13 de agosto de 2019

a registar:

(2014) Os Maias - Cenas da Vida Romântica - João Botelho
(1969) Law and Order - Frederick Wiseman
(1972) Sleuth - Joseph L. Mankiewicz
(1973) The Way We Were - Sydney Pollack
(2017) Mrs. Fang - Wang Bing
(1959) Der Tiger von Eschnapur - Fritz Lang
(1948) Thunderhoof - Phil Karlson
(2018) The Mule - Clint Eastwood
(2017) Krotkaya - Sergey Loznitsa
(1988) Flores Amargas - Margarida Gil
(2012) Tabu - Miguel Gomes
(2018) Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos - João Salaviza, Renée Nader Messora
(2004) Tout un hiver sans feu - Greg Zglinski
(2010) Filme do Desassossego - João Botelho
(2017) Peregrinação - João Botelho
(1986) Der rosenkönig - Werner Schroëter
(2018) Monrovia, Indiana - Frederick Wiseman
(2018) Manbiki kazoku - Hirokazu Koreeda
(1956) Aparajito - Satyajit Ray
(1959) Apur Sansar - Satyajit Ray
(1964) Charulata - Satyajit Ray
(1983) El Sur - Víctor Erice
(2015) Mission: Impossible – Rogue Nation - Christopher McQuarrie
(1931) Seas Beneath - John Ford
(1965) Arizona Raiders - William Witney


revisões:

(1988) Die Hard - John McTiernan
(2007) Chacun son Cinéma - vários
(1988) Kárhozat - Béla Tarr
(1984) Paris, Texas - Wim Wenders
(1965) Pierrot le fou - Jean-Luc Godard
(1989) Lock Up - John Flynn
(1981) Francisca - Manoel de Oliveira
(1987) Sous le soleil de Satan - Maurice Pialat
(1939) The Wizard of Oz - Victor Fleming
(2008) Gran Torino - Clint Eastwood (segunda visualização que mudou totalmente, para melhor, a minha percepção do filme. dos últimos grande filmes de Eastwood.)
(1962) Hatari! - Howard Hawks

12 de junho de 2019


Seis meses após um incêndio devastar o celeiro da sua quinta e com ele levar a filha de cinco anos, Jean e Laure lutam, cada um à sua maneira, para enfrentar a realidade e as marcas que a perda deixou. Laure está alienada, amortecida no seu “mundo” como forma de fugir ao que aconteceu… Jean é quem tenta reconstruir o que se perdeu, retomar a vida e o funcionamento da quinta, é ele quem tenta “curar” as feridas dos dois, ultrapassar a dor e continuar a vida…

O filme de estreia do polaco Greg Zglinski, premiado inclusivamente em Veneza, é uma comovente e sensível história de amor e do poder do amor (quando é verdadeiro). Ainda que incorra em alguns clichés (que me parecem até incontornáveis para a própria história em questão), “Tout un hiver sans feu” de 2004, caminha e emerge na sobriedade e na lucidez dum cinema realista e existencialista preocupado com os conflitos interiores das suas personagens. Ali luta-se pela reconstrução e pela cura da dor da perda. Nisso, Zglinski faz um filme bastante intimista, onde progressivamente a implosão da dor se vai manifestando exteriormente por “vias” diferentes nos dois personagens desta história de perda e de reconstrução familiar.

O título do filme é a metáfora inicial para aquilo que ao longo de uma hora e pouco se atravessa na nossa vista, o gelo do inverno é o mesmo que se instalou naqueles dois corações após a perda da filha, e, esse inverno sem fogo do título é todo o processo que aquelas duas almas imersas na dor da perda vão atravessar na reconstrução e recuperação desse fogo, o amor (e porque “o amor é fogo que arde sem se ver”…). No final fica-nos a convicção de que o amor é o antídoto para a dor e que quando se ama verdadeiramente não há terceiros que possam extinguir esse amor! Agradável surpresa este “Tout un hiver sans feu”.

