5 de março de 2011

雨月物語 "Ugetsu Monogatari" (1953)
溝口 健二 Kenji Mizoguchi

Ugetsu Monogatari nasce como um conto (dos Contos da Lua Vaga) de ambição e de sobrevivência em tempo de guerra medieval para acabar num conto (ou numa tragédia) de fantasmas dos mais belos que pode existir. Mizoguchi prende e desprende o ser humano à vida, fá-lo deambular nesse vai ou não vai, morre ou não morre, fica com os mortos ou com os vivos, cria nas sombras e na forma como as usa a obscuridade fulcral da oscilação humana entre o desespero e a esperança. Poema aberto e filmado do amor e da morte, caminhos tortuosos pelos quais Genjuro caminha, caminhos da tentação inglória do esquecimento suportado pelo prazer dum obscurantismo espiritual ou fantasmagórico no qual o desejo e o encantamento se fazem reger. Coisa fugaz que se perpetua no tempo e que traz o esquecimento, coisa de fantasmas e seu feitiços ou suas manipulações, coisas de mortos e de espíritos mas nada de diabos ou de deus ou coisa semelhante, tudo carregado duma negrura que ultrapassa ou que vai além do preto e branco, são coisas inglórias que se retratam na sua fugacidade e na sua monstruosidade. São planos e movimentos de câmara assombrosos (e nunca o termo foi tão bem empregue), são sombras obscuras na sua essência, luta do homem pela sobrevivência, pela prosperidade, pelos sonhos e pela felicidade. Coisa tão trágica juntamente com um sentido de rejeição prostrado pelos erros e pela guerra que aquele final nos traz. A morte sempre presente, os horrores da guerra, a efemeridade do sucesso e do dinheiro, coisas tão secas e tão fugazes que só dão mais valor ao amor e a qualquer coisa como uma ausência de ambição ou de ganância, coisa bravia e elogiosa da simplicidade ou da humildade do homem.

4 comentários:

Rato disse...

Belo filme, mas mesmo assim aquém da obra-prima absoluta do Mizoguchi: "Intendente Sansho"

O Rato Cinéfilo

João Palhares disse...

O mais belo filme do mundo...

João Gonçalves disse...

Adoro, está nos melhores de sempre.

Pedro D. M. Teixeira disse...

Obra-prima!
Um filme de uma sensibilidade e profundidade únicas, conduzido por uma realização verdadeiramente de topo!
O Japão sensivelmente a meio do século passado produziu autênticos monstros do cinema, deixando um legado de filmes invejável!