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3 de outubro de 2011

Иваново Дэцтво/Ivanovo Detstvo - A Infância de Ivan (1962)
Andrei Tarkovsky

And this I dreamt, and this I dream,
And some time this I will dream again,
And all will be repeated, all be re-embodied,
You will dream everything I have seen in dream.
To one side from ourselves, to one side from the world
Wave follows wave to break on the shore,
On each wave is a star, a person, a bird,
Dreams, reality, death - on wave after wave.
No need for a date: I was, I am, and I will be,
Life is a wonder of wonders, and to wonder
I dedicate myself, on my knees, like an orphan,
Alone - among mirrors - fenced in by reflections:
Cities and seas, iridescent, intensified.
A mother in tears takes a child on her lap.

Arseny Alexandrovich Tarkovsky

Ivanovo Detstvo revisto uma e outra vez deslumbra ainda mais que a primeira vez. É tudo tão liricamente negro, coisa que brota das cinzas e das trevas da guerra e da sua destruição, olhar sobre a candura corrompida pela dor e pelo horror da guerra, a queda abrupta da candura. Ivan é tão inocente quanto a sua idade o exige mas tão homem quanto os maiores homens do mundo, tão bravo e tão corajoso quanto os grandes heróis da história, aprisionado pela inocência e pelo horror da guerra, pela dor da perda e pela sobrevivência. Revoltado, imerso nas mágoas e nas lembranças duma infância perdida, roubada, abandonado à sua sorte no mundo e nas suas trevas. É a angústia de Ivan, a brutalidade da guerra, o caos. São os planos assombrosos de Tarkovsky, a metáfora quase sempre presente, coisa onírica e lírica.

O espaço, coisa que Tarkovsky controla eximiamente, a claustrofobia que surge daquele enclausuramento do espaço, a sequência do delírio de Ivan naquele bunker enquanto sozinho espera por Kholin e pelo tenente, das melhores cenas jamais filmadas, alucinação e demência a explodirem junto com as bombas, sozinho, no escuro, num espaço fechado, a claustrofobia a emergir daquele Ivan imerso no terror e na crueldade da guerra, dos Homens, do menino tornado homem pela agrura do horror, do medo, da sobrevivência. O passado a assombrar o presente.

O negro. Sim, é tão negro quanto os mais negros de Murnau ou de Ford, imerge nos medos e pesadelos da candura perdida. “A guerra não é para crianças” diz-lhe várias vezes o tenente. Mas ele já não é criança embora o seja, a infância foi-lhe arrancada pela guerra. Já sofreu mais que muitos homens. Ainda assim é criança sim, “estou farto disto” diz ele algures. Nos sonhos sim é feliz, nas lembranças da mãe e da irmã, nas brincadeiras de criança, aí onde a esperança ainda tem lugar, nos sonhos é o paraíso. Por isso aquele final, o paraíso de Ivan, as suas lembranças. Mas a realidade é outra e Ivan sabe que só nos sonhos pode voltar a ser criança.

23 de agosto de 2011

The Killing Fields (1984)
Roland Joffé

Meus companheiros amados,
não vos espero nem chamo:
porque vou para outros lados.
Mas é certo que vos amo.


Nem sempre os que estão mais perto
fazem melhor companhia.
Mesmo com sol encoberto,
todos sabem quando é dia.

Pelo vosso campo imenso,
vou cortando meus atalhos.
Por vosso amor é que penso
e me dou tantos trabalhos.

Não condeneis, por enquanto,
minha rebelde maneira.
Para libertar-me tanto,
fico vossa prisioneira.

Por mais que longe pareça,
ides na minha lembrança,
ides na minha cabeça,
valeis a minha Esperança.

Cecília Meireles in "Poemas"

27 de maio de 2009

Encontros


Um corpo nasce do nada. Vejo-o à beira de ninguém, lugar partilhado onde ambos recolhemos o escuro pão de um nome inaudito. Permanecemos antes das palavras, nunca poderemos falar. As vozes são rios silenciosos debaixo da língua. Contornamos os jardins. Magnólias de fumo perturbam a escuridão e derramam os odores no céu, antes que cheguem os homens do lixo. Calemos pois, ao menos por agora, a ternura extemporânea. Esse corpo traz consigo a noite de que precisa. Alimenta-se de noite, não pode abandoná-la em qualquer degrau da solidão, ou em qualquer bar onde esqueça o dia que chegará. Olha-me como se eu fosse mais um vestígio de bruma, um candeeiro fora do percurso da luz. Olhámo-nos como astros frios rasando o asfalto, na cósmica intimidade de uma rua morta. Somos anjos sem nome, diluídos na chuva. Fugitivos das palavras - que não de outras catástrofes mais próximas - sabemos que não adianta vesti-las de meandros e consequências.
O horizonte cerra-se lentamente à volta dos rostos e a garganta das sombras é implacavelmente silenciada.


Fernando de Castro Branco
"Estrelas Mínimas"