22 de julho de 2010

Berlin Alexanderplatz (1980)










Há um ceifeiro, cujo nome é Morte. E chega sobre machados e facas, a tocar uma pequena flauta. Então abre largamente as suas mandíbulas e retira a sua trombeta. Tocará a trombeta? Tocará o tambor? O terrível aríete negro virá?


Berlin Alexanderplatz é uma das maiores (em todos os sentidos) obras-primas que o cinema já deu ao mundo. Por tudo, mas, sobretudo pela virtuosíssima mise-en-scène de Fassbinder, pelos brilhantes e geniais movimentos de câmara do alemão. Não só aqui como em toda a sua obra, Rainer Werner Fassbinder foi um perfeccionista na arte de filmar, de mover a câmara, de captar o momento e os seus movimentos, a relação entre a matéria e o espaço. Berlin Alexanderplatz é perfeito nesse sentido e exímio nas sombras e na luz que concedem todo o tom obscuro e negro ao filme. É uma obra grandiosa e eloquente.

Apresentada em treze episódios e um epílogo (quase 16 horas), Berlin Alexanderplatz afigura-se como uma odisseia político-social de uma Alemanha pós-primeira Guerra Mundial e em ascensão nazi. Centra-se em Franz Biberkopf (Gunther Lamprecht numa interpretação magistral) e na sua história desde que sai da prisão até que decai num caos mental após o assassinato de Mieze (a amante/prostituta). Franz movimenta-se num meio decadente, espelho da crise económica e social que a Alemanha dos anos vinte vivia. Berlin Alexanderplatz é sobretudo uma obra muito simbólica e metafórica. Tudo alude à pátria, tudo aponta para a origem do nazismo. E a história de Franz (Berlin Alexanderplatz a obra literária de Alfred Döblin) é, acima de tudo, palco para a verdadeira história, a do pós-guerra alemão, a das feridas socioeconómicas que resultaram da primeira grande guerra, a da sobrevivência do povo alemão que, ignorantemente, se dirigia para o abismo do nazismo.

Berlin Alexanderplatz acarreta, desde o seu início até ao seu fim, a morte como companheira de Franz. Inicialmente, e até Mieze aparecer (embora Franz se movimente dia e noite naquele ambiente do submundo criminoso resultante dessa depressão económica), existe acima de tudo um sentimento de redenção em Franz. Os quatro anos passados na cadeia (por matar Ida, a sua amante) a isso reclamam. Mas, essa redenção cada vez mais se distancia devido ao seu envolvimento naquele meio obscuro e marginal onde se insere vertiginosamente. Franz insiste em manter casos com prostitutas, envolve-se com criminosos e embebeda-se sistematicamente. Na verdade, a história de Franz é um conto de aprendizagem, uma lição de vida dum homem simples que só depois da tragédia conseguiu compreender o ser humano. Aliás, Franz é um ser apático, desmesuradamente benevolente, chega a ser patético. Mas tudo isso resulta da sua intenção na redenção. Por isso a morte de Ida acompanha sempre Franz, por isso a culpa está sempre presente. É esse sentimento de culpa, de arrependimento, que acarreta um sentido exacerbado de redenção, sentido esse que resulta nessa apatia e nessa complacência que Franz demonstra para com as pessoas que se cruzam consigo nessa etapa da sua vida. E o epílogo, com todo aquele teor psicológico e metafórico (o caos mental que resulta num “novo” Franz), é dos desfechos mais brilhantes e mais desconcertantes que já vi em cinema.

Berlin Alexanderplatz é uma obra-prima irrefutável, o retracto de um país em luta pela sobrevivência, a história de um homem simples que desejou recomeçar, tornar-se um homem novo. Berlin Alexanderplatz é uma obra assombrosa, magnífica, imponente, monumental. Um marco na história do cinema, um golpe de génio desse nome maior do cinema alemão, Rainer Werner Fassbinder.

9 comentários:

Roberto F. A. Simões disse...

Não conheço, mas já me passou pelas mãos várias vezes. Quem sabe se para breve.

Cumps.
Roberto Simões
CINEROAD – A Estrada do Cinema

Neuroticon disse...

Ando pra ver ha muito... mas arranjar tempo para isso :|

Álvaro Martins disse...

Aconselho vivamente Roberto ;)

Neuroticon, eu demorei mais de uma semana para o ver. Cada episódio tem quase uma hora e o epílogo dura quase duas. O filme merece que se perca tempo a vê-lo mas reconheço que é difícil arranjar esse tempo. Um episódio por dia é uma boa ideia.

Flávio Gonçalves disse...

(16 horas!!!)

Eu tenho aqui o Satantango (só vi a primeira hora, as restantes 6 vou vê-las seguidas), mas antes pensei seriamente em dedicar-me a Fassbinder e descobrir este Berlin Alexanderplatz. Li algures, não sei onde, que Tarr não falou da sua relação com Tarkovsky, mas da sua com Fassbinder, que muito admira. Vês algumas semelhanças entre os dois? (sem ser o tempo lol)

Ok, convenceste-me. Depois de Satantango, este. Valerá a pena, tenho a certeza.

Álvaro Martins disse...

O Sátántangó é outra obra-prima :) Por acaso nem tinha relacionado os dois filmes e mais, os dois cineastas. Vendo bem, há de facto relações entre o húngaro e o alemão, principalmente a forma de mover a câmara, a forma como filma os personagens, o momento em si. Mas Tarr leva essa forma ao extremo e usa além disso a contemplação que traz de Tarkovsky. Ou seja, Tarr é mais lento que Fassbinder, é mais contemplativo, absorve todo o momento, todas as emoções inerentes a esse momento percebes? E isso tudo aliado com a música que está sempre em conexão com esse momento. Fassbinder é mais prático, mais visceral também. Mas é excelente a forma como filma, como movimenta a câmara, que foi onde o Tarr foi buscar essa forma de filmar.

Vale a pena sim senhor ;

Manuela Coelho disse...

Já vi boa parte da obra de Fassbinder e admiro bastante. Estou a ver que este parece imprescindível.16 horas?:) Ok vamos a isso.

Álvaro Martins disse...

Sim Manuela, é imprescindível. Força, atira-te a ele ;)

Flávio Gonçalves disse...

Estava na FNAC e encontrei este Berlin Alexanderplatz... em livro :p E logo a obrigar o leitor a lê-lo, com a tira de que era um dos cem melhores filmes de sempre (e etcs)... o que realmente surpreendeu foi o facto de o livro até ser relativamente pequeno (400 páginas com letra de fácil leitura). Mas enfim, hei-de ver o filme primeiro, pu-lo já a sacar.

Álvaro Martins disse...

Nunca li o livro, mas agora depois de ver o filme já não tenho grande interesse. Neste momento ando a reler o Zaratustra que já há uns aninhos que andava para o reler. Quanto ao Berlin Alexanderplatz, é sem dúvida um dos melhores cem filmes de sempre :) Depois quero ler a tua opinião ;)