6 de novembro de 2010

Inception (2010)

Porque alguns seres humanos dizem que só sei dizer que o filme é uma cagada em três actos

No cinema há sempre quem queira por ornatos onde não os há na tentativa desesperada de inventar o que não pode ser inventado. A chamada ornamentação invisível. Classificar Inception como obra-prima ou o mainstream de autor é claramente o caso. Pelo andar da carruagem, qualquer dia temos aí à porta o Stallone de autor ou o porno de autor. Sei lá… Filmar é coisa de miúdos e saber filmar é coisa de graúdos. E o grande problema é que este cinema é coisa de miúdos, logo, coisa para estes, onde tudo dá ares aos videojogos e com visual de videoclips.

No entanto, Inception traz uma premissa interessante. Sonhos e uma filosofia intelectualóide sobre o controlo da mente humana quando inconsciente e a consequente manipulação desta. Qualquer coisa como isto. Interessante premissa sem dúvida. E à partida, pensamos nós, vem-nos à memória um Cocteau (como dizia o Oliveira) ou até um Lynch, e fantasiamos com algum surrealismo existente naquele mundinho de Nolan. Mas engana-se quem assim o imaginou. Surrealismo ou onirismo nem pó. O que há (o conteúdo) é uma historiazinha emocional (sensibilização barata) dum ladrão, o qual viu a mulher se suicidar por ambos (o casal) terem brincado demais nos sonhos (o que resultou numa confusão mental - a dela - sobre a autenticidade da realidade) e que quer voltar para casa para junto dos filhos (os quais não pode ver porque lá nos states pensam que foi ele que matou a mulher), historiazinha que cai por terra (ou na praia como nos inicia o filme) porque tudo o que o cineasta do mainstream de autor mostra são efeitos à Matrix (aliás, o Matrix é inspiração para muita coisa neste Inception, desde os efeitos especiais ao recrutamento do arquitecto [a Paige] e passando pela complexidade que quer atribuir ao complexo realidade/sonho), são filosofias baratas e teorias ridículas sobre como roubar e introduzir ideias dentro dos sonhos (já não bastava a descabida invenção de entrar em sonhos alheios e manipular isso, o homem ainda quis meter ao barulho ideias, inspirações, memórias e sonhos dentro de sonhos e mais sonhos) e, são tiros e mais tiros e explosões atrás de explosões a obstruir o ecrã. Engraçado, fiquei sem saber se aquilo era filme de acção, de ficção científica ou de fantasia (acho até que se adequa mais a este último género porque aquilo tudo não passa de pura fantasia frenética para os putos dos tais videojogos).

O Vasco Câmara tinha toda a razão quando dizia que o Sr. Nolan põe em cena a explicação da anterior e a antecipação da posterior. Tudo é explicadinho ao mais ínfimo pormenor. Aliás, além da teoria e das filosofias baratas que está constantemente a explicar, o cineasta do mainstream de autor cria simbolismos que (também estes) são constantemente explicadinhos ao pormenor (o pião do Di Caprio, a cena das crianças). Sempre presente estão também os clichés habituais que vão desde as personagens (quase todas elas clichezadas) até aos diálogos (excluindo os das explicações daquele enredo de sonhos) e passando por algumas cenas (uma delas quando a Paige vai embora após o seu primeiro sonho mas depois volta [facto que o Di Caprio antecipou]). Aliado a isto tudo temos uma realização banal onde, por vezes, se denotam rasgos de audácia do cineasta com alguns movimentos de câmara (nada que o Cameron e o Scott não saibam fazer). Efeitos slow motion e coisas parecidas dispenso (lá está o videoclip).

Inception é complexo, complicadíssimo com tanto sonho dentro de sonho e introduções e extracções de ideias e inspirações. Mas descomplica-se a ele próprio porque Christopher Nolan não deixa nenhuma ponta solta. Está tudo explicadinho para que o mais leigo dos espectadores possa perceber Inception.

16 comentários:

Roberto F. A. Simões disse...

Gostei da crítica. Ainda não vi o filme, nunca estive muito ansioso por vê-lo e assim continuo, mas conto fazê-lo até ao final do ano.

Cumps.
Roberto Simões
» CINEROAD – A Estrada do Cinema «

Sam disse...

A divergência de opiniões também faz parte desse "fascínio" que é sentarmo-nos e escrever/reflectir sobre um determinado filme.

INCEPTION, no seio da sua óbvia produção mainstream, alcança, em minha opinião, algo de muito raro nos dias que correm: um blockbuster que não insulta o espectador e, para o bem ou para o mal, quase o obriga a pensar sobre o que acabaram de ver. E tal distingue-o de 99% das suas produções "vizinhas".

Além disso, tem um argumento extremamente coeso (outra raridade). A tal "nenhuma ponta solta" deixada por Nolan. E algumas reacções à sua complexidade narrativa provou que este não é um blockbuster "para meninos". O final, sobretudo — que até pode ser considerado uma "ponta solta", ou não?

Por fim, é um filme de efeitos especiais sem abundância de CGI — e felizmente que o Nolan é um detractor desse flagelo chamado 3D. Regozijei quando observei a técnica "primitiva" utilizada em algumas sequências de acção, onde há muito que não se sentia que Cinema também é ilusão e a mesma pode ser concebida on camera.

Mas tal como referi no início, caro Álvaro, respeito totalmente a tua opinião e permite-me que partilha a minha. Porque Cinema também é evasão, e INCEPTION cumpre essa tarefa sem mácula.

Cumps cinéfilos.

My One Thousand Movies disse...

