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5 de outubro de 2011

Viaggio in Italia (1954)
Roberto Rossellini

"Fim de Outubro ou princípio de Novembro de 1955. Eu tinha 20 anos, ainda não conhecia ninguém do grupo que um ano mais tarde formou o CCC da JUC. Também não lia os Cahiers du Cinéma, que nem de nome era dos meus ouvidos. Desde 1950 - ano da estreia de Stromboli em Portugal - que me andavam a dizer que Rossellini perdera as qualidades iniciais (essas de Roma, Città Aperta, que tanto me fizeram chorar quando eu ainda andava de calções) ao deixar-se apanhar pelas saias de Ingrid Bergman. Deus Omnipotente não perdoara aos adúlteros. O pecado só lhes tinha feito mal. Ele, já nem era neo-realista, já nem era nada. Ela, uma sombra triste do que fora.
Verdade ou consequência, nem Stromboli, aos 15 anos, nem Europa 51, aos 18 (com o Tucho) me deixaram - ai de mim! - marcas duráveis. Só muito mais tarde abri os olhinhos. Nem sei por que fui ao Eden, numa tarde de Outono, em que havia muita luz e fazia muito sol. Certamente foi mais por fidelidade a Ingrid Bergman (e talvez a George Sanders) do que a Rossellini. Mas fiquei colado à cadeira. No fim, no milagre, desatei a chorar. Os meus companheiros (melhor, as minhas companheiras) desataram a rir. Do filme e de mim. Como era possível, João? Ainda hoje me espanto como foi possível, João. Não foi a carne nem o sangue quem mo revelaram. Mas algum Deus que está no céu. Aceito que o propriamente dito.
Disse da minha justiça, à esquerda e à direita. Nem um eco. À esquerda diziam-me que era coisa de católico, nos dias mais beatos. À direita, que era coisa de neo-realista, nos dias mais estúpidos. A esquerda tinha mais razão do que a direita. Em coisas de fundo, acontece.
Demorou um ano - já disse - a encontrar gente (católica gente) que sentira o mesmo que eu. Ela levou-me a ler um número célebre dos Cahiers, seis meses anterior à minha visão, em que Jacques Rivette escrevera («Lettre sur Rossellini»): «Par l’apparition de Voyage en Italie tous les films ont soudain vieilli de dix ans» e em que Eric Rohmer dissera («La Terra du Miracle»): “Dans ce film où tout semble accessoire, tout, même les plus folles divagations de notre esprit, fait partie de l’essentiel”. Levaram-me a ler Bazin e o texto sagrado Défense de Rossellini.
Quando, em Abril de 1958, revi o filme no Jardim-Cinema, 26ª sessão do CCC, já éramos um grupo a defender a genialidade da obra. E um bonito texto do Pedro Tamen - sempre muito pedagógico e sempre a fugir dos provocadores - converteu mais incrédulos do que o próprio filme: «Depois, há um milagre que não sabemos se o foi (um paralítico que corre brandindo as muletas) e outro que, esse fim, sabemos que foi: duas pessoas descobrem-se no mais dentro, no mais fundo, fundem-se, são finalmente capazes de dizer que sim e que se amam, que sim, que sim, que se amam». Em 1958, já os Cahiers du Cinéma colocavam Viaggio in Italia no terceiro lugar da lista dos «melhores filmes da nossa vida», depois de Sunrise de Murnau e de La Règle du Jeu de Renoir.
Com o tempo, essa posição vanguardista e elitista deixou de o ser. Hoje, já ninguém se escandaliza com nada. Viaggio in Italia é pacificamente aceite entre as glórias da nossa terra (a terra do cinema) e, de cada vez que o programo, a sala esgota. Não há gato nem cão que queira ter voto na matéria que ouse sequer uma reticência. Juro pela unanimidade crítica das cinco estrelas se for reposto no Ávila. Mas quem vê caras não vê corações. A não ser que se chame Roberto Rossellini e há mais de dezoito anos que ninguém se chama assim.
Viaggio in Italia, para quem nunca o tenha visto, o que é? Como Sunrise de Murnau, como O Convento de Oliveira, como Lucky Star de Borzage ou como Os Contos da Lua Vaga de Mizoguchi, é a história da separação e da reconciliação de um casal. O casal Joyce, casal inglês de meia-idade (trinta e muitos, quarenta e poucos) bem instalado na vida, que vem a Itália vender uma propriedade que herdara de um tio chamado Homer (Joyce e Homero podem ser nomes casuais, podem não o ser). Casal são-no, porque são casados. Casal não o são, porque estão razoavelmente fartos um do outro. A viagem - rumo a Nápoles e nos arredores de Nápoles - dura sete dias (número mágico). Alex, o marido (George Sanders), namora por aqui e por ali, engata (ou é engatado) por uma pega, aborrece-se de morte. Katherine, a mulher (Ingrid Bergman) faz muito turismo: Museu Arqueológico de Nápoles, ruínas de Cuma (antro da Sibila), Templo de Apolo, Vesúvio, Pompeia, a solfatara de Pozzuoli. Recorda um poeta que a amou e morreu novo e tuberculoso, finge ciúmes do marido, farta-se com ele e dele. Ao sétimo dia, a propósito de uma discussão absurda sobre o Bentley deles, decidem divorciar-se logo que voltem à Inglaterra. Horas depois, o carro em que viajavam, muito calados, é forçado a parar porque uma procissão atravessa a estrada. Saem, cada um de sua vez, para ver o que se passa. A certa altura, a multidão desata a gritar «milagre» a propósito do tal paralítico. Na confusão, cada um deles é empurrado em direcções opostas. Katherine chama pelo marido. Quando este a consegue alcançar, abraçam-se e juram nunca mais se separar.
