Mostrar mensagens com a etiqueta Teresa Villaverde. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Teresa Villaverde. Mostrar todas as mensagens

20 de agosto de 2011

Só umas palavrinhas sobre alguns filmes (ou projectos de filmes) que aí vêm: o Cisne da Villaverde deixa-me bastante expectante e curioso. Fala-se também, e cada vez mais, em remakes de filmes do Peckinpah, no comments. No comments também para a sequela do Blade Runner (cheira-me que agora é que o Scott vai mostrar que ter feito o Blade Runner foi coisa que lhe caiu do céu!!!). Quanto a Malick, sem ainda ter visto o seu The Tree of Life, começo a estranhar (e a desconfiar) tão movimentada agenda cinematográfica.

8 de junho de 2009

Transe (2006)

Um filme de Teresa Villaverde









Há filmes que têm o poder de nos tocar a alma. "Transe" é um desses filmes, uma obra-prima transcendente que se transcende a si mesma, uma obra-prima do mais raro que existe, uma obra-prima que faz lembrar Tarkovsky. Duma beleza ímpar. Não existem palavras suficientes no mundo para elogiar esta OBRA-PRIMA.

5 de abril de 2009

Transe (2006)


Teresa Villaverde ocupa juntamente com Pedro Costa um lugar de grande destaque no cinema português. Arrisco-me até a dizer que estes dois cineastas nacionais são, depois de Manoel de Oliveira e de João César Monteiro, os cineastas mais talentosos e competentes do nosso país. “Transe” confirma todo esse estatuto que Teresa Villaverde já alcançou no cinema nacional. Nesta obra, a cineasta volta a trabalhar com a actriz Ana Moreira (de quem já expressei aqui no Preto e Branco a minha profunda admiração não só pelo seu talento como pela sua beleza estonteante), depois de a ter dirigido em “Os Mutantes” de 1998 e “Água e Sal” de 2001. Ana Moreira tem com este “Transe”, na minha opinião, a melhor interpretação da sua carreira, embora a Andreia de “Os Mutantes” continue a ser a minha personagem preferida. Mas, de facto, Ana Moreira consegue com a personagem de Sonia a interpretação mais brilhante da sua carreira. Ela fala russo durante quase o filme inteiro como se de uma russa se tratasse, ela encarna Sonia de tal maneira que a sua postura, a sua atitude e o seu olhar iluminam um filme negro e cruel de forma portentosa. Se olharmos para Ana Moreira e as interpretações deste “Transe” e “Os Mutantes”, é nos visíveis as semelhanças entre os dois papéis, onde existe dor, sofrimento, desespero, uma inadaptação ao meio envolvente, etc.
Mas, as semelhanças entre os dois filmes começam e acabam nas personagens de Ana Moreira e no factor sociedade em que Villaverde volta a reflectir. Enquanto em “Os Mutantes”, Teresa Villaverde explora uma revolta e uma inadaptação à sociedade, neste “Transe” a cineasta reflecte num tema mais cruel e obscuro da sociedade, o tráfico de mulheres e sua exploração para a prostituição. Enquanto o filme de 1998 se mostra cru, cruel e agressivo, “Transe” é um retracto ainda mais cruel, transcendente, elíptico, onírico/real e com uma conotação defensora do sexo feminino, da sociedade actual europeia.
É impossível não assemelhar os primeiros cinco minutos do filme, nomeadamente a cena do gelo a partir-se, não só pela estética visual mas também pela linguagem russa, ao cinema de Tarkovsky, em particular ao seu “Stalker”.



