24 de maio de 2018



Shan he gu ren ou Se as Montanhas se Afastam de Jia Zhang-ke é um filme de escolhas e das consequências dessas escolhas (ou do rumo que a vida segue devido a essas escolhas) personificando muito mais que isso. Se em Zhantai identificávamos facilmente a veia melancólica e uma certa nostalgia, aqui pareceu-me que Jia Zhang-ke vai mais longe e faz um filme-lamento… ainda que esteja lá a melancolia bem vincada, parece-me que o cineasta chinês faz um filme triste, de lamento pelo desenvolvimento económico e tudo o que isso acarreta. Jia é um cineasta que utiliza muito a música (e por música especifique-se as canções na rádio ou nos leitores de cassetes, etc) para criar esse ambiente melancólico (o que por vezes – e aqui neste filme em particular pois está-me mais fresco na memória – funciona bem e noutras não tão bem), e aqui, como em Plataforma, a canção principal (a Go West dos Pet Shop Boys) quer dizer tanto mas tanto… bem como a mudança de formato de imagem duns períodos temporais para os outros quer talvez simbolizar essa evolução (decadente) da China, assim como me parece associar quase sempre a melancolia às tais transformações sociais, culturais e económicas que a China atravessou desde os finais dos anos 70.
Existe aqui, ainda que um pouco à superfície, uma oposição – ou chamemos-lhe distinção – entre o rico e o pobre, entre o capitalista e o comuna. Shan he gu ren conta-nos a história de Tao (em mais uma grandiosa interpretação de Zhao Tao) e daqueles que a rodeiam em três diferentes períodos temporais (1999, 2014 e 2025), as suas escolhas e o rumo delas. Curiosamente, este Se as Montanhas se Afastam pode ser encarado quase como um filme-irmão de Zhantai, não só na tal melancolia como na reincidência de temas afectos ao cineasta e a estes dois filmes em questão, a tal transformação cultural que aqui assume maior gravidade com uma perda de identidade quer cultural quer social – o filho de Tao, no terceiro episódio ou terceiro período temporal (2025), além de ser chamado de Dollar só sabe falar inglês, impossibilitando a comunicabilidade com os “seus”, o que personifica bem essa perda de identidade. Talvez por isso me pareça que onde Zhantai ficou, Shan he gu ren continuou, ou seja, Plataforma ficou-se pela melancolia e pela nostalgia que as transformações estavam a trazer para se as Montanhas se Afastam prosseguir e “mostrar” o declínio social e cultural que esta moderna China capitalista abraçou.
Se as Montanhas se Afastam (2015) não é um Xiao Wu (1997) nem tampouco um Zhantai (2000), mas ainda assim é um grande filme dum dos melhores cineastas chineses contemporâneos e que faz (ou se não faz, deveria) inveja a muito aclamado cineasta por esse mundo fora.

23 de maio de 2018


Zhantai (Plataforma) é talvez, a meu ver e daquilo que até hoje vi de Jia Zhang-ke, o seu melhor filme. A palavra que me parece melhor para descrever Zhantai é melancolia, coisa que irrompe e abraça todos aqueles jovens que testemunham e protagonizam uma mudança cultural e socioeconómica da China dos finais dos anos 70 e inícios de 80. É indiscutível o teor político do filme, a principal preocupação do cineasta chinês é retractar essa mudança – e o que vemos é um pouco como Ozu fazia, detalhando a oposição do “velho” face ao “novo”. As mudanças chegam, a ocidentalização e o consumismo começam a “invadir” aquela China Maoista que, no começo do filme, ainda nos é perceptível. A pouco e pouco o individuo substitui o colectivo.
A história de Zhantai traz-nos um grupo de jovens, todos eles a atravessar essa transformação social e individual, pertencentes a um grupo de teatro que com o tempo – e o tempo e a sua passagem são também muito importantes neste filme – se vai desmembrando e transformando (e deve-se à privatização e à iminente chegada do capitalismo) numa liberalização individual na procura dos novos ideais. Jia Zhang-ke, e voltando à melancolia, filma aqueles jovens imersos nessa mudança social e cultural (a chegada da música pop e rock, as calças à boca de sino, os filmes americanos, os penteados ocidentais, os contraceptivos, as raparigas começam a fumar, a vida privada começa a ser realmente privada…), mas envoltos na melancolia e numa certa nostalgia que caminha lado a lado com a passagem do tempo e com as transformações políticas e sociais que trazem àquela juventude uma indefinição pessoal (como a certa altura se pergunta a um deles o que daqui a 20 anos seria).
Zhantai é um poderoso e monumental “documento” sobre a revolução (ou a nova revolução) da China actual, os primeiros “passos” daquilo que viria a ser hoje, a China capitalista, consumista e individual que substituiu a China colectiva de Mao.

