2 de abril de 2011

- Tome lá cem escudos. Mas não gaste tudo em vinho.
- Deus a abençoe Madre Abadessa, por esta santa esmolinha.
- Que Deus o acompanhe.
- Mais vale só que mal acompanhado.

- Ó Agostinho, toma lá cem dólares, mas não gastes tudo em freiras.
- Muito obrigado meu bom senhor.

……………

- Tantas notinhas. Não serão manhas de Lúcifer?
- É dinheiro imaculado. De hora a hora, Deus melhora.

…………

- Vou proferir uma blasfémia, mas como dizia Stalin, o melhor fascista é o fascista morto.
- Vou proferir uma obscenidade madre, mas como dizia um velho amigo meu: Trezentas velhas em fralda de camisa e uma à frente a tocar flauta lisa. Maço, calhamaço, os colhões a marcar passo! Maço, calhamaço, os colhões a marcar passo!

…………

- É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus. Sou um homem rico, isto é, privado do privado assento etéreo. Ando cá por baixo a refazer a minha vidinha. Tenho uns afazeres.
- O senhor é a minha luz.
- Sou fraca candeia.
- Deus não dorme.
- Mas eu durmo.

……………

- Aquele que joga contra Deus está condenado a perder sem remissão.
- Quem não arrisca, não petisca.

…………

- Que tendes, meu querido? Um ataque de epilepsia?
- Não. Um ataque de tesão.

…………

- Como é que um modesto empregado de uma geladaria se vê subitamente na posse de uma fortuna astronómica?
- Meu Deus, meus Deus, porque me abandonaste?

…………

- Quem diria. Não me reconheces?
- Nunca o vi mais gordo, e não dou cigarros.
- Mete os cigarros no cu. Encontramo-nos no Parque da Pena, deste-me uma mala cheia de bago e vendeste-me que eras Enviado de Deus, lembras-te?
- Eu? Isso não cabe na cabeça de ninguém. Por que carga de água é que eu lhe ia dar de mão-beijada uma mala cheiinha de dólares? Sou maluco, mas não sou estúpido.
- Desta não te safas meu filho da puta.
- Larga-me, antes que eu grite por socorro. Não suporto loucos furiosos.
- Tens de me livrar desta alhada! Dê por onde der.
- Não sei do que estás a falar. Já fui, de facto, Enviado de Deus, mas agora estou sentado no trono celeste, à direita do Pai.
- E eu que me lixe.
- Quando eu subi aos céus, disse para todos os mortais…Fodam-se vocês agora, que a mim já não me fodem mais.

…………

- Tens visitas. Levas uma rica vida!
- Vou cumprindo escrupulosamente a pena o melhor que sei e que posso.
- Quando chegar o Inverno e o frio começar a apertar, talvez o cárcere te dê menos vontade de ouvires a cantoria.
- Não estamos aqui para incomodar ninguém. Meu caro: do cadáver de um homem livre pode sair acentuado mau cheiro, nunca sairá um escravo.

10 comentários:

João Lameira disse...

Melhores diálogos de sempre. Ninguém os escrevia melhores do que o César Monteiro.

Álvaro Martins disse...

Sem dúvida João.

Neuroticon disse...

Tão bons, tão bons!

A trilogia de Deus ainda é dos meus filmes preferidos de sempre...

Incontornaveis :D

Álvaro Martins disse...

Completamente Neuroticon, eu diria mais, é das melhores trilogias de sempre ;)

Neuroticon disse...

A minha preferida talvez...

Ando a deixar a Trilogia do Silencio do Bergman para daqui a uns anos (há que ter alegrias durante toda a vida e não consumi-las todas nos mid-twenties :p) e a do Antonioni para quando tiver mais um tempinho...

Mas talvez sejam as unicas que possam arriscar o estatuto de minha trilogia preferida, que pertence ao César Monteiro :D

João Palhares disse...

"Mais vale só que mal acompanhado", hehe

"Quando Deus subiu aos Céus, disse a todos os mortais: Fodam-se vocês agora que a mim já não me fodem mais" - esta é do Comédia de Deus, acho eu

O Monteiro é um Senhor..

Álvaro Martins disse...

Um grande senhor. Há poucos no mundo com a genialidade dele.

Quanto ao "Fodam-se vocês agora que a mim já não me fodem mais" é do Bodas de Deus João, é quase no fim quando o João de Deus vai internado (antes de ir preso) e que está á procura do enviado de Deus que lhe deu a pasta (o Luis Miguel Cintra) para poder provar donde lhe veio o dinheiro, e que o encontra e que tem esse diálogo com ele, quem diz isso é o Luis Miguel Cintra :)

Sam disse...

JCM, volta que nunca serás desculpado pela tua genialidade!

Jorge disse...

Já conhecia algumas das frases citadas, no entanto nunca vi na totalidade um filme do César Monteiro. Apenas e só algumas cenas. Aliás como a generalidade do bom cinema português que existe por explorar nas variadas décadas.

A propósito qual os cineastas e os filmes que aconselhas no panorama nacional? sem restrição em décadas.

abraço

Álvaro Martins disse...

Assim de repente o Monteiro, Oliveira, Pedro Costa, o Botelho, Canijo, Paulo Rocha, a Teresa Villaverde, o António Reis, o Mozos, João Pedro Rodrigues, José Nascimento, Sandro Aguilar, Miguel Gomes, José Fonseca e Costa, João Nicolau...