27 de junho de 2010

Vargtimmen - A Hora do Lobo (1968)







Vargtimmen ou A Hora do Lobo é, talvez, o filme mais psicótico e enigmático de Bergman (mais que Persona até). Porque em Vargtimmen nunca sabemos se o que estamos a ver é a realidade ou os medos e os fantasmas de Alma ou de Johan. E mais importante é, se a aceitarmos, não saber quando tem início a alucinação de Johan. David Lynch a Vargtimmen muito deve para a construção material dos seus filmes mais enigmáticos (Eraserhead, Mulholland Dr., Inland Empire), nomeadamente na forma como define o seu cinema na qual nunca procura dar respostas mas sim perguntas. E Vargtimmen é assolado desde o início com perguntas às quais nunca chegamos a conhecer as respostas, a não ser as que vamos conseguindo formular ao longo do filme. Um sonho? Imaginação? E aquele diário, existe mesmo? E se existe, quem afinal o escreveu? Johan ou terá sido Alma? E qual deles será o fantasma do outro, assim como os fantasmas daquele castelo?

Em Vargtimmen tudo se materializa. Se a sanidade mental de Johan se perde nalgum momento (se não quisermos aceitar que vem do início do filme) dá-se em dois momentos, na cena onde Johan fala da hora do lobo a Alma somente iluminado por um fósforo e na cena da morte do garoto. São esses os momentos em que Johan entra em colapso mental com os seus fantasmas e a alucinação começa. Mas podemos também considerar o momento em que Alma lê pela primeira vez o diário, e, aí teremos de afastar Johan (o Johan pós leitura do diário) como insano e julgá-lo como irreal, como fruto da imaginação de Alma. Porque ao ler sobre Veronica Vogler, Alma descobre algo que até aí desconhecia sobre o passado de Johan. E se virmos bem, tudo se resume a Veronica Vogler e à relação que outrora teve com Johan. Portanto, a partir desse momento podemos ter aí o começo da alucinação (ou talvez de um sonho) mas de Alma, causada pelo ciúme.

Vargtimmen é um filme muito complexo, é filme de sombras e de obscuridades. Intenso e traumático. É uma viagem alucinante e abismal pelos caminhos turtuosos e obscuros da mente de Johan (ou será de Alma?). Vargtimmen só não é a grande obra-prima de Bergman porque um dia fez Persona.

5 comentários:

Neuroticon disse...

Mas Vargtimmen é mais uma das obras-primas de Bergman... e até tem alguns pontos em comum com Persona!

ISTO é cinema ;)

Álvaro Martins disse...

Claro que é Neuroticon. Só disse que o Persona é a melhor obra-prima dele :)

Sim, tem muito em comum com o Persona, aliás, foi feito logo a seguir ao Persona. São ambos muito psicológicos e traumáticos.

E sim, isto é que é cinema ;)

My One Thousand Movies disse...

É o meu preferido do Bergman. :)

Carlos Natálio disse...

Realmente pensei em Lynch, ele foi provavelmente buscar esta forma de apresentar personagens bizarras.
Filme perturbador este.
Abraço

Thiago Bohns (thiagobohns@yahoo.com.br) disse...

Eu já entendi um pouco diferente, quando ela percebe que ele está irremediavelmente louco (na cena em que ele fala que foi convidado pra ir ao castelo e ela faz um belíssimo facepalm.), ela mata o Johan e passa a viver a loucura dele - de ambos, na verdade, através do diário. A personalidade dela se "duplica", se projeta e ela passa a "viver" pelos dois.

Não, eu não fumei um. Mas tomei uns vinhos.