8 de abril de 2019


A Krotkaya (Uma Mulher Doce - 2017), atribua-se-lhe toda a desolação do mundo (neste caso daquela Rússia caótica e decadente que já em Schastye Moe Loznitsa tinha filmado - e no seu todo, Krotkaya é um filme-irmão da primeira ficção do bielorusso). Talvez por isso, esta viagem angustiante e degradante que aquela mulher faz até a uma Sibéria - que apenas perpetua um “estado” caótico, desolador e absurdo dum país (e neste registo Krotkaya até me pareceu um filme mais político e corrosivo que Schastye Moe, ou pelo menos mais transparente) - na incessante procura de respostas a uma devolução dum pacote enviado ao seu marido preso numa cadeia na Sibéria, Uma Mulher Doce caia um pouco na repetição ou na incidência do tema (e parece-me sobretudo que tudo aquilo já tinha sido dito em Schastye Moe).

Ainda assim, Krotkaya serve muito bem ao que vem, caminhando desde o início num registo kafkiano e numa tragicidade sempre à espreita que no final, de forma alegórica e satírica, a abraça (literalmente) naquilo que me parece ser mais uma metáfora da condenação ou da falta de compaixão (ou até dalguma resignação face ao caos social e à desolação duma Rússia imersa na corrupção e na ausência de valores éticos e morais). Aí, nesse final alegórico que envolve toda a dimensão crítica que percorre todo o filme, Krotkaya grita de forma surrealista e absurdista (e não só no final como em todo o filme, o universo kafkiano vem-nos constantemente à memória) aquilo que já em Schastye Moe nos tinha transmitido, não só a desolação e uma certa perda de identidade, mas também a condenação duma Rússia tão negra, tão perversa e tão corrupta onde até quem defende os direitos humanos (tolhida à partida de quaisquer capacidades na luta e na reivindicação desses direitos) aconselha a ter cuidado e a pensar muito bem em apresentar queixa.

Assim, Krotkaya é (assim como o era já Schastye Moe) uma viagem alucinante onde a candura é exposta e gradualmente perdida (e o final, ainda que alegórico, onírico e risível, é a brutalidade dessa aniquilação da candura e da consagração da tragicidade) e onde a feiura dum país imerso na alienação, na desolação, na decadência e podridão da ausência de moralidades (e de respeito e de tolerância e de compaixão…) vaticina o futuro duma Rússia onde a alma está condenada e dispersa na escuridão e na sua implacabilidade. O arrebatamento deu-se com Schastye Moe e, por isso, com Krotkaya dá-se uma desconsolação!

1 de fevereiro de 2019


a registar:

(2009) Le roi de l'évasion - Alain Guiraudie
(2001) Il Mestiere delle Armi - Ermanno Olmi
(2000) Les glaneurs et la glaneuse - Agnès Varda
(1987) Assa - Sergey Solovev
(1978) Blue Collar - Paul Schrader
(2017) First Reformed - Paul Schrader
(1962) David and Lisa - Frank Perry
(1980) Poznavaya belyy svet - Kira Muratova
(1998) He Got Game - Spike Lee
(1941) Hellzapoppin - Henry Potter
(1919) Herr Arnes pengar - Mauritz Stiller
(1986) Pisma myortvogo cheloveka - Konstantin Lopushanskiy
(1973) Sanatorium pod Klepsydra - Wojciech J. Has
(2016) Ang babaeng humayo - Lav Diaz
(2015) Bone Tomahawk - S. Craig Zahler [o mais fraquinho de todos, mas ainda assim merecedor de registro]
(1955) The Tall Men - Raoul Walsh
(1945) Dakota - Joseph Kane
(1970) Bloody Mama - Roger Corman
(1942) Reap the wild wind - Cecil B. DeMille
(1943) A Lady takes a chance - William A. Seiter
(1958) Unruhige Nacht - Falk Harnack
(1955) The Kentuckian - Burt Lancaster
(1950) American Guerrilla in the Philippines - Fritz Lang
(1946) The Killers - Robert Siodmack
(1948) The Three Musketeers - George Sidney
(1941) Swamp Water - Jean Renoir
(1966) Erogotoshi-tachi yori: Jinruigaku nyûmon - Shôhei Imamura
(1980) Larisa - Elem Klimov
(1979) Steiner, Das Eisern Kreuz, 2 Teil - Andrew V. McLaglen
(1954) The Hight and the Mighty - William A. Wellman
(2001) Akai hashi no shita no nurui mizu - Shôhei Imamura
(1973) Scarecrow - Jerry Schatzberg
(2017) Der Hauptmann - Robert Schwentke
(1949) On the Town - Stanley Donen, Gene Kelly
(1955) Man with a gun - Richard Wilson
(1967) Custer of the West - Robert Siodmak
(2011) Arirang - Kim Ki-Duk
(2006) Ober - Alex van Warmerdam
(1939) Stanley and Livingstone - Henry King, Otto Brower