Nem Katherine nem Alex parecem pessoas muito interessantes. Nada lhes acontece de muito particular. Qualquer pessoa está mesmo a ver que divorciar-se é o que podem fazer de melhor. Uma procissão, o «ave» de Fátima e os dois nos braços um do outro a jurar amor eterno. Milagre da Virgem que protege o santo matrimónio? Quem nunca tinha visto e só isto ler, percebe facilmente as reacções da época.
Só que dizer isto ou não dizer nada é praticamente a mesma coisa. Não porque a história não seja isto, mas porque sob isto, ao lado disto, ou sobre isto (e nenhuma das preposições é boa) se passa tudo o que é essencial e não é traduzível em palavras.
Não vou citar nenhum exemplo dos mais célebres, como a perturbação de Katherine face aos nus masculinos do Museu de Nápoles, o passeio solitário dela ao Templo de Apolo, a «ionização» na solfatara, com o fumo e o cheiro a sufocá-la, o esqueleto visto nas catacumbas, a descoberta, durante umas escavações em Pompeia, dos corpos calcinados de um casal abraçado, há dois mil anos abraçados. Não vou falar da confusão das ruas de Nápoles ou de Capri, das mulheres grávidas que se cruzam constantemente com Katherine, das zaragatas conjugais a que assistem e que tanto chocam reservados ingleses.
Vou referir-me apenas à sequência inicial, quando, no Bentley, Katherine e Alex se dirigem para Nápoles. Primeiro, um diálogo, pedagogicamente concebido, que nos dá todas as informações úteis: quem são eles, onde se dirigem, o que vieram fazer a Itália. Depois, o marido adormece e percebemos que é a mulher quem guia. O marido acorda e propõe à mulher trocar de lugar. Em vez do corte e novo plano do carro com as novas posições, assistimos à troca toda, com toda a minúcia. No segundo minuto do filme, segunda paragem: agora é uma manada de bois que atravessa a estrada e os impede de prosseguir. Irritação de Alex, que já comentara que as estradas em Itália são um perigo. Segue-se uma bifurcação: uma seta indica Nápoles para a esquerda e Latina para a direita. O carro vira à esquerda (já sabíamos que o destino era Nápoles), mas a câmara vira-se para a direita, como se o outro caminho fosse o bom e eles o não soubessem. Pouco depois, Katherine faz uma expressão de horror: «Que é isto? Sangue?» E Alex responde, irónico, que foi só um mosquito que se esborrachou no vidro. Falam dos perigos da malária.
Aparentemente, nada se passou de particularmente interessante. Mas, nesses cinco minutos de filme, quem for capaz de ver, viu o essencial. A viagem é conduzida pela mulher, como sempre o será ao longo do filme, porque é ela quem vê quase tudo o que o marido não vê, como é ela quem o chama no final. Mas ela sem ele não existe. Por isso, ele tem de conduzir também e tudo o que lhe acontece, depois, é tão fio condutor quanto o que lhe acontece a ela. Em cada bifurcação, há sempre duas possibilidades. Seguir o que está predeterminado implica deixar em aberto o desconhecido. A qualquer plano ou ordenação sobrepõe-se a desordem e o imprevisto: bois não querem saber de Bentleys e podem parar - ou atrasar - uma viagem. Uma mancha de sangue pode não ser uma tragédia mas pode não ser tão banal como parece. Na vida não há símbolos, há sinais. A cada momento, cada sinal.
E é a acumulação de todos esses momentos e de todos esses sinais que, a cada momento e a cada sinal, vai minando aquele homem e aquela mulher que parecem fatalmente seguir numa direcção (a ruptura) e não menos fatalmente estão a seguir noutra (a redescoberta). Quando perdem o pé (o carro, a casa, a direcção, a estrada), tudo o que de vital e mortal se acumulou neles explode, tão irracional e tão racionalmente, como a fé da multidão no milagre da Virgem. E é essa explosão - essa erupção, essa ionização, se quisermos ficar ao pé dalgumas imagens do filme - que os atira um para o outro, no mesmo abraço dos cadáveres de Pompeia. Talvez que eles também - que sabemos nós? - não estivessem a fazer amor, nem mesmo se amassem. Talvez que, surpreendidos pela erupção do Vesúvio, se tivessem agarrado para não morrerem sós. Só que dois corpos juntos, juntos mesmo, dois mil anos ou dois segundos, são o milagre total. No Evangelho de Pseudo-Tomé há uma variante, mais profunda e mais certeira, da conhecida passagem dos sinópticos em que se diz que a verdadeira fé move montanhas. Em vez da passagem: «Se tiveres a verdadeira fé e disseres àquela montanha move-te, a montanha mover-se-á», diz-se: «Se um homem e uma mulher viverem em verdadeira paz um com o outro e um deles disser àquela montanha move-te, a montanha mover-se-á.» Em vez da fé, a caridade. É o cerne do cinema de Rossellini.
Nem eu nem ninguém vos pode jurar que, regressados ao carro ou a casa, Alex e Katherine não recomecem as quezílias. Mas o milagre aconteceu. Não é bom que o homem ou a mulher estejam sós. Viaggio in Italia, como disse Rohmer, é um drama com três personagens. O terceiro é Deus. E em Viaggio in Italia quem O não vir não vê nada.
É só um filme? Precisamente."
João Bénard da Costa

