12 de dezembro de 2010

The Wild Bunch (1969)














Há em The Wild Bunch uma necessidade de humanizar o fora-da-lei, atribuir-lhe valores e moralidades. Não há nenhuma tentativa de beatificar (ou algo parecido) o fora-da-lei. Não, nada disso, há impiedade suficiente, violência desmedida (que a Peckinpah é própria), sangue a jorrar a torto e a direito, traições. Dureza, coragem, bravura, coisa que não falta aos heróis (e anti-heróis) do western. Mas estão lá esses valores e códigos éticos que aos bandidos são inerentes (em quase todos os filmes de Peckinpah está lá a amizade, o companheirismo, a tentativa de evitar matar civis desnecessariamente). O ladrão íntegro (ou o que se lhe possa parecer). The Wild Bunch é o fim desses códigos, a transição dos velhos bandidos para os novos. Aí reside a sua sentença, daí resulta o destino cruel daqueles escorpiões no início do filme e da morte posterior de Pike já no fim. Porque acontecem às mãos da nova geração (das crianças), porque resultam de actos sem regras, sem os tais valores e moralidades, sem limites. Porque deixa-se a réstia de clemência existente nos bandidos para passar a matar por matar. É essa a verdade de The Wild Bunch. O fim da ética de um bandido (se é que tal possa ser dito).

Longe do patriotismo e do sentido de dever de Ford, Peckinpah augura a guerra em toda a sua violência. Tudo explosivo, na senda da crueza do tiroteio (ainda que embelezada pelos slow motions de Peckinpah, pela sua montagem, pelos ângulos das varias câmaras e suas diferentes velocidades), na lei sem escrúpulos (que é o mesmo que sem lei), na honra e na dignidade do fora-da-lei. Mas encare-se a amizade como matéria principal de The Wild Bunch. Recorde-se aquele momento final em que Pike é trespassado por um enxame de balas, recorde-se a reacção de Dutch ao ver Pike tombar, a índole de sacrifício, a derradeira prova de amizade. Recorde-se a desilusão e a nostalgia de Deke ao ver Pike tombado naquele campo de batalha. A morte do inimigo outrora companheiro, o sentimento de vazio em que Deke mergulha, a imutabilidade do fora-da-lei (e por isso aquele sorriso final quando Sykes o convida para um novo bando). O que jorra daquele final, além de todo o sangue, é a dignidade, a honra e a amizade. The Wild Bunch é um dos melhores westerns jamais feitos.

5 comentários:

Dezito (André Sousa) disse...

Vi-o há poucas semanas e de facto é um grande filme, por vezes até repelente. Também já tinha visto o "Bring me the Head of Alfredo Garcia" e confirmo que Peckinpah tinha tanto de brilhante como de doentio (no bom sentido).

Cumps

João Palhares disse...

O meu Peckinpah favorito é o Cross of Iron, mas este aqui é o maior feito dele. Não sei se reparaste, mas o Directed by Sam Peckinpah, neste filme e no Pat Garret e Billy the Kid é espressão e sinónimo de acção, de violência. Aqui aparece quando o William Wolden diz "If they move kill them" e no outro, quando o Garret diz ao Bill que o tem de entregar à Lei. Faz já parte da narrativa. Os genéricos do gajo têm muito que se lhe digam..

Álvaro Martins disse...

Ainda não vi o Cross of Iron, mas curiosamente vi estes dias este e o Pat Garret. Não me tinha apercebido disso mas vou estar atento ;)

O Homem Que Sabia Demasiado disse...

É o meu Peckinpah preferido, logo a seguir a "Straw Dogs".

Sempre achei que o Tarantino deve ter visto muuuitas vezes o "Wild Bunch" no sentido de se inspirar para fazer os seus filmes.

Álvaro Martins disse...

Sim, nota-se no Tarantino uma certa influência de Peckinpah.