revisões:
(1935) Mutiny On The Bounty - Frank Lloyd
(1993) Schindler’s List - Steven Spielberg [no limiar do interesse em destacar/registar]
(1945) The Bells of St. Mary’s - Leo McCarey
(1957) Men in War - Anthony Mann
(2014) Mr. Turner - Mike Leigh

29 de janeiro de 2019


"(...) E se nesse filme de 1970 tal plano corta a meio o coração e a alma de quem a tiver, o plano também último de um filme que Jerry Schatzberg realizou em 1973 pode ser ainda mais agudo, aflito. “Scarecrow” vai dos abertos horizontes de todos os sonhos e possibilidade até à tragédia consumada, dos possíveis recomeços e das dádivas do american dream até ao melodrama desossado. Mas como estamos em território e ofício orgulhosamente clássico, mesmo que implantados nessa profana década, só se pode começar a falar destas coisas pelo principio, antes de uma bifurcação oferecida aos que numa ordem e num tempo cruel do cada-um-por-si tiveram o descaramento de sorrir.
O descaramento da inocência. Da bela e altiva inocência. Reza assim: no meio do nada, do alto de uma colina da américa profundíssima desce Max a pé, no seu depois inconfundível estilo fanfarrão. Cá nos baixos vai-se deparar com um tipo bem mais novo do que ele, Francis, o tal alegre mas também tímido, a quem irá até ao fim tratar por Lion. Até ao fim, é justo que se reforce. A situação é tão caricata como a de Cary Crant nos milheirais de Hitchcock no célebre filme de 1959. Logo aí as personalidades de cada um e as maneiras de ir ao mundo se vão marcar. Max acaba de sair da cadeia meia dúzia de anos depois de entrar, meio trapalhão, com resposta sempre pronta para o que quer que seja, desconfiado, “filho da puta” como se define com orgulho, dos que não confiam em ninguém nem aparentemente amam nada, sempre com a violência de resguardo. Também fica birrento como uma criança quando se zanga. Lion pode ser à primeira vista o negativo deste, divertido mesmo que por vezes se note a diversão como abafador da solidão e do medo, dos que gracejam defronte aos problemas e que se apresentam com esperança e humor e amor mesmo que saibam que uma tempestade se aproxima. Ao contrário de Max costuma fugir dos obstáculos e das grandes decisões e, como o Robert do filme de Rafelson, entregou-se à marinha e deu corda às sapatilhas de rabo entre as pernas aquando de um filho e de responsabilidades prometidas. Max vai gostar quase logo de Lion pois este ofereceu-lhe o seu último fosforo, e aí nesse revolucionário vento e nessa revolucionária poeira de oeste deserto vão nascer partilhas e uma amizade sem limites. Seguidamente comem até rebentarem e fazem-se à vida pois a morte é certa. Ambos têm em comum a vagabundagem e o gosto pelo risco, mesmo que riscos diferentes. Puros drifters.

