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11 de junho de 2010

The Bad Lieutenant: Port of Call - New Orleans (2009)






Em primeiro, (como disse Mourinha) afaste-se a ideia de remake do filme de Ferrara mas aceite-se a comparação entre os dois. Nomeadamente a comparação entre os dois "polícias sem lei", Keitel e Cage. Como disse o Vasco Câmara, e passo a citar "Comparar, por exemplo, os uivos de angústia de Harvey Keitel com os furores nada religiosos e mais irrisórios de Nicolas Cage que, à medida que o filme progride, vai ficando cada vez mais torto (é o mal das costas...) e mais parecido com o amigo/inimigo preferido de Herzog, o diabólico Klaus Kinski.". É sim senhor interessante ver como Herzog conduz um filme que, fosse realizado por um Nolan ou um Scott (por exemplo) não sería mais do que um festival de pirotecnia. Claro que Cage tem uma interpretação fantástica lembrando tempos de Leaving Las Vegas e Bringing Out the Dead, mas sobretudo é a "mão" de Herzog que faz de Bad Lieutenant um bom filme, mesmo tendo o cineasta as limitações criativas usuais num filme desta natureza. The Bad Lieutenant é um filme menor de Herzog, filme de género, o mainstream do cineasta alemão. Sim é encomenda, mas sim é um bom filme.

22 de abril de 2010

Les Herbes Folles (2009)










Compreendo perfeitamente (e concordo) o que Vasco Câmara quis dizer com "O que ele continua a propor é solitário, selvagem, inóspito: a liberdade do espectador. É com isso que conta. Viva isso! É que isso, se formos capazes de descobrir, pode ser tão intenso, tão saturado de experiências, tão capaz de se concretizar em mundos novos e sensações novas como... um qualquer 3D (ainda para mais sem o desconforto dos óculos...). Essa é a cara de "Ervas Daninhas", filme mal educado, inclassificável, impossível de domesticar."
Porque é isso mesmo que define o cinema de Alain Resnais (desde Marienbad a este Ervas Daninhas), essa "narração labiríntica" como disse Luís Miguel Oliveira, essa forma de criar cinema, inexplicável, deixado ao critério de cada um. Les Herbes Folles é esse "cocktail" (cito novamente L.M.O.) de cores, do absurdo daquela relação amorosa entre aqueles dois seres de meia-idade, da quase, mais que labiríntica, narrativa surreal. Les Herbes Folles é o filme deixado em aberto. Não para sequelas mas sim para a imaginação do espectador. Grande Resnais.

10 de abril de 2010

Estou ansioso por isto

A feroz liberdade de "Ervas Daninhas" danifica, felizmente, a experiência do espectador. Esta ferocidade exige energias novas.

Este é o cineasta que em 1961, respondendo numa entrevista, a François Chalais, sobre o "enigma" "O Último Ano em Marienbad", propôs que cada espectador encontrasse a sua solução para o filme - por isso, a dele, Alain Resnais, até nem seria necessariamente a melhor; e que essa era a forma de explicitar a "estima" por quem estava na sala de cinema. Este é o cineasta, já agora, que na mesma entrevista não soube o que dizer quando lhe atiraram "cineasta de vanguarda"...

As salas de cinema mudaram, não tem sido grande a estima dos realizadores pela inteligência do público (e é preciso dizer que o público, isto é, todos nós, não tem estado à altura de desafios). É natural, por isso, que Resnais, 87 anos, faça figura de "cineasta de vanguarda", essa expressão que soa a palavrão ou a crime. O que ele continua a propor é solitário, selvagem, inóspito: a liberdade do espectador. É com isso que conta. Viva isso! É que isso, se formos capazes de descobrir, pode ser tão intenso, tão saturado de experiências, tão capaz de se concretizar em mundos novos e sensações novas como... um qualquer 3D (ainda para mais sem o desconforto dos óculos...). Essa é a cara de "Ervas Daninhas", filme mal educado, inclassificável, impossível de domesticar.

Com os habituais Sabine Azéma e André Dussolier a liderarem um "cast" onde aparecem recém-chegados à "família", e de novo a partir de material - tem sido às vezes romance, outras vezes é peça de teatro - sem problemas em habitar os encontros/desencontros da "comédia de boulevard", sem problemas com a separação entre a "alta" e a "baixa" cultura, portanto, Resnais forma e aniquila violentamente um par.

