10 de julho de 2011

É nas noites do nevoeiro em To Have and Have Not, esse filme tão negro e tão bravio onde Bacall irrompe e rasga tudo, toda a sensualidade e toda a transfiguração duma verdadeira femme fatale (só superada pela de The Big Sleep), é nessas noites tão assustadoras quanto as noites do Nosferatu de Murnau que Hawks tudo reverte, tudo transpõe no ecrã, nos rostos dos seus actores. É nessas noites que começam por ser de pesca para depois serem de sedução e lá no final serem de revolta, de conspirações contra a opressão, que tudo se mostra em To Have and Have Not, tudo reverte no negro das sombras e da obscuridade subversiva. E, no entanto, To Have and Have Not não é noir, não é melodrama, não é terror, não é comédia, não é filme romântico. É tudo isso e tudo mais que isso e mais do que poderá ser. São as sombras do mundo a assombrar Bogart e Bacall, são os patriotismos e os revolucionarismos a tentarem o homem, o homem que nada disso quer e que a tudo disso foge, o mesmo homem que por dinheiro a isso tudo se entrega, o mesmo homem que tem mais do que amizade ou compaixão pelo amigo bêbedo e desprezo pela lei (ou o que se lhe possa chamar), o mesmo homem que trata do enfermo por dinheiro, o mesmo homem que a ela se entregará ainda que tanto mas tanto lhe resista (como em Only Angels Have Wings ou no Hatari). É tudo desprovido de integridades ou de patriotismos ou de moralismos e tão repleto de humanismos (quase tanto como nos filmes de Ford ou de Capra) e duma conotação sexual tão intensa. É a brutalidade da acção, do falso action-movie que é To Have and Have Not, o filme das sombras que o nevoeiro traz da obscuridade da luta revolucionária, a implacabilidade da mulher e do seu poder de sedução. Hawks.

4 comentários:

Pedro D. M. Teixeira disse...

Ontem vi este "To Have and Have Not" e é Hawks no sentido mais puro da palavra. O que gostei mais no filme foi mesmo a quimica entre Bogart e Bacall. As cenas em que Bacall canta e acompanha o pianista são magistrais :).
Prefiro este ao também fabuloso Casablanca, em termos comparativos.

Abraço

Pedro D. M. Teixeira disse...

Vi o "The Big Sleep" há uns tempos e não posso, para já, dizer que tenha gostado. Reconheço-lhe algumas qualidades, mas penso que o próprio Hawks já fez melhor dentro do mesmo género, como por exemplo "To Have and Have Not". Bem sei que Hawks é um realizador para se ir gostando, eu próprio tenho sentido isso. O Rio Bravo não me fascinou à primeira, mas cada vez que penso nele senti-o como um dos melhores westerns já feitos, a par de muitos do Ford. Apesar disto, com a câmara não noto em Hawks brilhantismo nem uma mestria absoluta na escolha dos planos e sequências.. noto competência, aqui e ali alguma mestria sim.. mas não a par de Ford, Wilder, Wyller, Hitchcock só para citar alguns cineastas americanos da mesma época. Neste "The Big Sleep" e em outros de Hawks noto sim um cuidado imenso com os actores, a veracidade das emoções, o desenrolar da narrativa, essa sim cheia de riquezas e pormenores muito bons. Faço uma pergunta: apenas da competência única e exclusivamente do realizador e da realização, que mais denota marcas autorais a um cineasta que a escolha de planos e de sequências? Não entrando no campo do argumento, montagem, se é que é possível..

Enfim nunca estudei, nem estudo cinema, apenas vejo filmes e tento aprender com eles, principalmente com aqueles de que não gosto ou gosto menos, e que são aclamados como grandes filmes do cinema. São esses que nos fazem pesquisar, ler e tentar perceber as razões que levam cinéfilos a gostarem tanto. Felizmente o meu sentido crítico anda bem de sáude, mas este "The Big Spleep" será porventura uma falha minha :P tenho mm de o rever..

Desde já o meu agradecimento pelo teu blog.. tem sido uma companhia diária. A minha lista de filmes a ver não pára de crescer eheh

Abraço

Álvaro Martins disse...

Obrigado eu Pedro. Eu também nunca estudei cinema, vejo sim muito cinema (agora ando numa fase em que vejo menos, infelizmente, por questões pessoais) e procuro, quando vejo um filme, reparar nisso, nos pormenores. Há tantos pormenores que escapam, em Hawks por exemplo, e sem falar no psicologismo de Hawks, na força que ele dá às mulheres, é incrível a forma como filma, como usa o décor, as sombras, a luz, as sequências, o contraplano, etc, a forma como reinventa o género (seja ele qual for), sei lá, eu acho Hawks um dos melhores de sempre no cinema norte-americano, muito perto de Ford e ao lado do Hitch e do Wilder e do Capra e..

Pedro D. M. Teixeira disse...

Pois eu também procuro reparar nos pormenores e nos "pequenos grandes" detalhes, mas por vezes ver o filme uma vez não chega mesmo para tomar atenção a tudo! Tenho mm de rever alguns filmes do Hawks!

Ahh fica a nota que no meu anterior comentário faltava lá o Capra, para mim um dos melhores cineastas americanos :)