinema americano, é o espaço e o sentido de espaço que mais interessa, a brutalidade da violência como imagem da brutalidade da sociedade, a forma de se tratar um herói, não só como aquele xerife o tratará mas como a sociedade o trata (o próprio coronel que até ali o abandonou), esquecido pelo tempo e pelo espaço. O que há em John Rambo é a erosão e a explosão interior dum homem que face à injustiça daquele xerife traz de volta a guerra que até ali abraçou, é a irascibilidade do interior mutilado dum herói esquecido e abandonado, a solidão em todas as suas formas. E First Blood é tudo o que John Rambo é, algo esquecido e abandonado pelo tempo.

First Blood (1982)
Ted Kotcheff