16 de abril de 2026

 Freda (2021, Gessica Geneus)


poderosíssimo este freda, filme onde os ecos do colonialismo e do capitalismo reverberam sobre a tela para nos mostrar a miserabilidade que esse poder vigente deixa num país; freda é uma descida ao orco (que se nos apresenta logo naquele inicio que nos conta que houve uma violação), um passeio pela miserabilidade de um haiti corrupto, podre e a braços com convulsões sociais; há em freda, nessa sua génese política que conduz toda a narrativa, um factor subversivo que reclama consciência social e política, pois é na miserabilidade daquela gente que esses ecos coloniais ainda vivem; sóbrio, freda é filme que evita histerismos, facilitismos e sensacionalismo, assim como consegue, ainda que imerso nessa característica política que emerge do seu âmago, não ser um panfleto político; ora, na sua dramatização e na renúncia ao romantismo, freda fala-nos da desumanização daquela gente que culmina naquele final onde mãe e filha espelham a resignação e a descrença humana, da letargia recorrente disso tudo, das escolhas daquelas (e daqueles) jovens que abdicam dos sonhos para sobreviver; em suma, freda é um grande filme.

4 de abril de 2026

 



| carta ao filho |


Génesis (2024, José Oliveira e Marta Ramos)



o último filme do josé oliveira e da marta ramos é coisa elegíaca, oscila entre a ficção e o documental para falar de raízes, de antropologia, geologia, etnografia, etc, culminando nas memórias e naquilo que será a passagem de testemunho ao filho; coisa autobiográfica, pareceu-me, génesis (e o título não é em vão assim escolhido) carrega consigo um sentido humanístico que o faz, aliado aos planos panorâmicos que assombram o espectador, ser um tipo de herdeiro do cinema fordiano; de facto, toda essa paisagem nos mostra as fundações do cinema desta dupla, fundações westernianas não só de ford mas também de cimino; não é à toa que o sentido humanístico se vai exponenciar na sua veia documental, com o episódio dos refugiados ucranianos à cabeça; mas o filme da dupla portuguesa que nos faz rememorar reis e cordeiro ou straub e huillet, é, dentro dessa carta elegíaca ao filho - no começo ainda no ventre da mãe para no fim estar nos braços do pai -, uma viagem genesíaca e mitológica pelas terras (e serras) do fundão que analisa não só o passado como o presente e nos deixa as perguntas sobre o futuro, não só relativamente à tecnologia que avança vertiginosamente mas também quanto às nossas raízes e matrizes fundacionais, aos valores que são necessários cultivar e cujas novas gerações tendem a esquecer; belíssimo filme!