19 de abril de 2011

O Rio do Ouro (1998)
Paulo Rocha

O Rio do Ouro, objecto tão obscuro e tão pleno de ritos em toda a clareza e aquele amarelíssimo (do ouro), como disse Jean-François Rauger, ópera da matéria. Ópera pelos cantares, coisas de tradições rurais. Paulo Rocha volta, de certa forma, ao provincianismo de Os Verdes Anos (e traz de volta consigo uma portentosa e assombrosa Isabel Ruth) que aqui se confunde com ruralismo (se do mesmo não se tratar). Fá-lo brutalmente e cruelmente, novamente a tragédia, aqui o rio, mito atrás de mito, crueza e ruralização da lenda, do ritual, invejas a despontar a tragédia dentro de todo um surrealismo e de toda a forma primorosa de filmar, de enquadrar e de montar. É o limbo do cinema, coisa agreste a desbravar qualquer maneirismo, qualquer facilitismo, coisa anacrónica brutal, ontologia da forma e da matéria, coisa brusca do amor que resulta ou tem de resultar na tragédia, “António não tens idade” grita Carolina quando este se atira ao mar para salvar Mélita, “já não tens idade António… já não tens idade” e voltará a repeti-lo no final depois da tragédia, consequência da inveja, do ciúme, das traições e da consciência da velhice que esta assume, mais do que súplica de precaução é imploração para não ir, para não a salvar, coisa a acontecer é o estar a sentenciar aquele recente matrimónio, idosos unidos pela necessidade da companhia, a fuga à solidão e ao passado, porque apesar da idade Carolina é tão jovem quanto Mélita “Tu tinhas o fogo no rabo… ninguém to consegue apagar” já lho tinha dito Joaquim antes daquilo, como já antes, no inicio, António diz para outro “A gente sempre volta ao principio”. São os fantasmas do passado a assombrar o presente e a augurar o futuro, Zé do ouro, o tal que viu o passado naquele momento no comboio, num espantoso plano que acontece ao passar pelo túnel, a luz vai-se vem a escuridão e as luzes amarelas do comboio alumiam a cara de Zé e o reflexo na janela de Carolina e de Mélita. “E não tem medo? - Medo eu?” e o passado (que se augura como futuro) assombra Zé do ouro, contraplano e a expressão de medo de como quem viu a morte ou o diabo em Zé que se apressa a fechar a mala do ouro para fugir dali e novamente plano da janela no escuro alumiado pelo amarelo das luzes do comboio e desta vez só vemos Mélita como que surpresa por tudo aquilo sem saber bem o que aconteceu, contraplano novamente e Zé foge dali como o diabo foge da cruz perseguido por Carolina. Vai-se a cena e da perseguição lá no fundo do fundo do comboio em que esta alcança o fugidio Zé do Ouro e lhe pergunta se viu o diabo este lhe responde entre outras coisas “…manchas de sangue… crimes de sangue… tome cuidado com a rapariga. - Porquê, corre perigo? - Não é isso. Não me faça falar”. Não foi, ao contrário do que lhe dirá mais à frente, o passado de Mélita que ele viu, foi antes o futuro de Carolina “Você é uma mulher perigosa. - Eu? - Leva um homem à perdição”, a tragédia, da vingança que nasce ali no rio naquele momento em que António salva a sobrinha, a jovem que o dos ouros diz atrair a desgraça. Traições e danças ao vento e à luz da fogueira em brincadeiras de crianças que culminam na tragédia, na morte, coisa bravia que vem do caos da humanidade, da fúria da irracionalidade, da loucura humana, da crueza e da sua ânsia no pecado, todo o pecado do mundo e da humanidade está ali naquele pedaço de terra, naquela gente, vai tudo jazer no rio (o ouro pertencer-lhe-á), tudo é mito, tudo é brutal mais que brutal na matéria e na forma e principalmente nas imagens. Magnífico.

8 comentários:

diogo disse...

aonde arranjaste o filme?

Álvaro Martins disse...

KG

diogo disse...

que é que isso quer dizer?

Álvaro Martins disse...

Karagarga

é uma comunidade tipo surrealmoviez mas é preciso aceder com convite e eu infelizmente ainda não tenho prestigio ou poder para convidar.

diogo disse...

quando o conseguires fazer e te lembrares manda convite se faz favor

diogo.ssb@hotmail.com

Zé alberto disse...

Álvaro, tão belo texto! É muito bom quando uma obra consegue suscitar textos tão arrebatados.

abraço!

Álvaro Martins disse...

Fica prometido Diogo ;)

Zé, muito obrigado ;)

Jorge Romariz disse...

Se alguém conseguir este filme para um singelo estudante de cinema ficar-lhe-ia eternamente grato. :-)