11 de maio de 2011

Sergeant York (1941)
Howard Hawks

Sergeant York é o mais Fordiano filme de Hawks, o mais humano, o mais patriótico, o mais singelo e o mais lírico dos filmes de Hawks. Sergeant York habita ou passeia-se pelo coração/alma do cinema clássico norte-americano/hollywoodiano, mas mesmo aí, em terrenos tão comuns a Hawks, Sergeant York é das coisas mais puras e mais belas jamais feitas no cinema americano. A história de um herói nascido da terra que à terra (e pela terra mas não só - já lá iremos) anseia voltar (durante o seu percurso na guerra), já que é pela terra que York tudo faz (e a terra assume um dos mais altos valores, assim como a família (sobretudo a figura maternal), coisa que só fortifica o seu universo Fordiano (ao filme claro) - e há tanto mas tanto de The Grapes of Wrath aqui, o lirismo de Young Mr. Lincoln), e é neste tudo (e noutros) que Hawks não só glorifica (mais Ford) Sergeant York como lhe atribui a sua dimensão bíblica. Lembremo-nos do momento em que York, embriagado e enraivecido com Nate Tomkins que lhe dera a sua palavra e depois não a cumprira, cavalgando em plena noite tempestuosa em direcção à terra deste, com a sua arma e encolerizado e disposto a fazer justiça com as próprias mãos, lembremo-nos desse momento em que os trovões (e o pastor Pile já lhe dissera antes que era o diabo que falava por ele, que o atentava e o possuía, e se há coisa que figure as trevas e a sua tenebrosidade é o trovejar) ou clarões caem como mais tarde na guerra bombas cairão e farão tombar companheiros, anacronismo da simbologia, coisa pueril que lavra a redenção que daquele trovoar ou daquelas trevas irá emergir. A luz, York vê a luz como mais tarde a voltará a ver para conseguir distinguir a fé do patriotismo, lirismo não só das imagens como da estória, ideais ou valores morais a bradar mais alto que qualquer sentido de vingança ou de irascibilidades, caminho de integridades (que é o mesmo que dizer caminho de Capra). Nesse momento York renasce das trevas (não só das daquele momento como daquelas em que estava imergido) e o que faz? Vai à igreja. Sim, vai à igreja e dá-se a remissão depois da redenção, o começo duma nova vida, um novo York (e tudo começou por causa de Gracie, pelo seu amor por ela). Depois virá a guerra e nela se solidificará o homem com a sua fé e o seu patriotismo para no fim (ou perto do fim) se erguer a sua integridade moral e ética. Sergeant York, filme das trevas e das sombras (as sombras de Hawks) dessas trevas, negrura que de tão negra como daquele momento antes da ida à igreja se desvanece para nunca mais voltar (nem mesmo na guerra), filme da terra, do amor à terra e da família. Monumental.

4 comentários:

João Gonçalves disse...

tenho mesmo de ver o filme! já ando a adiar há muito tempo... já agora, texto muito bom, Álvaro!

Álvaro Martins disse...

Acredita João tens mesmo de ver, passou a ser o meu Hawk favorito depois do Rio Bravo. E obrigado :)

Álvaro Martins disse...

*Hawks

José Rodrigues disse...

hum agradou-me isto