21 de fevereiro de 2011

Der Letzte Mann (1924)
Friedrich Wilhelm Murnau

A Murnau muito se deve no cinema (e se Rohmer dizia que o alemão era o maior de todos os tempos por alguma coisa era e não andava muito longe da verdade). Curiosamente é o seu Nosferatu (não o menor mas muito menos o maior dos seus filmes) o mais reconhecido de todos. De Murnau jamais esquecerei o seu Sunrise e o arrebatador efeito que teve em mim ainda em tenra idade. Coisa rara no cinema, lírica tão lírica e bela tão bela só possível aos grandes, coisa que Der Letzte Mann alcançou igualmente em mim logo instantaneamente. Murnau sabia bem como ir ao fundo do fundo da compaixão humana, ir ao fundo da alma e trazer o que de mais belo o ser humano pode ter, confrontar isso e outras coisas com os temores e os fantasmas do ser humano, com a insensibilidade ou a austeridade da vida, com a sua inevitabilidade. Sim, Murnau sabia bem como ir lá dentro desse fundo, fazer-se sentir em toda a sua forma e grandeza. Mas (como grande expressionista) sabia moldar o ser humano à rigidez do mundo, trazer toda a negrura do mundo e do ser humano. E mais do que toda a obscuridade Murnau sabia como filmar as trevas, como trazê-las ao mundo para atingir o homem e para o tombar no seu declínio físico e psicológico. Qualquer coisa de tão aterradora e tão violenta como o desabar do mundo inteiro em cima do homem, a queda do orgulho ou da dignidade num só segundo. É nisso que Murnau foi mestre, é isso que acontece em Der Letzte Mann e no Sunrise. E todo e qualquer filme do mundo deve sempre qualquer coisa a Murnau.

5 comentários:

João Gonçalves disse...

Gostei especialmente da frase com que terminaste o texto.
Este filme é mais um das grandes obras criadas pelo Murnau. E tens razão, muito se fala do Nosferatu (obra-prima), e deste, por exemplo, ou até do City Girl, pouco se fala. Filmes fantásticos e indescritíveis. Só mesmo vendo.

Álvaro Martins disse...

Sem dúvida João. Este arrebatou-me por completo, tanto quanto o Sunrise. O City Girl está para ser visto brevemente ;)

Rato disse...

Ora nem mais, Álvaro, uma óptima reflexão sobre o cinema do grande Murnau. Pessoalmente também sou grande fan, mas permiti-me uma pequena adenda - "SUNRISE" estará sempre, mas sempre, lá muito em cima da sua espantosa filmografia. E o "Nosferatu", que correctamente apontas como o filme mais "popular", não tem por certo toda a magia do "SUNRISE", que se mantém inalterável.

Sam disse...

Um dos poucos Murnau que ainda me escapa. A corrigir.

Excelente texto.

Álvaro Martins disse...

Rato, obrigado e concordo ;)

Sam, obrigado :)