19 de março de 2011

Arsenal (1928)
Aleksandr Dovzhenko

Nos minutos iniciais de Arsenal (como em quase todo o filme) deparamo-nos com uma sucessão de imagens (em movimento) metafóricas que aludem à destruição e ao caos da guerra, à degradação quer psicológica quer física que a guerra provoca, à discrepância entre proletários e capitalistas e ao abuso do poder destes. A guerra vil e cruel, coisa mortífera que provoca entre outras coisas a orfandade da pátria (através da dos humanos) que resulta da iniquidade do capitalismo e posteriormente do sentido revolucionário ou reaccionário do proletariado resultante de um ideal ou da opressão sofrida. Por isso, Dovzhenko subintitula o filme como Uma história épica revolucionária. A primeira grande guerra e as consequências desta no povo são o ponto de partida de Arsenal, os tais minutos iniciais a isso (e não só) aludem, mas é à repressão (outra das alusões iniciais) sofrida pelo povo que Dovzhenko quer chegar. Porque a revolta dá-se por isso, porque aquele povo (e por povo entenda-se o proletariado e a facção agrícola) está mergulhado numa apatia ou numa espécie de transe social que resulta no caos e na miséria provocada não só pela guerra mas também pelo capitalismo e pela sua manipulação socioeconómica. E Dovzhenko cria simbolismos visuais e poéticos da devastação da guerra, da opressão, do delírio social em que aquele povo se encontra.

Ali, na desolação do solo ucraniano, onde os “filhos” da pátria retornam da primeira grande guerra, a sublevação do proletariado do povo ucraniano face ao capitalismo e à opressiva Rússia Czarista dá-se quase como uma extensão da grande guerra. Mas aquilo que à partida seria uma revolta contra os russos torna-se na luta contra o capitalismo. Mais metáforas virão, coisas tão obscuras e tão herméticas que fazem de Arsenal um dos filmes mais visualmente complexos que já vi e uma obra-prima incontestável.

7 comentários:

Enaldo disse...

Só não dá para levar tão a sério a propaganda stalinista.

Álvaro Martins disse...

???

O Homem Que Sabia Demasiado disse...

Nunca vi e agora com a tua crítica quero ver.

Sam disse...

É a Teoria de Montagem Soviética em todo o seu esplendor!

Tudo deste período é uma obra-prima.

Carlos Natálio disse...

Um grande crime nunca ter visto isto...

Flávio Gonçalves disse...

Adoro o filme, mas continuo a achar o Zemlya a sua obra-prima :)

Álvaro Martins disse...

Vi o Zemlya logo a seguir e considero os dois ao mesmo nível, ou seja, duas obras-primas ;) mas gostei mais deste.

já arranjei também o primeiro da trilogia o Zwenigora, será o próximo ;)