17 de junho de 2026

Laguna (2025, Sharunas Bartas) 

| elegia fúnebre |

provavelmente o filme mais bonito que iremos ver este ano; bartas celebra a vida celebrando a morte, e laguna corre, na contemplação da vida, da natura, corre para a sua celebração (da vida), numa viagem interior que procura aceitação e compreensão, no luto que procura extirpar a dor; laguna é belíssimo

5 de maio de 2026


 Secret of a Mountain Serpent (Nidhi Saxena, 2025)


as minhas impressões sobre o filme aqui

30 de abril de 2026

Pod elektricheskimi oblakami (2025, Aleksey German Jr.)
| melancolia apocalíptica (and the infinite sadness) |

16 de abril de 2026

 Freda (2021, Gessica Geneus)


poderosíssimo este freda, filme onde os ecos do colonialismo e do capitalismo reverberam sobre a tela para nos mostrar a miserabilidade que esse poder vigente deixa num país; freda é uma descida ao orco (que se nos apresenta logo naquele inicio que nos conta que houve uma violação), um passeio pela miserabilidade de um haiti corrupto, podre e a braços com convulsões sociais; há em freda, nessa sua génese política que conduz toda a narrativa, um factor subversivo que reclama consciência social e política, pois é na miserabilidade daquela gente que esses ecos coloniais ainda vivem; sóbrio, freda é filme que evita histerismos, facilitismos e sensacionalismo, assim como consegue, ainda que imerso nessa característica política que emerge do seu âmago, não ser um panfleto político; ora, na sua dramatização e na renúncia ao romantismo, freda fala-nos da desumanização daquela gente que culmina naquele final onde mãe e filha espelham a resignação e a descrença humana, da letargia recorrente disso tudo, das escolhas daquelas (e daqueles) jovens que abdicam dos sonhos para sobreviver; em suma, freda é um grande filme.

4 de abril de 2026

 



| carta ao filho |


Génesis (2024, José Oliveira e Marta Ramos)



o último filme do josé oliveira e da marta ramos é coisa elegíaca, oscila entre a ficção e o documental para falar de raízes, de antropologia, geologia, etnografia, etc, culminando nas memórias e naquilo que será a passagem de testemunho ao filho; coisa autobiográfica, pareceu-me, génesis (e o título não é em vão assim escolhido) carrega consigo um sentido humanístico que o faz, aliado aos planos panorâmicos que assombram o espectador, ser um tipo de herdeiro do cinema fordiano; de facto, toda essa paisagem nos mostra as fundações do cinema desta dupla, fundações westernianas não só de ford mas também de cimino; não é à toa que o sentido humanístico se vai exponenciar na sua veia documental, com o episódio dos refugiados ucranianos à cabeça; mas o filme da dupla portuguesa que nos faz rememorar reis e cordeiro ou straub e huillet, é, dentro dessa carta elegíaca ao filho - no começo ainda no ventre da mãe para no fim estar nos braços do pai -, uma viagem genesíaca e mitológica pelas terras (e serras) do fundão que analisa não só o passado como o presente e nos deixa as perguntas sobre o futuro, não só relativamente à tecnologia que avança vertiginosamente mas também quanto às nossas raízes e matrizes fundacionais, aos valores que são necessários cultivar e cujas novas gerações tendem a esquecer; belíssimo filme!

30 de março de 2026


India Song (1975, Marguerite Duras)

 

“Tant qu’une image est vivante, tant qu’elle a de l’impact (idéologiquement dangereuse ou utile), tant qu’elle interpelle un public, tant qu’elle lui fait plaisir, cela signifie que fonctionne dans cette image, autour d’elle, derrière elle, quelque chose qui est du domaine de rénonciation (pouvoir + événement = « Voici »). Admirable à cet égard est le dernier film de M. Duras (India Song) qui nous donne à saisir (à entendre) d’où vient ce qui nous donne les images.”
Serge Daney

23 de março de 2026

 

2025, Magalhães, Lav Diaz 



magalhães, e o cinema de diaz é sempre espelhado pela lentidão dos seus movimentos e pela sua sonoridade abrasadora, é coisa tão erosiva quanto a sua sentença mitológica que prevalece no final; é na visceralidade dos seus primitivismos, tanto dos colonizadores como dos colonizados, que diaz promove uma espécie de pathos (tendo o seu pico na relação amorosa de magalhães) para combater um logos que tem a sua suprema expresividade naquele final mitológico e sentenciador; ora, magalhães é esse duelo conflituoso entre dois conceitos, filmado e sonorizado magistralmente como diaz já nos habituou