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27 de agosto de 2011

Steamboat Round the Bend (1935)
John Ford

"Última adenda: será “Steamboat Round the Bend “, um dos cúmulos de todas as artes, um filme sobre corridas de barcos? Panfleto humanista? Jamais...é o supremo elogio às maravilhas liquidas e às suas envolvências, ao glorioso mississipi simbolo de todas as águas e de tantos heróis, navegantes, capitães e lobos dos mares, ode às imperiais máquinas que as atravessam, num maravilhoso que vai de Grifith a Walsh ou Tourneur, Lord Jim, Julio Verne, ou aos grandes pintores idilicos de tudo isso, Manet, Corot, Wyeth."
José Oliveira, daqui

27 de junho de 2011

The Hurricane (1937)
John Ford

The Hurricane, filme do céu e da terra, do mar e do vento, do paraíso e do inferno, do amor e do ódio, da lei e da injustiça. Tudo tão implacável, os heróis da candura, da pureza e da justeza, povo pueril - os nativos, guiados pelo amor, pela conquista da felicidade, a simplicidade da vida. The Hurricane, filme-irmão do Tabu de Murnau e do The Prisoner of Shark Island, toda a razão do mundo a José Oliveira neste texto, filmes negros da negrura do ser humano, da injustiça que traz as trevas aos justos, aos bons de alma, da injustiça que os faz pecar mas lutar, resistir, que os faz fazer qualquer coisa para escapar, voltar a casa, enfrentar o mundo, fugir à cárcere, filmes-tormento que tudo arrancam das sombras, do negro das noites, da maldade do mundo que tudo faz para trazer a tragédia. The Hurricane, filme-luz e filme-sombra, do resplandecente e da escuridão, das trevas que castigam Terangi e o seu povo, ao doutor que momentos antes da tragédia apregoara a vitória sobre a morte (que ceifava a vida da mãe de Terangi) com a vinda próxima dum rebento, filme do paraíso, dos momentos de candura entre aquelas duas almas que nada de mal fizeram para ter aquele tormento, da força do bem que tudo enfrenta para no fim alcançar a paz, a felicidade, do impossível tornado possível graças ao amor. Ah, The Hurricane filme-catástrofe, filme-catarse que chega no final, do perdão que DeLaage pede à mulher para depois o dar a Terangi, da brutalidade e da efemeridade, da luz e das trevas, da injustiça e do humanismo, do ódio e do amor, da vida e da morte, da fé dos justos. The Hurricane, monumento ao cinema.

26 de junho de 2011

The Wings of Eagles (1957)
John Ford

The Wings of Eagles é filme trágico, docemente trágico, coisa de amores interrompidos, preteridos pela paixão ao ofício, amor pela marinha que grita mais alto que o amor pela mulher. No fim nota-se algum arrependimento, a solidão que sempre o acompanhou irrompe e alcança-o por completo, sentimento de culpa que sempre o teve, por fim chega o cansaço. Filme de retornos efémeros, de patriotismo claro está, de honra, dignidade, de escolhas, do sentido de dever. Nada da negrura do The Prisoner of Shark Island ou do The Informer ou do The Grapes of Wrath, tudo tão perto de The Long Gray Line, filmes de uma vida, dum percurso, de decisões escolhas caminhos, dramas da vida, do homem. Magnífico.

24 de junho de 2011

The Prisoner of Shark Island (1936)
John Ford

"The Prisoner of Shark Island" é parecido, à superfície, muito à superfície, com os tais action movies de evasão que hoje em dia a máquina hollyoodiana ou mesmo os autores respeitáveis tentam fabricar com tanto barulho que chega a ser tristemente cómico, mas o que temos em Ford é a profundeza e a implacabilidade da verdade contra a máquina trituradora da falsa justiça e da mentira. Tudo se reverte passado o calvário, mas o traço memória fica. E Ford chega ao transcendental pois a angelical e terrível luminosidade daquele meio está em compromisso de sangue com Warner Baxter, o doutor que caiu em desgraça e que nada de mal fez, aliança-luz contra os criminosos, aliança-luz contra os que do cinema se servem como brinquedo ou, muitas das vezes pior, como audiovisual. Luz-guia. Luz-desbloqueadora. A mesma força poética que o Condenado de Bresson. Não há quem os pare, aos nobres e aos de bom coração, esses perdidos de amor, desprendidos, conciência em paz. As grades arrebentam-se, os polícias tombam-se, os tubarões vergam-se, o mar encurta-se como se encurtava e se vencia na sequência do outro mundo em que o Jon Hall de Hurricane atravessava todas as forças circundantes porque se sabia amado e com razão, momento irmão do “Tabu” de Murnau e de Flaherty, a incontrolavél e vulcânica furia da natureza domada com a força interior essa chama unica do amor pela vida todas as promessas.
José Oliveira in -

