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16 de junho de 2009

Inland Empire (2006)

Um filme de David Lynch

















Quando nos deparamos com “Inland Empire” entramos num mundo à parte, no mundo de Lynch. E se para uns é um mundo indecifrável e inexplicável, para outros é um mundo fascinante onde se aceita e explora a visão de Lynch. Um mundo onde entramos para testemunhar os pesadelos do cineasta canadiano. Um mundo surrealista que me fascina, como me fascinou “Eraserhead” (entre os dois nem sei qual será mais surrealista e difícil), “Lost Highway”, “Mulholland Drive” e aquele final enigmático de “Twin Peaks”.

E “Inland Empire” é talvez o seu trabalho mais ambicioso. Um filme por detrás do filme dentro do filme. Complexo, sim. Mas fascinante. Porque estamos ali para ver, viver e sentir o seu pesadelo, testemunhar o seu mundo desafiando a lógica e a racionalidade. Porque Lynch desafia convencionalismos, regras e linearidades, porque Lynch atinge cada espectador que tente encontrar respostas pessoalmente. E “Inland Empire” transcende-se na sua espiral que se desenvolve, na sua beleza metafórica e onírica. Porque Lynch deixa-nos de tal forma envolvidos que a dado momento nos perdemos tal e qual Laura Dern (numa interpretação impressionante). E Lynch consegue criar e transmitir essa vertente sensorial, esse aglomerar de sensações e alucinações de Dern, como que se estivéssemos dentro da sua mente a testemunhar toda essa viagem alucinogénica que Dern experiencia.

“Inland Empire” perde-se e encontra-se, afunda-se nos mais obscuros pesadelos e brinda-nos com delírios lynchianos. Tal como em “Eraserhead”, “Mulholland Drive” e “Lost Highway”, Lynch cria um ambiente surrealista (in)explicável, quiçá onírico, onde explora uma dualidade de personalidades que origina um conflito entre demência e sanidade. E o cineasta cria uma obra enigmática, um filme hermeticamente poético, um reflector dos nossos medos e desesperos, onde nos cabe a nós explorar o seu mundo, onde a história tem que ser descoberta dentre os mais tenebrosos e abstractos pesadelos psicadélicos de Lynch.

27 de junho de 2010

Vargtimmen - A Hora do Lobo (1968)







Vargtimmen ou A Hora do Lobo é, talvez, o filme mais psicótico e enigmático de Bergman (mais que Persona até). Porque em Vargtimmen nunca sabemos se o que estamos a ver é a realidade ou os medos e os fantasmas de Alma ou de Johan. E mais importante é, se a aceitarmos, não saber quando tem início a alucinação de Johan. David Lynch a Vargtimmen muito deve para a construção material dos seus filmes mais enigmáticos (Eraserhead, Mulholland Dr., Inland Empire), nomeadamente na forma como define o seu cinema na qual nunca procura dar respostas mas sim perguntas. E Vargtimmen é assolado desde o início com perguntas às quais nunca chegamos a conhecer as respostas, a não ser as que vamos conseguindo formular ao longo do filme. Um sonho? Imaginação? E aquele diário, existe mesmo? E se existe, quem afinal o escreveu? Johan ou terá sido Alma? E qual deles será o fantasma do outro, assim como os fantasmas daquele castelo?

Em Vargtimmen tudo se materializa. Se a sanidade mental de Johan se perde nalgum momento (se não quisermos aceitar que vem do início do filme) dá-se em dois momentos, na cena onde Johan fala da hora do lobo a Alma somente iluminado por um fósforo e na cena da morte do garoto. São esses os momentos em que Johan entra em colapso mental com os seus fantasmas e a alucinação começa. Mas podemos também considerar o momento em que Alma lê pela primeira vez o diário, e, aí teremos de afastar Johan (o Johan pós leitura do diário) como insano e julgá-lo como irreal, como fruto da imaginação de Alma. Porque ao ler sobre Veronica Vogler, Alma descobre algo que até aí desconhecia sobre o passado de Johan. E se virmos bem, tudo se resume a Veronica Vogler e à relação que outrora teve com Johan. Portanto, a partir desse momento podemos ter aí o começo da alucinação (ou talvez de um sonho) mas de Alma, causada pelo ciúme.