22 de maio de 2018



Elena et les hommes do Renoir é um filme que atesta (e é um dos seus filmes finais) a grandiosidade do seu cineasta. A primeira coisa, ou o primeiro filme, que nos vem à cabeça ao ver Elena et les hommes é o, também de Renoir, La règle du jeu, similaridades quer no ritmo narrativo como na expressão satírica que todas as peripécias conferem ao filme. Depois, lembramo-nos de La Marseillaise (os cânticos e os louvores à sua França e à república), de Boudu sauvé des eaux (o humanismo que está presente não só nestes dois como em todo o seu cinema), de Le carrosse d'or e até de French Cancan. Elena et les hommes (tal como La règle du jeu - e, se nessa monstruosidade e aclamada obra, Renoir satirizava a burguesia, aqui fá-lo com a nobreza e o poder, elevando o amor e o romantismo) é um desenfreado e energético rodopio de gags ou peripécias em torno dum triângulo amoroso situado numa França da Belle Époque maravilhosamente e despreocupadamente “pintada” ou filmada por Renoir. Obrigatório.

21 de maio de 2018

Sobre o L'amant d'un jour do Garrel, e ainda que ache que continua longe das suas grandes obras das décadas de 60 (finais) e 70, é basicamente isto:

https://www.publico.pt/2018/01/04/culturaipsilon/critica/o-pai-a-filha-e-a-namorada-dele-1797833 http://www.apaladewalsh.com/2018/01/lamant-dun-jour-2017-de-philippe-garrel/ 

18 de maio de 2018

http://www.apaladewalsh.com/2015/10/in-memoriam-chantal-akerman/

14 de maio de 2018

...
ciclo fundamental a decorrer no MTTM

http://mytwothousandmovies.blogspot.pt/2018/05/pelos-pergaminhos-do-cinema-portugues.html

6 de maio de 2018

29 de abril de 2018

11 de abril de 2018


Filmes vistos que interessem destacar:

(1915) Regeneration - Raoul Walsh
(1926) Mat - Vsevolod Pudovkin
(1928) Potomok Chingis-Khana - Vsevolod Pudovkin
(1930) Au bonheur des dames - Julien Duvivier
(2017) A Legvidámabb Barakk - Noémi Varga
(2017) Toivon tuolla puolen - Aki Kaurismäki
(1987) The Dead - John Huston
(1980) Moskva slezam ne verit - Vladimir Menshov
(2002) Tiexi qu - Wang Bing
(2008) Caiyou riji - Wang Bing
(2014) Fu yu zi - Wang Bing
(2017) Colo - Teresa Villaverde
(2015) Bunker - Sandro Aguilar
(1951) Circle of Danger - Jacques Tourneur
(2016) São Jorge - Marco Martins
(2017) Frost - Sharunas Bartas
(2004) 2046 - Wong Kar-Wai
(2011) Sem Abrigo - José Oliveira, Marta Ramos, Mário Fernandes
(2012) Pai Natal - José Oliveira
(1941) Hideko no shashô-san - Mikio Naruse
(1966) Le Père Noël a les yeus bleus - Jean Eustache
(1974) Mes Petites Amoureuses - Jean Eustache
(1967) Marketa Lazarová - Frantisek Vlácil 
(2017) Nelyubov - Andrey Zvyagintsev
(1943) This Land is Mine - Jean Renoir
(1945) The Southerner - Jean Renoir
(1955) French Cancan - Jean Renoir
(2017) Logan - James Mangold
(2016) La mort de Louis XIV - Albert Serra
(1952) Scandal Sheet - Phil Karlson
(1955) 5 Against the House - Phil Karlson
(1963) La baie des anges - Jacques Demy
(2017) Three Billboards Outside Ebbing, Missouri - Martin McDonagh
(2017) Darkest Hour - Joe Wright
(2017) Churchill - Jonathan Teplitzky
(1957) China Gate - Samuel Fuller
(1963) McLintock! - Andrew V. McLaglen
(1945) Scarlet Street - Fritz Lang

Revisões:

(2000) No Quarto da Vanda - Pedro Costa
(1962) La jetée - Chris Marker

31 de janeiro de 2018

Dunkirk e Blade Runner 2049 vistos. Conclusões:

Achei o Dunkirk deplorável, nada que me espante vindo do suposto génio de Hollywood Mr. Nolan… arrasta-se e arrasta-se num turbilhão de facilitismos, clichés e arrojos técnicos e narrativos que em nada inovam no cinema (até porque já nos seus filmes anteriores os vimos). Quanto ao Blade Runner, é pretensiosismo atrás de pretensiosismo, é noir e não é, é espectáculo visual e sonoro e pouco mais, é Harrison Ford com uns míseros minutos no final a mostrar aos playboyzinhos do Gosling e do Leto o que é representar… enfim, é desinteressante e desnecessário.