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8 de outubro de 2011
O que realmente trata Gion no Shimai é da distinção entre as duas mulheres do filme, as duas irmãs que regem a vida de forma distinta. Aí reside a centralidade do filme, ainda que se trate do “martírio” da condição social das mulheres (mesmo tratando-se de gueixas), é a forma de pensar que interessa, a distinção entre a forma como tratam o amor, como o sentem - o instinto de sobrevivência tem muita importância -, como tratam a vida, a personalidade duma e doutra, o instinto duma e doutra (é a disparidade total tendo em conta que são duas irmãs), a moralidade duma e a ausência dela na outra, conto da ascensão do amor, da moral, do amor ultrapassar a sobrevivência, a ambição…
14 de junho de 2011
夜の女たち Yoru no Onnatachi (1948)
溝口 健二 Kenji Mizoguchi
Há dois momentos fundamentais em Yoru no Onnatachi. O primeiro, na noite, negra (e Yoru no Onnatachi traz toda a negrura do mundo, como tudo o resto de Mizoguchi) como as trevas que parecem descer à terra e com elas trazer o destino fatídico daquela mulher, destino esse que se augura ali naquele momento em que o seu bebé, tuberculoso, sucumbe à doença. Momentos antes já a notícia da morte do marido a tombara, a condenara à miséria e ao sofrimento com uma criança tuberculosa para cuidar. E naquele momento pensamos nós que a morte da criança tenha vindo a atenuar o sofrimento e o caos em que a sua vida mergulhara. Enganamo-nos, porque se antes alguma dignidade havia em Fusako, depois da morte da criança fica a dor, a amargura e o vazio que mais tarde, e após a dura realidade e constatação dessa realidade (e da condição da mulher, e da desilusão face aos homens e à conduta destes para com as mulheres), a fazem mergulhar na degradação física e moral da prostituição. O segundo momento, em que a redenção é alcançada, é o final também ele negro como as trevas (novamente as trevas) donde se vai lavrar a redenção (ironicamente) e donde brota a dignidade da mulher ofuscada pelo sofrimento. Brutal, monumental, grandioso…obra-prima.
溝口 健二 Kenji Mizoguchi
Há dois momentos fundamentais em Yoru no Onnatachi. O primeiro, na noite, negra (e Yoru no Onnatachi traz toda a negrura do mundo, como tudo o resto de Mizoguchi) como as trevas que parecem descer à terra e com elas trazer o destino fatídico daquela mulher, destino esse que se augura ali naquele momento em que o seu bebé, tuberculoso, sucumbe à doença. Momentos antes já a notícia da morte do marido a tombara, a condenara à miséria e ao sofrimento com uma criança tuberculosa para cuidar. E naquele momento pensamos nós que a morte da criança tenha vindo a atenuar o sofrimento e o caos em que a sua vida mergulhara. Enganamo-nos, porque se antes alguma dignidade havia em Fusako, depois da morte da criança fica a dor, a amargura e o vazio que mais tarde, e após a dura realidade e constatação dessa realidade (e da condição da mulher, e da desilusão face aos homens e à conduta destes para com as mulheres), a fazem mergulhar na degradação física e moral da prostituição. O segundo momento, em que a redenção é alcançada, é o final também ele negro como as trevas (novamente as trevas) donde se vai lavrar a redenção (ironicamente) e donde brota a dignidade da mulher ofuscada pelo sofrimento. Brutal, monumental, grandioso…obra-prima.9 de março de 2011
Chikamatsu Monogatari, Taki no Shiraito e Sansho Dayu.