24 de maio de 2011

Drums Along The Mohawk (1939)
John Ford

Ford O cineasta, o lírico dos líricos, patriótico dos patrióticos, poeta das imagens e dos sentidos, cineasta da história da América em toda a sua plenitude, toda a sua monumentalidade, toda a sua grandeza. Drums Along The Mohawk é um portento de filme, coisa irascível na monstruosidade da negrura do cinema e da história da humanidade, coisa que brota tão dentro mas tão dentro da visceralidade do homem, que do sonho do homem foi capaz de triunfar, do nascimento duma nação que luta e resiste por um pedaço de terra (legitimamente ou não face aos índios isso já é outra história), glorificação dessa nação. Drums Along The Mohawk é o filme mais americano que pode haver, mais glorificante, mais apaixonado, mais exaltante, mais patriótico que pode haver no cinema americano. A exaltação da Revolução Americana, o nascimento de uma nação, é isso que é Drums Along The Mohawk, o brotar ou o irromper duma nação das trevas e do fogo e da animalização duma guerra, a conquista do território, o primeiro americano. Ford o maior dos maiores, o contador de histórias, o sentimentalista dos pequenos gestos, o glorificador da sua pátria. Ford O cineasta americano.

16 de maio de 2011

The Informer (1935)
John Ford

The Informer de John Ford são fluxos de sombras de implacabilidade a rasgar o ecrã uma e outra e outra vez incessantemente, qualquer coisa tão feroz e tão brutal quanto a culpa da traição que remói e remói a consciência do homem. Tudo é arrancado às trevas que as traz com ela (com a culpa) para naquela noite, negra de tão negra quanto a morte e quanto a névoa tão cerrada que paira pela cidade e que turva qualquer visão que possa resplandecer na multidão, assombrar o mundo e aquele homem que por um impulso que veio da fome e, acima de qualquer coisa, do amor, trai o melhor amigo condenando-o assim ao destino fatídico a que assistimos. Sobre ele cairá toda a culpa do mundo e sobretudo todas as trevas que se possam imaginar, nada de fugacidades ou de implicações fugidias, tudo é tão interminável quanto a certeza da morte, tudo é tão perpetuamente terrífico na certeza do destino que foi e daquele que virá, abrupto e irrompido tanto da traição quanto da morte, nas sombras da bruma (que poucas vezes tão bem exprimiu as trevas do mundo) cerrada que amaldiçoa aquela noite maldita naquele submundo duma Dublin a ferro e fogo com o jugo inglês. Não admira portanto, em tempo de sublevações e resistências obscuras, a desmesurada magnitude que a palavra traição assume. Gypo, o judas da história, não só traiu o amigo como traiu a causa, tem, por isso, de ser forçosamente eliminado. E é ele próprio, dominado pelo medo e pelo martírio da culpa, que aos poucos e poucos (e com a ajuda do álcool) se vai “entregando” (ou denunciando) à organização. Grandioso.

1 de abril de 2011

The Quiet Man (1952)
John Ford

The Quiet Man é Ford em estado cristalino, filme de amor à terra antes do amor à vida, nostalgia duma Irlanda desconhecida. Foda-se, The Quiet Man irrompe pelo ecrã e transpira tudo o que de melhor podemos encontrar no cinema. Não é só a nostalgia, não é só o humor, é tudo mais que isso, tudo tão belo, tão indescritível, uma beleza radiante naquela história de redenção, do recomeço, do desejo da tranquilidade, da procura da felicidade. É o mundo de Ford com todas as suas ilusões, idealidades e humanismos. Ford procura tanto os campos, procura tanto a ruralidade daquela Irlanda fantasiada, procura e procura e consegue encontrar nostalgia, beleza, valores, amor, tão longe e tão perto do seu Monument Valley, consegue criar aquele mundo perfeito, coisa idílica, utópica. Esplêndido.