Longe dos grandes centros se vão manter e nos percursos clandestinos entre Denver, Detroit e a tão almejada Pittsburghg as mudanças e os cenários serão então mais sentimentais do que físicos. Serão transformadores como transformador e decisivo vai ser o conselho do jovem ao mais velho quando este quer sempre partir para a porrada. Ensina-lhe a ter a mesma reação que segundo ele os corvos têm diante dos espantalhos que protegem os campos plantados, que em vez de se assustarem, riem-se, e assim deixam os autores dos espantalhos em paz. “Não tens de lhes bater se os fizeres rir”. É Max que imediatamente se rirá de modo trocista do conselho, mas algo ficará. E se à custa de mais aprendizagens nunca suficientes os dois vão passando realmente coisas um ao outro, uma das coisas que mais me desarma neste filme para mim absolutamente desarmante e assombroso, é a forma como estes dois tipos fogem a qualquer arquétipo que desta década se poderia supor. Max, o velho que poderia representar o antiquado studio system é o mais selvagem, o anárquico, sem dúvida o idiossincrático, iconoclasta, ou seja, um Dennis Hopper ou um Francis Ford Coppola. Lion, na flor da idade e com sangue na guelra apresenta-se mais manhoso, protetor de nobres valores, humanista sincero, um Walsh ou um Lubitsch. À tão propalada fuga para a frente na década de 70 do cinema americano, Schatzberg vai tudo pôr em causa e tudo complexizar. Max só quer concretizar o desejo de uma vida, abrir um negócio. Lion embarca como seu sócio e antes disso só quer ver o filho e a mulher que abandonou num impulso. Depois vem aquilo que na vida sempre vem – relações entrevistas e prometidas, voltes faces, encarrilhamentos, inesperados. A vida e o tempo que consistem em não parar, modifica, e as coisas entre ambos começam a confundir-se e mesmo a reverter-se lentamente. Max passa do aterrador e do ridículo, como define Lion, só até ao ridículo do espantalho; assim como Lion, que um pouco na contramão tanto riu, tanto banalizou dores e nefastos, já não consegue fazer o luto quando ele surge verdadeiro e assim indispensável, daí até ao baque e a uma possível demência por atrofio dos valores é um passo tão rápido como o final, sem pinga de sangue. Pobre Lion, que não percebeu que a diferença entre os da sua raça terráquea, ou pelo menos ele próprio e os da sua boa natureza, em relação aos espantalhos tem a ver com a carne que esses simulacros não têm. Carne carne, como veias veias e ossos ossos. Sangue. Do que ferve ou congela. Organismo convulso verdadeiramente oposto à palha e ao oco dos tais que assustam ou fazem rir aves. E sobretudo, sobretudo o coração. A parte fulcral que a modernidade mais do que moderna da "sociedade perfeita" fez esquecer, ridicularizar. A parte feminina do homem, tal como nos disse Melville em relação aos demais bons que rareiam por esta terra, como esse inesquecível Billy Budd, com certeza da mesma arvore genológica de F. L. Delbuchi. Há gente que muda efectivamente, como Max. Outros que de tão anestesiados e rotinados são há muito incapazes de rir, como a mulher que o mata em infame escorregadela. E felizmente os tragicamente bons, esses tão raros, que como definiu G. Sand a propósito do já referido Chopin, são de uma organização demasiado perfeita e esquisita a este mundo grosseiro para que possam viver aí demasiado tempo. A beleza de uma pessoa que um mundo destes teve obrigatoriamente de castrar. Tal e qual como outras esferas se deleitaram na trucidação e abafamentos de belezas como as que por esta época Michael Cimino, outro desta casta, ousava erguer. Desse sorriso eterno e alegria na vida ao baque e à maca e à sedação por drogas, esse término de um caminho que era ainda uma aurora, tiro no coração de uma humanidade que transforma em vegetal quem por ela vive verdadeiramente - perfeito desenlace e perfeita imagem de uma sociedade corrompida e por tantos a ideal. (...)"

José Oliveira, daqui 

30 de maio de 2018

a registar:

(1969) The Undefetead - Andrew V. McLaglen
(1954) Ulisse - Mario Camerini & Mario Bava
(2017) Get Out - Jordan Peele
(1932) Gli uomini, che mascalzoni... - Mario Camerini
(1953) The Hitch-Hiker - Ida Lupino
(2017) Western - Valeska Grisebach
(1953) 99 River Street - Phil Karlson
(1955) Tight Spot - Phil Karlson
(1957) The Brothers Rico - Phil Karlson
(1956) Rentrée des classes - Jacques Rozier
(1990) A Walk - Jonas Mekas
(1958) Gunman's Walk - Phil Karlson
(1957) Decision At Sundown - Budd Boetticher
(1958) Buchanon Rides Alone - Budd Boetticher
(1975) Jeanne Dielman, 23, quai du commerce, 1080 Bruxelles - Chantal Akerman
(1974) Je, tu, il, elle - Chantal Akerman
(2017) L'amant d'un jour - Philippe Garrel
(1956) Elena et les hommes - Jean Renoir
(1968) 5 Card Stud - Henry Hathaway
(1965) The Sons of Katie Elder - Henry Hathaway
(2000) Zhantai - Jia Zhang-ke
(2013) Tian zhu ding - Jia Zhang-ke
(2015) Shan he gu ren - Jia Zhang-ke
(1997) Xiao Wu - Jia Zhang-ke
(1968) Bandolero! - Andrew V. McLaglen
(1966) This Property Is Condemned - Sydney Pollack
(2017) A Yangtze Landscape - Xu Xin
(2010) Karamay - Xu Xin

revisões:

(1968) C'era una volta il West - Sergio Leone
(1995) Se7en - David Fincher