Por causa do roubo de uma carteira, Azéma e Dussolier são atirados um contra o outro: neuróticos, a passar a problemática meia-idade, ela aviadora de cabelo ferozmente ruivo, ele a ser comido vivo por um mal - é algo no seu passado, não saberemos -, têm estado adormecidos, sentimentalmente "arrumados". Mas aquela carteira, e o que se segue depois, empurra a comédia BD para a tragédia. Puxando também pela mulher de Dussolier (interpretada por Anne Consigny). E quem é "o par", afinal? O marido e a amante ou o marido e a mulher? Teremos, e se quisermos, a oportunidade de olhar o filme por um lado ou por outro, de novo simulando-se em cena, depois do jogo com a interactividade de "Smoking"/ "No Smoking" (1993), esse viveiro de hipóteses múltiplas, angustiantemente múltiplas, que pode ser ver um filme. Essa possibilidade de tudo...

No caso de "Ervas Daninhas", e por causa da sua liberdade, e por causa daquilo a que o filme se permite - é que este filme escreve-se, gesticula, é pintado; parece BD, depois teatro e grande produção de Hollywood com "happy end"; é "work in progress", é ainda esboço... -, é como se a própria natureza da experiência de espectador tivesse sido fundamentalmente alterada (queremos dizer: saudavelmente danificada). Não estamos a ver um objecto "arrumado", obra acabada e pronta a consumir. Estamos a ver algo que parece ter sido acordado naquele momento. Com uma ferocidade que pede energias novas ao espectador. Como se a coisa estivesse viva: ela mexe-se.

Está a ser feito ali, realizado ali, perante o espectador. Que tem de ser, também, uma entidade "nova". Isto é cinema ao vivo. E não são precisos óculos. Bastam os olhos.


Vasco Câmara


21 de maio de 2009

Tarantino e Resnais em Cannes

"Inglourious Basterds" foi finalmente apresentado em Cannes. Quentin Tarantino, ao que parece, frisou "There's no place like Cannes para os realizadores à face da Terra", lá nisso tem razão, e continuou dizendo que não se assume como realizador americano "mas como realizador de filmes para todo o planeta".

Vasco Câmara, do Público, escreve ainda assim sobre "Inglourious Basterds": "Inglourious Basterds é o tal projecto que Tarantino andou a escrever durante oito anos. Seria, supostamente, um remake do filme de Enzo Castellari, de 1978, Inglourious Bastards, que para Quentin faz figura de emblema de um subgénero dentro do género filme de guerra: o bunch of guys in a mission movie, o "filme de um grupo em missão". Na verdade, o filme de Tarantino não é um remake. É outra a sua natureza. Não é por acaso que o título do filme de Castellari se refere aos bastards e o de Tarantino aos basterds. Não há gralha. É o preciosismo (mais disto à frente...) que faz a diferença: Tarantino recria não um filme, mas uma ideia de cinema e de género. Onde cabem - funciona assim com ele - todos os filmes em potência.
Cada segmento de Inglourious Basterds - ou deveríamos falar em "capítulos", como num romance? - é escrito, desenvolvido, filmado, montado como um filme autónomo, ou com potencial, de personagens, de narrativa, para se desenvolver como um filme autónomo. Cada um expondo e revelando ao que vem como quem abre uma caixa de surpresas. E assim passamos de capítulo em capítulo, de golpe de teatro em golpe de teatro, numa progressão a que só não sucumbimos exaustos porque Quentin é mais caloroso do que exibicionista e filma com papel e caneta, como quem escreve o seu romance. Contagiante e inteligente espectáculo este. Que, em vez de ser espectáculo da acção, é espectáculo da palavra. Os diálogos e as legendas são a matéria do drama, a matéria com que se faz a II Guerra em Inglourious Basterds. Que é um filme falado tanto em francês como em alemão, como em inglês. Onde quem sabe as línguas todas está em condições de dominar (mas tanta legendagem complicará a vida aos americanos, isso é mais que certo)."

Ou seja, Vasco Câmara fala muito bem do último Tarantino. Confesso que estava um tanto céptico quanto a este "Inglourious Basterds", mas sendo assim, e esperemos mais opiniões, fico ainda mais curioso e expectante.