30 de março de 2011


A propósito deste post Mogambo e Donovan’s Reef são dois objectos tão semelhantes e tão distintos que até perturba. Mogambo, comédia romântica que vai buscar toda a energia, beleza, sensualidade a Ava Gardner e a Grace Kelly (por mais que as paisagens o reforcem são elas que triunfam) e Donovan’s Reef, também comédia romântica onde o racismo, o preconceito e a religião se passeiam. Em ambos, os cânticos, o sentido humanístico, o amor. Ford.

17 de março de 2011

3 Godfathers (1948)
John Ford

3 Godfathers, western lírico e bíblico, filme sagrado como aquela criança o passa a ser, filme do deserto longínquo e bravio que devora e consome aqueles homens, filme da redenção e da remissão, filme monumental. Ford o fazedor de quimeras, cineasta do crepúsculo mais belo que alguém já filmou em cinema, cineasta dos cânticos e da honra do homem, cineasta bíblico e da compaixão humana.

3 Godfathers é a história de três foras-da-lei, três ladrões de gado convertidos pela primeira vez em ladrões de bancos, homens a quererem dar o “salto”, homens a querer passar de simples ladrõezecos de gado para ladrões de bancos, perigosos, homens maus. Mas eles são tudo menos maus, são tudo menos perigosos (ou pelo menos da forma que os ladrões de bancos o seriam), são tudo menos foras-da-lei à imagem dum Jesse James ou Billy The Kid. Ford mostra isso logo no inicio naquela chegada à cidade onde se dá aquele tipo de confraternização (se é que lhe podemos chamar assim) entre os três anti-heróis e o xerife que ainda não sabem que é xerife. Ford mostra o respeito pelas senhoras, mostra o cuidado linguístico, mostra a inocência dos aspirantes a criminosos ao contarem donde vêem e como se chamam. Já antes nos era dado a conhecer o carácter deles, já antes Robert pergunta a William se quer mesmo ir, se está mesmo preparado, que assaltar bancos não é a mesma coisa que roubar gado, que não quer tiros, que é para tudo ser rápido. Não vou voltar atrás diz William. Mas a verdade é que irá haver tiros (poucos mais haverá no filme inteiro) e nada será fácil.

O que começa como uma simples história de um assalto a um banco passa a ser e acaba como uma fábula bíblica ou algo a querer comparar-se-lhe. De três foras-da-lei em fuga e na busca permanente de água e da sobrevivência passam a três padrinhos (inevitavelmente metáforas dos três reis magos) determinados não só na busca de água como no incessante cumprimento da promessa feita a uma moribunda. Salvar a criança que ajudaram a nascer. Confirmação clara da ausência de maldade nos três padrinhos, ou pelo menos da presença constante duma dignidade e integridade (ou vestígios dela), o humanismo de Ford a vir ao de cima. O que importa ou aquilo que passa a importar a partir do momento em que aquela mãe morre é salvar aquele recém-nascido, cumprir a promessa feita. Tudo o que está para trás desvanece-se na areia do deserto e no calor abrasador do sol que queima e clama por água. A partir daquele momento nem o dinheiro do assalto é lembrado ou lhe dado a importância que no principio a tem (até porque depois do assalto nem se fala mais em dinheiro), a partir daquele momento eles já não fogem do xerife mas sim do tempo e do deserto, fogem para salvar o pequeno Robert William Pedro porque é tudo o que importa. É tudo o que o cinema de Ford sempre procurou, homens de honra, de justeza, humanos. E no fim Robert alcança a redenção. Magistral.

18 de novembro de 2010

The Long Gray Line (1955)



The Long Gray Line, drama de vida imerso num sentido execrável que a guerra traz (de resto, só por si, o acto fá-lo), forma desmesurada da acção. Filme de época (ou não), filme de uma vida (a story of a life), filme de um lugar. Em última análise, filme de um país (como de resto quase todos os filmes de Ford). Longe das paisagens desertas e rochosas do Monument Valley, The Long Gray Line comprime a espaços as sombras das incertezas e dos princípios do homem. Das sombras nasce a luz para às sombras retornar. Tortuosos mistérios da vida e do tempo. Ford sempre procurou as reminiscências do homem, sempre tentou alcançar o espírito. Do seu cinema encare-se a honra e o patriotismo como essenciais, mas sobretudo o sentido humanístico que escorre pelas personagens (e pelas imagens). Mundo do dever, do amor à pátria, da família. Estão sempre presente as escolhas do homem, os seus erros e as suas regenerações. Tudo caminha para a materialização da alma, tudo remete para a solidez do homem. Ford vai aos momentos do percurso, da vida, carrega a integração numa pátria nova para acabar nas memórias, na dor e na saudade. As vicissitudes e a plenitude da existência. Curso natural da vida. O olhar. Ford.