Filmes trágicos e negros, negros como a escuridão das noites mais escuras (Pedro Costa veio buscar tanta coisa a Mizoguchi para O Sangue). Filmes de amor mas sobretudo de humanidade (e da falta dela), tragédias desumanas ou de épocas desumanas onde a vida humana não valia mais que um chavo, coisa absurda (pensamos agora) mas que o foi outrora. Filmes do declínio humano causado não pelo amor mas pelo abuso do poder, a degradação ou a inevitável caminhada em direcção a essa degradação dos protagonistas. Tempos selváticos e de desmesurada crueldade. Causas disso? Não o amor, que o há, porque (excepto Sansho Dayu) são tragédias românticas, são contos de amores proibidos ou desventurados, marcados pela crueldade ou pelo agoiro ou qualquer coisa que se assemelhe, qualquer coisa morta (ou condenada a morrer) à nascença, qualquer coisa tão trágica e ao mesmo tempo tão pueril que torna difícil a sua sustentação (a do romance). Não, o amor não é a causa, ou que a seja, não é a causa directa. Causa efectiva ou origem de toda a fatalidade é acima de qualquer coisa a repressão social. Por isso aquele destino e a tal caminhada inglória, em vão, sem que se desista e em que mesmo com a morte bem presente se resista e se lute pela razão e pela vida. E o amor (o amor maternal e fraternal em Sansho Dayu), como causa desse declínio, chega depois na força indescritível que o herói ou a heroína ou os heróis conseguem alcançar desse amor, aí o amor é causa do destino, do caminho que eles (ou ela) traçam. Mas eles são obrigados àquele caminho, àquelas decisões, porque a norma social e moral assim o dita (e falamos de épocas medievais e de revolução industrial, de tempos em que se crucificavam adúlteras e amantes, de tempos de escravidão e de leis "inventadas à pressão"). Mizoguchi filma as sombras das tragédias, das vidas roubadas pelos senhores feudalistas, da desumanização enraizada em cada pedaço de terra daquele Japão. Mas também filma a sublevação dos oprimidos, a esperança e a coragem, também filma a compaixão por pouca que seja. Coisas idílicas e quase bíblicas. São filmes inexoravelmente belos, são contos de dor e de amor à humanidade, coisas líricas que gritam nas sombras da morte a reclamação pela vida.
Filmes trágicos e negros, negros como a escuridão das noites mais escuras (Pedro Costa veio buscar tanta coisa a Mizoguchi para O Sangue). Filmes de amor mas sobretudo de humanidade (e da falta dela), tragédias desumanas ou de épocas desumanas onde a vida humana não valia mais que um chavo, coisa absurda (pensamos agora) mas que o foi outrora. Filmes do declínio humano causado não pelo amor mas pelo abuso do poder, a degradação ou a inevitável caminhada em direcção a essa degradação dos protagonistas. Tempos selváticos e de desmesurada crueldade. Causas disso? Não o amor, que o há, porque (excepto Sansho Dayu) são tragédias românticas, são contos de amores proibidos ou desventurados, marcados pela crueldade ou pelo agoiro ou qualquer coisa que se assemelhe, qualquer coisa morta (ou condenada a morrer) à nascença, qualquer coisa tão trágica e ao mesmo tempo tão pueril que torna difícil a sua sustentação (a do romance). Não, o amor não é a causa, ou que a seja, não é a causa directa. Causa efectiva ou origem de toda a fatalidade é acima de qualquer coisa a repressão social. Por isso aquele destino e a tal caminhada inglória, em vão, sem que se desista e em que mesmo com a morte bem presente se resista e se lute pela razão e pela vida. E o amor (o amor maternal e fraternal em Sansho Dayu), como causa desse declínio, chega depois na força indescritível que o herói ou a heroína ou os heróis conseguem alcançar desse amor, aí o amor é causa do destino, do caminho que eles (ou ela) traçam. Mas eles são obrigados àquele caminho, àquelas decisões, porque a norma social e moral assim o dita (e falamos de épocas medievais e de revolução industrial, de tempos em que se crucificavam adúlteras e amantes, de tempos de escravidão e de leis "inventadas à pressão"). Mizoguchi filma as sombras das tragédias, das vidas roubadas pelos senhores feudalistas, da desumanização enraizada em cada pedaço de terra daquele Japão. Mas também filma a sublevação dos oprimidos, a esperança e a coragem, também filma a compaixão por pouca que seja. Coisas idílicas e quase bíblicas. São filmes inexoravelmente belos, são contos de dor e de amor à humanidade, coisas líricas que gritam nas sombras da morte a reclamação pela vida.