Eu concordo em pleno com um Álvaro.
É um filme ineressante, mas muito longe de ser uma obra-prima.
Nunca percebi o hype de volta do Nolan, que considero um realizador normalissimo.
O "Memento" sem dúvida que é um grande filme, mas no "Dark Knight" ele foi completamente levado a reboque pela morte do Heath Ledger. E neste mais uma vez ele foi completamente levado ao colo pelo hype.
Enfim, boa sorte para os Blog Awards, Álvaro ;)

Anónimo disse...

"Está tudo explicadinho para que o mais leigo dos espectadores possa perceber Inception."

Então por esta frase conclui-se que um filme só é bom se a maior parte das pessoas não perceberam nada...

Luis Andrade disse...

O problema não é que não saibas justificar a tua opinião em relação a este filme. É óbvio que isso consegues. O problema é que és parcial em relação a análise de blockbusters, não sabes pensar pela própria cabeça e rejubilas quando vês que um crítico diz mal de filmes que o grande público adora. Isso de dizer mal de um filme é fácil, agora compreendê-lo na sua essência é mais complicado. As referências ao cocteau e ao lynch são fáceis de se fazer mas são também muito descabidas, este filme do nolan tem uma linguagem completamente diferente. O oliveira e o câmara não são nenhumas sumidades, tambem têm limitações.

Não digo isto por mal, nem quero provocar, é só a ideia com que fico.

Álvaro Martins disse...

"O problema é que és parcial em relação a análise de blockbusters, não sabes pensar pela própria cabeça e rejubilas quando vês que um crítico diz mal de filmes que o grande público adora." No cinema, qualquer parcialidade é inerente ao espectador. Seja por ser blockbuster ou cinema de autor, seja por ter um actor/actriz que gostes, seja por ser dum realizador que admires, etc, há n de coisas que te levam a ver um filme. Não há imparcialidade no cinema porque se o vais ver é com algum intuito e, à partida, com algumas expectativas. O que pode haver são desilusões ou surpresas. Quanto ao resto do comentário, nem te respondo, já me fartei da troca de insultos e, no fim de contas, não penso pela minha cabeça.

Álvaro Martins disse...

Roberto, fico contente de saber que gostaste.

Sam, cada um tem a sua opinião, mas não percebi esta afirmação "Porque Cinema também é evasão". Evasão de quê?

Chico, obrigado. Boa sorte para ti também que bem mereces ;)

Anónimo, para isso é que serve a cabeça, para pensar. Isso é que é interessante no cinema, um filme que nos faça pensar. O resto, é bom prós sábados e domingos à tarde ou à noite, para quando estamos realmente cansados do trabalho. Valem o que valem. Não condeno quem os vê mas sim quem os quer por no mesmo patamar dos outros.

Manuela Coelho disse...

Álvaro, apreciei muito a tua crítica. Penso que conseguiste desmembrar o filme com enorme precisão e detalhe. Também concordo plenamente com a crítica.De resto, não podia deixar de te desejar boa sorte para o Blog Awards!Parabéns pela nomeação, é mais do que merecida! ;)

bjs

Álvaro Martins disse...

Oh obrigado Manuela :) Bjs

Sam disse...

Evasão do quotidiano, de uma forma como só o Cinema consegue.

Álvaro Martins disse...

OK. Mas Sam, quase todo o cinema (por mais realista que seja), visto por esse prisma, é evasivo. Portanto, isso não justifica nada (ou quase nada). Mas o compreendo o que queres dizer.

Argonauta disse...

concordo com a tua opinião e é exactamente aquilo que digo ás pessoas quando me perguntam o que achei deste filme, o argumento é interessante, e as coisas fazem sentido por incrível que pareça. Mas por outro lado está cheio de clichés, a ellen page que gostei em trabalhos anteriores em inception está sem chama, sem vontade, tiros e explosões a mais, e essa necessidade de explicar tudo irrita-me, mas é bom saber que o nolan sabe que o seu público não gosta de pensar. já vi pior, muito pior, mas mesmo assim inception é bastante fraquinho, acaba por ser um filme que se vê como entretenimento, e isso até faz o seu trabalho relativamente bem, apesar de uma outra parte mais aborrecida.

Álvaro Martins disse...

Exactamente Argonauta, é isso mesmo ;)

Jorge disse...

Gostei de ler a crítica, bem fundamentada, ainda que não me identifique e não concorde. Acho que levas ao extremo determinados pontos de vista, que são válidos, sobretudo para quem viu muito cinema e de autor, acredito.

De qualquer modo, como referes, essa explicação constante dos acontecimentos, é da facto verdade, mas em nada prejudica o filme, sendo até menos óbvia que muito do que se faz hoje em dia. O filme e Nolan tem o seu público e já é de louvar, segundo o teu ponto de vista, algum esforço que o realizador incita no espectador. Acima de tudo nunca insulta a inteligência, o que acaba por revelar um produto bastante refrescante no panorama actual, tecnicamente irrepreensível e com uns desempenhos (DiCaprio e Cotillard) assinaláveis.

Gostei bastante, mas penso que te percebo...daqui a uns anos (e a continuar a ver filmes) volto aqui e digo se mudei de opinião. No entanto, acho eu, como entretenimento não tem nunca como mudar de opinião.

abraço

Anónimo disse...

Hello ALL! My name is Vitaliy Kokosko!!!

Anónimo disse...

"realização banal"

Alvaro Martins ilucida-me quantos filmes realizaste tu até hoje?

O que sabes tu sobre realizar, produzir um filme?