20 de outubro de 2010

7 Women (1966)








O abismo etéreo:


7 Women é de uma beleza hipnótica, é horrível. É belo e horrível, é uma dor aguda no estômago, um soco ideológico tremendo. Não é trágico, é outra coisa, a tragédia tem significado, consegue-se descrever. Não, é outra coisa. É morrer e voltar a nascer, é o filme mais espiritual e sagrado dos anos 60 e um traçar infinito de um pensamento que abarca todos os pensamentos, no fundo do abismo está o Céu, o fim de toda a dualidade, um Uno terreno e espiritual. O abismo etéreo.

Nem cito a gravidade que atravessa todo o filme ou a desilusão das suas personagens, na China apenas porque algo falta, something`s missing; o padre que não pregou, a freira que não viveu, a médica que não foi amada, a criada que nada viu. Não. O Cinema é o reflexo da vida e ouvi uma vez dizer que nos permite analisar as complexidades sob o véu da sua aparente simplicidade. Fora do ecrã, no pântano da realidade, não se consegue por estarem dispersas e diluídas, mas num filme, se bem feito, estão reunidas e ao descoberto, o véu desaparece. E 7 Women é dos mais belos descortinares de véus, parece levado pelo vento, naturalmente - é quando um filme não é uma sucessão de cenas e planos, mas um fenómeno inexplicável, uma força da natureza. Orgânico. Vivo.

É o mais belo e o mais sublime dos filmes e a obra de Ford é um degradé visual que se inaugura com a glória luminosa e libertadora de Young Mr. Lincoln, passa pelos jogos de luzes e sombras, os conflitos sociais e raciais, de Grapes of Wrath e The Searchers e acaba noutra glória, muito mais complexa, a deste filme. Ford é um pintor.

É conflituoso, clássico e radical. De tomada de posições, de confronto de ideologias, uma guerra aberta, de raivas libertas e raivas contidas, de rostos e enquadramentos lapidados. Num só local, que podia ser todos os locais. Cada forma, cada feitio, cada pormenor respeitado. Ford é um escultor, Ford é um arquitecto.

É de ritmos e sons, de pausas e tonalidades que ecoam pela eternidade. Em tom. Em perfeita harmonia. Ford é um músico.

Ford é de direita ou de esquerda? Aqui passa de um lado para o outro, levado pelas suas personagens, como quem dança, acompanhando os seus gestos, comportamentos e tomadas de consciência, de forma distanciada, mas sempre próximo, é a câmara, a objectiva e o visor. Serenamente. Os seus planos não descrevem, contam estórias. Ford é um coreógrafo.

E não há réstea de panfletarismo partidário em Ford, que não era um republicano que fazia westerns, mas alguém que observava e conhecia o ser humano. Pelos seus filmes dizemos que nos acha a sua família e que acha o povo a família dos seus heróis, e todos os grandes Fords descrevem isto, o dilacerar e o desfazer de uma família antes de outra, por razões nobres e de grande gravidade, nascer. O herói fordiano é alguém que se vê sem família e se designa a olhar por outra, mais numerosa, alguém que é destruído, comido vivo, mas que renasce das cinzas. Ford é um escritor.

Ford é o descritor e o constructor de sacrifícios. E é ao ver 7 Women que percebemos que filmar é o eterno sacrifício e que o abismo etéreo está apenas reservado a alguns. Mesmo na obra de Ford...

Há só uma maneira de mover a câmara, há só uma maneira de cortar, que é como quem diz “há só uma maneira de fazer Cinema”. Esta.

E fazê-lo?

Hoje, trocava todos os westerns de Ford por este filme...

por João Palhares em Cine Resort


8 de outubro de 2010

7 de setembro de 2010

Stagecoach (1939)






























Porque me lembrei de Ford, porque Stagecoach é talvez O grande clássico dos westerns. Porque mudou o género, porque daqui nasceu uma estrela, John Wayne "The Duke".