5 de março de 2011
雨月物語 "Ugetsu Monogatari" (1953)
溝口 健二 Kenji Mizoguchi

Ugetsu Monogatari nasce como um conto (dos Contos da Lua Vaga) de ambição e de sobrevivência em tempo de guerra medieval para acabar num conto (ou numa tragédia) de fantasmas dos mais belos que pode existir. Mizoguchi prende e desprende o ser humano à vida, fá-lo deambular nesse vai ou não vai, morre ou não morre, fica com os mortos ou com os vivos, cria nas sombras e na forma como as usa a obscuridade fulcral da oscilação humana entre o desespero e a esperança. Poema aberto e filmado do amor e da morte, caminhos tortuosos pelos quais Genjuro caminha, caminhos da tentação inglória do esquecimento suportado pelo prazer dum obscurantismo espiritual ou fantasmagórico no qual o desejo e o encantamento se fazem reger. Coisa fugaz que se perpetua no tempo e que traz o esquecimento, coisa de fantasmas e seu feitiços ou suas manipulações, coisas de mortos e de espíritos mas nada de diabos ou de deus ou coisa semelhante, tudo carregado duma negrura que ultrapassa ou que vai além do preto e branco, são coisas inglórias que se retratam na sua fugacidade e na sua monstruosidade. São planos e movimentos de câmara assombrosos (e nunca o termo foi tão bem empregue), são sombras obscuras na sua essência, luta do homem pela sobrevivência, pela prosperidade, pelos sonhos e pela felicidade. Coisa tão trágica juntamente com um sentido de rejeição prostrado pelos erros e pela guerra que aquele final nos traz. A morte sempre presente, os horrores da guerra, a efemeridade do sucesso e do dinheiro, coisas tão secas e tão fugazes que só dão mais valor ao amor e a qualquer coisa como uma ausência de ambição ou de ganância, coisa bravia e elogiosa da simplicidade ou da humildade do homem.
溝口 健二 Kenji Mizoguchi

Ugetsu Monogatari nasce como um conto (dos Contos da Lua Vaga) de ambição e de sobrevivência em tempo de guerra medieval para acabar num conto (ou numa tragédia) de fantasmas dos mais belos que pode existir. Mizoguchi prende e desprende o ser humano à vida, fá-lo deambular nesse vai ou não vai, morre ou não morre, fica com os mortos ou com os vivos, cria nas sombras e na forma como as usa a obscuridade fulcral da oscilação humana entre o desespero e a esperança. Poema aberto e filmado do amor e da morte, caminhos tortuosos pelos quais Genjuro caminha, caminhos da tentação inglória do esquecimento suportado pelo prazer dum obscurantismo espiritual ou fantasmagórico no qual o desejo e o encantamento se fazem reger. Coisa fugaz que se perpetua no tempo e que traz o esquecimento, coisa de fantasmas e seu feitiços ou suas manipulações, coisas de mortos e de espíritos mas nada de diabos ou de deus ou coisa semelhante, tudo carregado duma negrura que ultrapassa ou que vai além do preto e branco, são coisas inglórias que se retratam na sua fugacidade e na sua monstruosidade. São planos e movimentos de câmara assombrosos (e nunca o termo foi tão bem empregue), são sombras obscuras na sua essência, luta do homem pela sobrevivência, pela prosperidade, pelos sonhos e pela felicidade. Coisa tão trágica juntamente com um sentido de rejeição prostrado pelos erros e pela guerra que aquele final nos traz. A morte sempre presente, os horrores da guerra, a efemeridade do sucesso e do dinheiro, coisas tão secas e tão fugazes que só dão mais valor ao amor e a qualquer coisa como uma ausência de ambição ou de ganância, coisa bravia e elogiosa da simplicidade ou da humildade do homem.
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