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12 de agosto de 2011

Le Quattro Volte (2010)
Michelangelo Frammartino

Tudo o que possa ser dito sobre Le Quattro Volte jamais fará jus ao filme, jamais conseguirá transmitir o poder que aquelas imagens transportam, a beleza e a imponência daqueles planos-sequência (principalmente aquele de que Vasco Câmara falava aqui) que não existiam em Il Dono, a destreza da câmara e do olhar sobre aquelas quatro vidas ou quatro voltas como que a ganhar vida entre essas voltas, porque tudo volta, tudo é um ciclo, porque tudo começa nas cinzas para nelas acabar (ashes to ashes como dizia VC), porque ali tudo é lúcido e objectivo como no anterior Il Dono, porque ali filma-se a realidade a sobrepor-se à ficção mas sem que esta se apague, filma-se uma qualquer transcendência dos sentidos, do mundo e da natureza que vai desde o homem ao carvão, da vida à morte. Grandioso é dizer pouco.

19 de maio de 2011

Il Dono (2003)
Michelangelo Frammartino

E enquanto espero (e desespero) por ver Le Quattro Volte (grande curiosidade da minha parte), vê-se Il Dono, primeiro filme de Frammartino, objecto tão lúcido quanto a consciência da gente daquela aldeia despovoada que espera o fim. É por isso um filme da espera, filme de velhos como velha é aquela aldeia condenada ao abandono (como tantas outras) pelas grandes metrópoles. Il Dono é um olhar seco, lento…desmesuradamente lento, lúcido e desprovido de qualquer emoção ou sensibilização sobre a velhice e principalmente sobre a espera do fim. Que fim? O fim desses velhos, o fim daquela aldeia enquanto local habitado e sobretudo trabalhado, a alusão ao fim da agricultura (que ainda vai sendo, para aqueles velhos, a única fonte de subsistência e de ocupação). Mas Il Dono é mais do que esse filme da espera da morte e do fim disso tudo, é um olhar isento, observador, rudimentar e simples do quotidiano e dos fantasmas daqueles velhos que resultam desse quotidiano e sobretudo do despovoamento, é o registo de memórias daqueles locais que filma, uma certa nostalgia dos tempos de outrora em que a desertificação nem sequer era imaginada, é filmar o que resta, a decadência do que resta, é filmar o nada porque para o nada caminha aquele local. Il Dono funde-se numa oscilação entre o olhar documental e o ficcional, prende-se (literalmente…não há movimentos de câmara) à visão decadente da despovoação (e há tantos planos a aludirem/metaforizar a isso) e segue um velho (o avô do cineasta) e uma puta (que se julga possuída pelo demónio) que vai alimentando os desejos sexuais dos habitantes e dos visitantes. E o filme é isso, o quotidiano daquela gente, o lento esmorecer daquele povoamento e dos seus habitantes, a letargia daquela gente que já nada espera da vida. Aqui não há bandas sonoras, há ruídos há sons há a natureza, aqui não há diálogos ou os que há são de fundo e quase nem os conseguimos ouvir nem interessam para nada, aqui não há um plot e uma narrativa à sua volta, há a procura de filmar o Homem ou o objecto ou o local, o momento, as acções, o realismo acima de qualquer coisa. Há ali tanta influência em Bartas, na lentidão, nos planos, na procura da expressividade, no olhar, na despreocupação da beleza imagética…e lembrei-me tanto de Alonso e do seu rudimentarismo, de Benning e da sua procura no registo. Il Dono é um grande grande filme mas é cinema para pouca gente.