Para rematar, o crítico do Público escreve: "E agora, uma frequently asked question de 2009: porque é que bastards deu em basterds, qual é a coisa do "e"? "É um floreado artístico que não posso explicar. Jean-Michel Basquiat tirou um L da palavra Hotel e colocou-o num quadro seu. Se ele fosse a explicar porque é que fez isso..." Não é preciso dizer mais..."


E se por um lado temos Tarantino, um dos nomes mais sonantes do "novo cinema", por outro temos um vanguardista, um nome aclamado e respeitado na história do cinema, um senhor que pisou pela primeira vez Cannes há 50 anos, Alain Resnais. "Les Herbes Folles" é o seu novo trabalho e ao que parece, traz um Resnais actual.

Mais uma vez, Vasco Câmara diz: "Pelo contrário, é muito mal educado, porque é inclassificável, Les Herbes Folles, de Alain Resnais, (...) Mas Alain Resnais é um cineasta de hoje. Com os seus actores habituais (Sabine Azéma e André Dussolier) a liderarem um cast onde está uma outra geração de intérpretes franceses, como Emmanuelle Devos, Mathieu Amalric ou Sarah Forestier, e sempre a partir de um material dramatúrgico, quer seja romance ou peça de teatro, que não tem problemas em habitar zonas contíguas aos encontros/desencontros da comédia de boulevard, Resnais filma a formação (e aniquilação violenta) de um par.
O acaso, o roubo de uma carteira, coloca Azéma e Dussolier, que tudo, até a idade, indicaria estarem sentimentalmente "arrumados", em rota de colisão (é literal, a comédia vira tragédia). Como se seguisse um fio em que a loucura se vai improvisando, à imagem da vegetação que teima em crescer, espontaneamente, nas fendas do cimento, Resnais segue essa história de desordem - como lhe chamar: de amor? Resnais escreve, pinta e gesticula com o seu cinema, com a sua câmara. Faz teatro, faz filme caseiro e faz produção da Hollywood clássica, simulando "happy ends" sinfónicos. Faz um filme não domesticado, selvagem."

E dito isto, o que esperar? Resnais é Resnais e confesso que dou preferência a este em detrimento de Tarantino.

19 de maio de 2009

E eis que surge um filipino

"É para já a obra maior da competição de Cannes: "Kinatay", do filipino Brillante Mendoza. Uma viagem ao fim da noite de Manila que nos faz cúmplices de uma barbaridade.

Um susto de filme. Como quem não quer a coisa, pega no espectador mais ou menos desprevenido, mais ou menos inocente - porque nunca se é, completamente - e leva-o pela noite dentro até ao fim da noite. Não há forma de abandonar a viagem, mesmo quando começamos a encontrar na escuridão os contornos da brutalidade. Estamos encurralados na passividade do "voyeurismo". E mesmo que acabemos a viagem razoavelmente imaculados, seguros - porque nunca saímos assim, completamente, de um filme -, nunca nada vai ser igual. É essa a experiência do espectador de "Kinatay", do filipino Brillante Mendoza, obra brutal, para já o filme maior da competição de Cannes. Nada vai ser igual a partir de agora em relação ao cinema de Mendoza, o que não é nada que estivéssemos a pedir, um momento de epifania com a obra deste realizador de 49 anos que começou a fazer filmes há cinco, vindo da publicidade e do teatro, e que esteve em concurso em Cannes o ano passado com "Serbis".

Essa viagem do espectador pelo horror é a viagem do protagonista de "Kinatay" - em filipino, "Chacina". Um estudante na academia de polícia de Manila, já com um filho e um casamento na linha do horizonte mais próximo - e Manila amanhece no início de "Kinatay" - não se pode dar ao luxo de prescindir de fazer trabalhinhos por fora, de pactuar, despreocupadamente, com o "milieu" da droga. Nada que afecte o seu projecto de inocência.

Até que entra numa carrinha - começa a anoitecer em Manila -, onde vai passar grande parte desta viagem. Ao lado destes "gangsters" aparentemente de trazer por casa e de uma prostituta que não cumpriu as suas obrigações. Já é noite em Manila quando a carrinha, o aprendiz, os gangters e a prostituta (desmaiou devido aos murros) chegam a uma casa. Aí o serviço vai ser completo - o título do filme é "Chacina".

