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7 de agosto de 2011


Chronik der Anna Magdalena Bach (1968)
Jean-Marie Straub & Danièle Huillet

"...- Impossível não falar do primeiro plano do filme. Parece que o travelling foi inventado para que pudesse existir aquele plano. Após alguns minutos fechado somente em Bach tocando o cravo, o plano se abre por um travelling para trás e reconhece que há um espaço à volta dele, e que há outros músicos nesse espaço. O movimento de câmera começa no exato instante em que a música solicita a participação dos outros instrumentistas. É um movimento obediente, pois segue a demanda da música e, portanto, do espaço. É também a relação de Bach com o entorno, do indivíduo com a comunidade, do gênio com o mundo – tudo dado de um só golpe. “Se o acordo de um gesto e de um espaço é a solução e a conquista de todo problema e de todo desejo, a mise en scène será uma tensão rumo a esse acordo, ou sua imediata expressão” (Michel Mourlet). O que temos aqui é da ordem da “imediata expressão”."

texto completo de Luiz Carlos Oliveira Jr. aqui

13 de maio de 2011

Sicilia! (1998)
Jean-Marie Straub & Danièle Huillet

Sicilia! de Straub e Huillet, pouco mais de uma hora de declamações e conformações ou demarcações do espaço e do tempo, do diálogo e do tom operático que reifica Sicilia!. Não é documentário, é ficção dentro da realidade ou realidade dentro da ficção, coisa seca e organizada ou simétrica na posição dos actores e de tudo o que os rodeia, do espaço, no décor, na découpage, na mise-en-scène, nos movimentos, nos olhares, na condução narrativa e fílmica, no ritmo, no tom e nos espaços dos diálogos (o declamar). É tudo uma questão de colocação, de como enquadrar, de como declamar e entoar a obra de Elio Vittorini, de como filmar aqueles espaços e aqueles momentos, aquela gente, aquela história e as histórias por detrás da história, a luz e a sombra, o campo e o contracampo. Acima de tudo, liberdade cinematográfica e sua inteligência. Aconselha-se a leitura deste magnífico texto.

5 de março de 2011

Klassenverhältnisse (1984)
Jean-Marie Straub & Danièle Huillet

Primeiro Straub/Huillet que vejo e consequentemente primeira impressão que tiro. Filme de extremos e de coisas primitivas, ainda que tudo seja moderno mas que queira voltar à irracionalidade e a algum contra-senso humano e principalmente social, ainda actual. Para isso usa-se a América (terra de oportunidades e de esperanças sonhadoras; e claro que tudo é inerente à obra de Kafka) como metáfora do capitalismo e do absurdismo deste e consequente opressão para com as outras classes. Denuncia-se o sistema de dependências que Kafka quis expor, a opressão e a repressão das entidades patronais e a dependência do proletariado nestas para a sua sobrevivência, a separação da sociedade em classes. Tudo é sublevação (ou a luta das classes) e nada é pacificação (ou a plebeização destas), tudo é acusação e nada é remissão (isto o que Kafka reclama). Não há meio-termo porque no mundo também não o há. Vejamos o plano inicial onde aquela estátua prediz tudo o que vem a seguir, olhemos para a estátua (a qual nos diz o work in progress de Kanzog e Volkmer (2007) que se trata dum pirata chamado Klaus Störtebeker executado em 1401), na qual se retracta esse pirata de mãos atadas e com um olhar sério por cima do ombro num acto de inconformidade e de resignação. O que aquele plano inicial nos diz é que de mãos atadas está também o proletariado e a média classe social, condenados a serem executados e oprimidos continuamente.

Baseado ou inspirado em Amerika (ou Der Verschollene) de Kafka, há ali muita frieza e acima de qualquer outra coisa muita distinção entre as personagens, nas suas relações e na sua forma de agir e de falar e de olhar. Klassenverhältnisse, estória de um jovem exilado na América fugido de um escândalo sexual e aí se perde e se perde e enfrenta inúmeras situações absurdas. Straub dizia que não queria mostrar o que a obra de Kafka descrevia, que Klassenverhältnisse era o oposto do Le Procès de Welles pois era exactamente o que este tentava fazer, que isso devia ser deixado para os escritores. Todo o filme parece ser um pesadelo não só absurdo como cruel (ainda que haja passagens de misericórdia) de Rossmann, coisa tão lata na sua essência (que vem de Kafka), tão insólita naquele ambiente, naquelas relações (ou a sua aparência), naquelas acções e no seu desencadear, nos movimentos, nos diálogos, em tudo, tudo tão surreal sem coisas doutro mundo ou espiritismos ou seja lá o que se precise fazer para tornar algo surreal. Não, tudo é surreal na sua desmesurada realidade, na sua censura ao capitalismo e às relações das classes, na sua degradação social e humana, no seu grito de clamor ao comunismo e ao proletariado (embora Kafka não fosse marxista) e na rejeição a deus, na plasticidade do preto e branco, da matéria das matérias, coisa quase inorgânica que ultrapassa qualquer imaterialidade, coisa onírica que vive na realidade, na frieza dos homens e das suas acções, no absurdo da alegoria. Coisa paradoxal que vem de Kafka (como não podia deixar de ser), coisa que Straub e Huillet querem e conseguem fazer ou transmitir, filme da apatia e da plasticidade dessa apatia ou da letargia da dialéctica e das acções do ser humano (metáfora irrisória da sociedade), do plano e do enquadramento próximo, da expressão da inexpressividade ou qualquer coisa assim.

Straub dizia que tudo é feito ou filmado para ver não só Rossmann mas também o que Rossmann vê, isto porque Kafka narra a história na terceira pessoa e não na primeira. Por isso essa forma de filmar. Klassenverhältnisse foge do mundo (Rossmann está na América mas deambula sempre entre pequenos grupos de língua alemã) para se centralizar naquele trajecto e naquele pequeno e estranho círculo de personagens insólitas que desencadeiam acontecimentos ainda mais insólitos ou absurdos. Por isso talvez possamos falar numa comédia ou numa sátira ao capitalismo ou mais importante às classes sociais. Os silêncios, os diálogos, os olhares (os olhares do nada ou da longitude), tudo é tão frio e tão cru. São planos e planos e enquadramentos e planos-sequência e enquadramentos e sombras e planos e luzes e sombras e olhares, o cinema é isto na sua essência, coisa tão bela e monumental.