2 de julho de 2011

Socrate (1970)
Roberto Rossellini

'Socrates' Mirrors the Platonic Touch of Rossellini

Something more than wordplay is involved when one describes Roberto Rossellini's "Socrates," which opened yesterday at the New Yorker Theater, as the great Italian director's most Socratic film, in his most Platonic style.

Although the movie was shot entirely in Spain with lots of correctly costumed extras, who walk around what look to be the freshly painted, spruced-up remains of the sets of Anthony Mann's unfortunate "Fall of the Roman Empire," it concedes no more than it absolutely must to the demands of a popular cinema that seeks access to the intellect through visual grandeur and primal emotions.

Like all of Rossellini's recent films, including the fine "The Rise of Louis XIV," "Socrates" was originally made for television (that is, European television, which is apparently a lot more adventurous than our own). Curiously enough, television's limited budgets and circumscribed physical scope, which might diminish the work of any other film director I can think of (except Godard), have given a certain freedom to Rossellini, allowing him to pursue his humanistic concerns unhampered by the temptations to indulge in conventional masquerades.

What we are now getting from Rossellini, who so moved us with the neorealism of "Open City" and "Paisan," and then pioneered Antonioni country with films like "Stromboli" and "A Voyage to Italy," is a type of teaching cinema that is not exactly stern, although it is uncompromising. It is the work of a kind of saint, whom I can admire even when I don't find him especially congenial.

The passion of "Socrates" is the passion of its subject, which, to say the least, bears very little relation to the sort of melodramatic, window-dressed passion celebrated by something like "Jesus Christ Superstar." Drawing freely from Plato's "Euthyphro," "The Apology," "Crito" and "Phaedo," Rossellini recalls the last years of Socrates's life almost entirely in terms of Socratic dialogues.

Socrates (Jean Sylvere) moves about ancient Athens surrounded by a small cloud of followers, deflating the pompus, drawing reason out of the unreasonable, defining things like piety and pity, speculating on the aspects of the soul—and infuriating the wise who refuse to acknowledge that the first step to wisdom is the acknowledgement that one knows nothing.

As the words are Plato's, so is Rossellini's style, which is straightforward, pure and serene. This offers not much opportunity for performances, in any conventional respect, or for drama, even during Socrates's trial and execution. The film is a series of rather proper, spoken tableaus that seldom erupt with spontaneity. (One exception: when Xanthippe laments the fact that Socrates is dying "unjustly," he answers with some impatience: "Would you prefer that I died justly?"

Yet there is in this fidelity—in this complete refusal to let the film come between the audience and its subject—a kind of beauty and poetry that are all but unknown in the work of any other contemporary filmmaker. Unfortunately, the film is in Italian, translated by English subtitles that don't always make a great deal of sense. However, if the film sends you back to the original texts, as it did me, it will have accomplished exactly what I suspect Rossellini intended it to do.