Começa a amanhecer em Manila quando um estudante da academia de polícia regressa a casa, exausto. Adormece no táxi. É manhã em Manila.

Não há elipses assim em "Kinatay". Como se tinha percebido pela forma como a câmara do realizador percorria um cinema porno no anterior "Serbis" (a Lusomundo não vai exibir comercialmente esse filme em Portugal, lança-o directamente em DVD, com o título "Serviços"), Mendoza faz todo o caminho e vai até ao fim. "Kinatay" é uma extraordinária experiência do tempo: deixa-nos a sensação de filme em plano único, que vai incorporando a mudança ao longo do caminho, que se vai transformando - do dia para a noite, literalmente, depois outra vez para o dia. É uma angustiante experiência com o espaço: em grande parte do filme estamos dentro de uma carrinha; em outra grande parte estamos dentro de uma casa vazia, tacteamos a escuridão, com os gritos em fundo.

Se alguém filmasse no escuro o espectador de "Kinatay", como seria a sua expressão de rosto? Insondável, ambígua, culpada e inocente como está no rosto de um cadete da polícia?

"As pessoas podem ver um filme de terror e até ficarem assustadas. Mas eu não queria que as pessoas vissem o meu filme. Eu queria que as pessoas experimentassem o meu filme. Nas Filipinas, é comum esses casos de massacres e depois aparecerem os corpos. Lê-se nos jornais, mostram na televisão. Mas as pessoas já não sentem nada. É ''entertainment'. Eu quis que as pessoas sentissem que não é ''entertainment'", disse o brilhante Brillante Mendoza, é favor fixar este nome.

É uma viagem a que não se diz não a de "No One Knows about Persian Cats", do curdo, iraniano Bahman Ghobadi (Un Certain Regard). O título, explicou o realizador, refere-se ao facto de os gatos, e em geral os animais domésticos, não estarem autrorizados a passearem com os seus donos nas ruas de Teerão. Vivem "indoors". Assim também ninguém sabe o que se passa no "underground" da capital iraniana, em que se toca rock, heavy metal e hip hop, música que as autoridades consideram "impura" e que proibiram. Ghobadi, deprimido com a sorte reservada para os seus filmes (não estreiam, estão proibidos, ficam invisíveis), lançou-se numa espécie de catarse: tendo conhecido um casal de músicos, acabados de sair da prisão (por serem músicos) mas nada derrotados em relação ao desejo de conseguirem um visto e um passaporte que os permita tocar em festivais internacionais, montou, em 15 dias, improvisando um argumento, jogando às escondidas com a polícia, um "falso documentário". Isto é: é tudo verdade, as histórias que se contam, as pessoas que participam no filme (aconteceu-lhes a elas), e é tudo recriado. Com um indesmentível orgulho - mostrar a energia de uma cidade que se aloja nas caves, que está escondida nas casas - e com uma não menos indisfarçável tristeza. E "No One Knows about Persian Cats" é já um dos títulos acarinhados do festival. Mas é preciso dizer que, até pelas condições de rodagem e pela forma como lida com a ambiguidade do formato, essa existência da ficção como documentário e vice-versa, o filme tem a insustentável leveza de um guia turístico. Mesmo que seja pelo "underground"."

Vasco Câmara (Público)


E assim cá fico à espera deste "Kinatay".

Estreou Looking for Eric em Cannes

"Looking for Eric", o mais recente trabalho de Ken Loach, realizador britânico pelo qual nutro grande admiração, foi ontem apresentado em Cannes.

Vasco Câmara, crítico e enviado do Público a Cannes dizia assim: "Cantona é Cantona em Looking for Eric: um anjo da guarda que se materializa a um fã charrado e a quem vai servir de personal trainer existencial. (...) Ao longo do filme há duas ou três sessões de charros e de aconselhamento e auto-confiança. O resto é a relojoaria habitual de Loach, gente com problemas, meio proletário, só que desta vez em registo feel good movie.
O realizador defende que "uma comédia é uma tragédia com happy ending", e admite que quis, depois de uma série de obras "duras", fazer algo que pusesse "um sorriso na cara das pessoas". "

Sendo assim, parece-me que teremos aqui um filme bem diferente daquilo a que Ken Loach nos habituou. Eu gosto da "relojoaria habitual de Loach", por isso não sei se irei gostar tanto deste "Looking for Eric".