Vargtimmen é um filme muito complexo, é filme de sombras e de obscuridades. Intenso e traumático. É uma viagem alucinante e abismal pelos caminhos turtuosos e obscuros da mente de Johan (ou será de Alma?). Vargtimmen só não é a grande obra-prima de Bergman porque um dia fez Persona.

25 de dezembro de 2009

Os 10 melhores filmes da década 2000

Transe de Teresa Villaverde (2006)



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Dealer de Benedek Fliegauf (2004)



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A Londoni Férfi de Béla Tarr (2007)



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Delta de Kornél Mundruczo (2008)



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No Quarto da Vanda de Pedro Costa (2000)



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Gerry de Gus Van Sant (2002)



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Liverpool de Lisandro Alonso (2008)



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Vozvrashcheniye de Andrei Zvyagintsev (2003)



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Iklimler de Nuri Bilge Ceylan (2006)



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Inland Empire de David Lynch (2006)



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E com muita pena minha ficam de fora os restantes:

Requiem For a Dream de Darren Aronofsky (2000)
The New World de Terrence Malick (2005)
Werckmeister Harmóniák de Béla Tarr (2000)
Hunger de Steve McQueen (2008)
XXY de Lucía Puenzo (2007)
Uzak de Nuri Bilge Ceylan (2002)
Two Lovers de James Gray (2008)
Mulholland Dr. de David Lynch (2001)
4 luni, 3 saptamâni si 2 zile de Cristian Mungiu (2007)
Into the Wild de Sean Penn (2007)
Taxidermia de György Pálfi (2006)
Zemestan de Rafi Pitts (2006)
Freedom de Sharunas Bartas (2000)


Flávio Gonçalves, Roberto F. A. Simões, Tiago Ramos e Álvaro Martins

9 de fevereiro de 2010

A Zona (2008)

Tinha muita ansiedade em ver este filme, penei uns tempos para o conseguir, mas valeu a pena. Sandro Aguilar é o Bartas português, ou pelo menos procura sê-lo. A mesma linguagem cinematográfica, a mesma procura na linguagem corporal, mas no entanto não tão rude nem tão cru e rudimentar como o lituano. A busca da liberdade cinematográfica, a fuga aos convencionalismos, à linearidade narrativa, e, acima de tudo a extrema importância que o cineasta dá a imagem e ao som, ao que estas conseguem transmitir e criar assim o seu cinema sensorial e reflexivo. Mas Lynch está bem presente nessa forma de filmar, de desenvolver a narrativa, nessa ausência duma narrativa linear, nesse ambiente negro e surreal. Poderíamos também falar de Tarkovsky ou de Sokurov para explicar esse sentido da (meta) física que o filme transporta. Mas mesmo identificando-se as influências, A Zona é um filme próprio, é um filme que nos leva a uma viagem introspectiva, sensível e psicologicamente violenta.

A Zona é um exercício sobre a perda, sobre a dor da perda. A morte sempre ali ao lado, à espera duma oportunidade. E Aguilar cria um filme obscuro (lembro-me de Inland Empire porque são semelhantes, ambos despreocupados na relação com o público, ambos filmes para descobrir a cada visualização). Porque A Zona não é um filme fácil, nem só pelo seu ritmo lento e pela quase ausência de diálogos, mas também pelo território que Aguilar pisa, pelo cinema tão próprio que ele quer explorar. E isso é comum nos grandes génios do cinema, essa procura por uma entidade própria, uma linguagem própria, um cinema próprio. A Zona é, a meu ver, um dos melhores filmes (longas-metragens) de estreia de sempre. É um filme para quem aceitar entrar nele, uma experiência enigmática para quem quiser explorar a dor que parece anestesiar todos os personagens. É um filme muito humano, muito frio, muito intenso. É, talvez, o melhor filme de 2008.