"Socrates" employs a minimum of cinematic techniques, and makes no attempt at characterization. We do meet Xanthippe, Crito, Meletus, Anytus and Lycon, in passing, but Plato himself, who was apparently ill during the trial (according to "Phaedo"), remains respectfully off-screen—played by Rossellini.

Vincent Canby, NY Times, November 26, 1971

8 de junho de 2009

Roma, Città Aperta (1945) / Ossessione (1943)

“Roma, Città Aperta” é visto actualmente como o primeiro filme do neo-realismo italiano, assim como Rossellini é considerado o “pai”. De facto, esta obra inicia um neo-realismo pós-guerra, antifascista. Além de “Roma, Città Aperta”, só “Ossessione” de Luchino Visconti pode disputar esse título de primeiro filme desse movimento. E a verdade é que “Ossessione” data de 1943, dois anos antes da obra de Rossellini. Mas, se “Roma, Città Aperta” inicia um neo-realismo do pós-guerra e antifascista, “Ossessione” não. A obra de Visconti inicia-se já como um neo-realismo romantizado, vincado sobre problemáticas sociais como o desemprego e a emigração, mas sobretudo já dando indícios do neo-realismo mais preocupado com o ser humano em detrimento da política. Já Rossellini explora em “Roma, Cidade Aberta” todo um conjunto de factores sociopolíticos anti-guerra e anti-fascistas. A obra de Rossellini é à partida um testemunho da resistência ao fascismo e ao nazismo, enquanto “Ossessione” se direcciona para um neo-realismo mais sentimental, emocional e romantizado. Ironicamente, Visconti viria a reincidir no tema da obsessão com “Rocco e i Suoi Fratelli” em 1960, embora mais tragicamente.

Mas se Vittorio de Sica se caracteriza como um realizador pessimista e deprimente, Visconti não foge muito à descrição. Enquanto De Sica se preocupa com a condição humana e sobretudo com decadências sociopolíticas e burguesas, Visconti, volto a repeti-lo, é um cineasta mais romantizado, mais interessado em reflectir nos fatalismos pessoais, na paixão e no amor, embora não descarte essa veia sociopolítica. O cinema de Visconti é mais sentimental, enquanto De Sica reflecte mais na realidade, na pobreza, na luta do ser humano face aos problemas sociais. De facto, após “Roma, Città Aperta”, o neo-realismo italiano enveredou por esse estilo, por essa caracterização mais preocupada com factores sociopolíticos com vista a exaltar o pós-guerra, o pós-fascismo e sua luta pela libertação. Este neo-realismo procurou registar esse sentimento de libertação, de consciência antifascista, de colectividade. E Rossellini volta a reflectir nessa luta do ser humano pela liberdade em “Paisà” (1946) e em “Germania, Anno Zero” (1948), os quais ficariam ligados a “Roma, Città Aperta”, sendo denominada como uma trilogia do pós-guerra e do antifascismo. Rossellini só em 1950 viria a enveredar por um neo-realismo mais sentimental como Visconti, ao realizar “Stromboli” com aquela que viria a ser sua mulher, Ingrid Bergman.

Mas Visconti, tal como de De Sica, Fellini e o próprio Rossellini com a sua mudança de estilo, não reflectia somente nesse lado mais sentimental e emocional do neo-realismo. Essa estética anti-guerra, antifascista e de grande fervor pós-guerra e de libertação de massas, deu lugar a um neo-realismo mais sociopolítico, mais preocupado com o ser humano e os seus tormentos. Enquanto Visconti, ainda que com todos esses factores sociopolíticos como o desemprego, o subdesenvolvimento das regiões, a pobreza; enquanto este prefere explorar mais essa vertente emocional e sentimental do ser humano, De Sica remete-se mais ao realismo, aos problemas sociais, aos infortúnios da vida, à pobreza, ao desemprego, à reforma agrária, à fome.

Visconti é muito mais ligado à paixão do que qualquer outro cineasta neo-realista e “Ossessione” é a grande prova disso. Embora Visconti seja mais emocional, ele reflecte muito no subdesenvolvimento urbano, na emigração do sul para o norte em busca de trabalho, na relação entre o homem e a sociedade (esta mais explorada por De Sica).

7 de junho de 2009

Roma, Città Aperta (1945)

Um filme de Roberto Rossellini







Não deixa de ter a sua piada constatar que a obra de Rossellini foi o primeiro filme sobre a 2ª Guerra Mundial, sobre o nazismo e o fascismo. Pouco tempo depois do final da guerra, Rossellini realizava esta obra-prima com um número mínimo de recursos, numa Itália em escombros. Destaque para a colaboração de Fellini no argumento do filme.