27 de maio de 2019


O mais interessante de ver em Chuva É Cantoria na Aldeia dos Mortos é um certo “progressismo” naquela tribo indígena, os krahô. Vemos isso na disparidade (ainda que não seja muito acentuada) entre as gerações, entre o “velho” e o “novo”, principalmente na forma de vestir, como que uma vaticinação duma certa perda de identidade (ainda que lenta) em que o próprio percurso do personagem com a sua fuga (ou tentativa desta) ao seu destino xamânico assim o atesta ou augura. Acho que Salaviza e Renée fogem, o quanto podem fugir, à etnografia que um filme como Chuva… poderia exigir, a “comunhão” entre espectador/personagem, que desarma qualquer distância entre eles e nós, envolve-se numa ficção que rompe a “linha” documental que à partida possa parecer primordial, isto porque a inevitabilidade do realismo e de tudo o que isso acarreta (ritos, crenças e costumes, linguagem) está lá, mas a envolvência estende-se ao tal progressismo e a uma certa fusão cultural “profetizada” ou, talvez, apenas ansiada. Para o superar envolvemo-nos na ficção “do que não é” mas que carrega consigo “tudo o que é”, ou seja, ainda que a história seja ficcionada todos os passos de Ihjãc são e transportam os “krahô” e o que eles são (e num dos diálogos na cidade entre Ihjãc e uma enfermeira acentua-se isso quando cada um diz que o outro não sabe ou não conhece o mundo dele). Realismo ficcionado.

Compreendo a comparação com o cinema de Weerasethakul mas parece-me que a similaridade é escassa, ainda que aquele início prometedor duma espiritualidade (coisa inerente aos povos indígenas) assim o fizesse transparecer, ainda que o “destino xamânico” de Ihjãc a isso aluda, acho que Salaviza e Renée distanciam-se absolutamente disso para se embrenharem numa procura sensorial de momentos, espaços, rituais e processos - o naturalismo, os sons, a imagem… como também me parece mais próximo de qualquer Ke-Jia do que a qualquer Weerasethakul. Rouch e Flaherty eram outra coisa, mais pura e rudimentar!

8 de abril de 2019


A Krotkaya (Uma Mulher Doce - 2017), atribua-se-lhe toda a desolação do mundo (neste caso daquela Rússia caótica e decadente que já em Schastye Moe Loznitsa tinha filmado - e no seu todo, Krotkaya é um filme-irmão da primeira ficção do bielorusso). Talvez por isso, esta viagem angustiante e degradante que aquela mulher faz até a uma Sibéria - que apenas perpetua um “estado” caótico, desolador e absurdo dum país (e neste registo Krotkaya até me pareceu um filme mais político e corrosivo que Schastye Moe, ou pelo menos mais transparente) - na incessante procura de respostas a uma devolução dum pacote enviado ao seu marido preso numa cadeia na Sibéria, Uma Mulher Doce caia um pouco na repetição ou na incidência do tema (e parece-me sobretudo que tudo aquilo já tinha sido dito em Schastye Moe).

Ainda assim, Krotkaya serve muito bem ao que vem, caminhando desde o início num registo kafkiano e numa tragicidade sempre à espreita que no final, de forma alegórica e satírica, a abraça (literalmente) naquilo que me parece ser mais uma metáfora da condenação ou da falta de compaixão (ou até dalguma resignação face ao caos social e à desolação duma Rússia imersa na corrupção e na ausência de valores éticos e morais). Aí, nesse final alegórico que envolve toda a dimensão crítica que percorre todo o filme, Krotkaya grita de forma surrealista e absurdista (e não só no final como em todo o filme, o universo kafkiano vem-nos constantemente à memória) aquilo que já em Schastye Moe nos tinha transmitido, não só a desolação e uma certa perda de identidade, mas também a condenação duma Rússia tão negra, tão perversa e tão corrupta onde até quem defende os direitos humanos (tolhida à partida de quaisquer capacidades na luta e na reivindicação desses direitos) aconselha a ter cuidado e a pensar muito bem em apresentar queixa.

Assim, Krotkaya é (assim como o era já Schastye Moe) uma viagem alucinante onde a candura é exposta e gradualmente perdida (e o final, ainda que alegórico, onírico e risível, é a brutalidade dessa aniquilação da candura e da consagração da tragicidade) e onde a feiura dum país imerso na alienação, na desolação, na decadência e podridão da ausência de moralidades (e de respeito e de tolerância e de compaixão…) vaticina o futuro duma Rússia onde a alma está condenada e dispersa na escuridão e na sua implacabilidade. O arrebatamento deu-se com Schastye Moe e, por isso, com Krotkaya dá-se uma desconsolação!