15 de maio de 2009

Tetro apresentado em Cannes

Estreou o tão esperado Tetro de Francis Ford Coppola na sessão de abertura da Quinzena dos Realizadores em Cannes.

Na página 10 do P2, a letras garrafais e bem gordas, diz assim: “Condenados a querer encontrar o mito, eis apenas Francis Ford Coppola”.
Vasco Câmara continua dizendo: “É uma experiência de frustração, sentimento de perda (não encontramos as razões do mito, testemunhamos impotência de concretização, cansaço). É um filme que foge, que se escapa a sê-lo. Que ao ser operático mais vinca o rigor mortis. Que oscila entre uma teatralidade que se quer mostrar clássica, um back to basics a preto e branco – mas é um exercício escolar, esventrado de energia, serôdio – e irrupções de onirismo e cor que não transcendem o kitsch….
Não é exercício de adivinhação: quem foi aplaudido no palco da Quinzena dos Realizadores foi, ainda, o mito. Por mais que o cineasta independente renascido e autor de pequenos filmes queira fugir dele.”

Resta-nos esperar para ver o filme e tirar as nossas próprias conclusões. Mas a verdade é que não espero muito do filme embora esteja bastante curioso.

11 de maio de 2009

Estou muito curioso

"A Zona" coloca o espectador, com intenso cuidado, no que vem depois dos destroços do cinema narrativo. Pede-lhe sentido de aventura. Vamos ser novos espectadores?

Sandro Aguilar tem sido uma espécie de "Blow up" no cinema português. O que é que tem estado escondido, na série de impassíveis e enigmáticos exercícios (as curtas-metragens que até agora constituíam a sua obra) por trás dessas imagens? Onde é que se esconde Sandro Aguilar, qual é o segredo? De ampliação em ampliação, chegámos à sua longa-metragem "A Zona" (que, sendo a primeira longa do realizador, é uma prova) e não há enigma a resolver, segredo a desvendar. Sem que o filme deixe de ser poderosamente enigmático. Porque o que "A Zona" nos diz é que temos de viver com o(s) enigma(s). E encontrar aí o nosso conforto. É isso que este filme constrói, com os seus fantasmas, e propõe aos seus espectadores. Com uma serenidade conquistada. Não podemos dizer que é um filme pacificado, mas podemos dizer que é um filme que encontra uma zona de conforto para quem estiver disponível a habitá-lo - e a habitá-lo várias vezes. É o que acontece às personagens de "A Zona", os tais "fantasmas": são seres depois do choque, do trauma, dos destroços, que, num hospital, numa unidade de cuidados intensivos, onde a vida e a morte partilham o espaço e definem o tempo - vítimas de acidentes, um rapaz que vela pela morte do pai, o nascimento de um bebé, uma morte, um casal que se forma... -, despertam para outra realidade, outra consciência. A câmara que perscruta rostos, olhos, dedos de quem foi atirado para a beira da morte não é movida por "voyeurismo"; procura, insistentemente, quase amorosamente, sinais de (outra) vida. Cremos que "A Zona" tenta despertar, também, os sinais de outra consciência no espectador: colocando-o, com intenso cuidado, naquilo que vem depois dos destroços do cinema narrativo, daquilo que foi estabelecido como ordem a seguir pela ficção, pede-lhe então outro sentido de aventura, de sensualidade, pede outro tipo de espectador. Temos de estar à altura da intensa curiosidade que alimenta este filme - o mesmo tipo de curiosidade que alimentava "A Mulher sem Cabeça", de Lucrecia Martel, outro filme que também abraçava as possibilidades do pós-trauma (individual, social). Entrámos n' "A Zona". E aí vamos ficar enquanto nos for possível. A ele regressámos várias vezes. A couraça metálica que o faz parecer um ferrenho exemplar de formalismo soviético dos 70s (é claro que se pode falar em Tarkovsky e no seu "Stalker", mas é como andar à procura do enigma em vez de o experimentar...) vai-se desfazendo. A experiência de sucessivas visões revela-se terapêutica. Resgata-se uma intensa fragilidade, muito humana, à qual ficamos presos. Entrámos n' "A Zona"...

Vasco Câmara (PÚBLICO)