“Transe” é a história de uma rapariga russa, Sonia, de vinte e poucos anos, que parece estar cansada de uma miséria, solidão e angústia material que a faz abandonar o filho, que está impedida de ver, o amigo e a irmã que é a única que lhe dá abrigo e apoio emocional. Numa procura de um futuro radioso, Sonia decide emigrar. Alemanha é o destino, onde ela encontra trabalho numa oficina, mas subitamente é raptada e levada para Itália e posteriormente para Portugal. A partir do momento em que a levam para Itália, Sonia vai iniciar uma viagem, quer física quer psicológica e emocional, onde a dor, o sofrimento, a humilhação e a crueldade duma realidade obscura como é o tráfico e a prostituição das mulheres abunda. Mas Sonia resiste, Sonia fecha-se no seu interior e aqui o título do filme não poderia ser mais adequado, pois essa atitude de Sonia é a personificação do transe, é esse estado psicológico que lhe dá forças para viver, é a sua maneira de lutar, é esse transe que a faz ter alucinações, que a faz anestesiar e alienar-se do “mundo” deplorável e miserável em que se encontra, do inferno a que foi forçada. É este transe em que Sonia se refugia que dá ao filme esse cariz onírico e elíptico. É este transe a força expressiva e narrativa do filme, duma transcendência que só Sonia compreende e adquire, dum estado psicológico que tenta apagar a dor de um estado físico, duma decadência e crueldade sem limites, e evitar assim a loucura, se não admitirmos que esse transe seja já um estado de insanidade mental.
“Transe” é um drama duro, frio, cruel e calculista que Teresa Villaverde filma magistralmente. É uma viagem pelos horrores de uma realidade obscura que não entra no nosso quotidiano, mas que infelizmente existe na nossa sociedade. Mais que um simples filme é arte, arte de fazer cinema, arte de reflectir na crueldade humana e na sociedade… na vida.
Obra-prima que com “Os Mutantes” faz dupla no cinema de Villaverde.




5 de março de 2009

Os Mutantes (1998)



Esta obra de Teresa Villaverde caracteriza-se pela sua crua e dura análise duma realidade social que abrange aqui três jovens inadaptados a essa realidade. “Os Mutantes” conta-nos a história de Andreia, brilhantemente interpretada por Ana Moreira, Pedro (Alexandre Pinto) e Ricardo (Nelson Varela). Estes três jovens são os “mutantes” que não se adaptam a uma realidade social onde lhes é imposta a permanência em centros de reinserção social em alternativa ao meio familiar agressivo onde cresceram. Teresa Villaverde pretendia fazer um documentário sobre essas crianças das instituições de reabilitação que crescem numa dura realidade bem diferente daquela que é suposta ser uma infância normal. Ao que parece, essa sua intenção em concretizar esse projecto foi-lhe negada.
O título do filme “Os Mutantes” identifica-se logo à partida com as personagens e os seus caminhos que parecem não ter um destino, a sua inadaptação à sociedade, os seus caminhos que conduzidos por vias sombrias os levam a destinos ainda mais negros, onde o crime é meio envolvente para um desfecho previsível de jovens inadaptados à sociedade e consequentemente inseridos num mundo delinquente que lhes traz uma liberdade desejada e um bem-estar procurado e ansiado que em centros de reinserção social lhes é negada. Mas mais ainda, essa inadaptação estende-se ao meio familiar onde tudo lhes é estranho e disfuncional, querendo assim parecer que o único local onde se sentem bem é na rua. A cineasta faz também uma reflexão à força interior desses jovens que lutando contra uma sociedade dura revelam um espírito de sobrevivência enorme. A cena do parto é particularmente dramática e visualmente impressionante. Nesta cena, bem como noutras, Ana Moreira transpõe para o ecrã todo um sofrimento, dor, angústia e desespero de parir sem ajuda. O abandono posterior do rebento, a fragilidade com que Andreia surge após o parto e o caminhar até ao seu desfalecimento mostram esse desespero e esse sofrimento de quem tentou lutar contra uma sociedade feroz e desumana que venceu mais uma alma errante e inadaptada neste mundo injusto.
Teresa Villaverde realiza um filme visualmente agressivo e onde é dado aos actores bastante espaço para triunfar, caso de Ana Moreira que tem aqui uma excelente interpretação, premiada nos Festivais de Taormina e Bastia.
“Os Mutantes” é uma obra-prima do cinema português que, infelizmente, têm cada vez menos espectadores. Por mim, vou continuar a desfrutar de cinema português com qualidade como esta obra de Teresa Villaverde.