23 de março de 2026

 

2026, Magalhães, Lav Diaz 



magalhães, e o cinema de diaz é sempre espelhado pela lentidão dos seus movimentos e pela sua sonoridade abrasadora, é coisa tão erosiva quanto a sua sentença mitológica que prevalece no final; é na visceralidade dos seus primitivismos, tanto dos colonizadores como dos colonizados, que diaz promove uma espécie de pathos (tendo o seu pico na relação amorosa de magalhães) para combater um logos que tem a sua suprema expresividade naquele final mitológico e sentenciador; ora, magalhães é esse duelo conflituoso entre dois conceitos, filmado e sonorizado magistralmente como diaz já nos habituou

18 de março de 2026

 



"E os grandes proprietários, que têm de perder as suas terras na primeira transformação, os grandes proprietários que estudam a História, que têm olhos para ler a História, deviam conhecer este grande facto: a propriedade, quando acumulada, em muito poucas mãos, há-de vir a ser espoliada. E também este outro facto paralelo: quando uma maioria passa frio e fome, tomará à força aquilo que necessita. E também o facto gritante, que ecoa por toda a História: a repressão só conduz ao fortalecimento e união de todos os oprimidos. Os poderosos proprietários ignoram os três gritos da História." 


(...)


"O povo vem com redes para pescar as batatas no rio, e os guardas impedem-no. Os homens vêm nos carros ruidosos apanhar as laranjas caídas no chão, mas as laranjas estão untadas de querosene. E ficam imóveis, vendo as batatas passarem flutuando; ouvem os gritos dos porcos abatidos num fosso e cobertos de cal viva; contemplam as montanhas de laranjas, rolando num lodaçal putrefacto. Nos olhos dos homens reflecte-se o malogro. Nos olhos dos esfaimados cresce a ira. Na alma do povo, as vinhas da ira crescem e espraiam-se pesadamente, pesadamente amadurecendo para a vindima." 


'As Vinhas da Ira', John Steinbeck




The Grapes of Wrath (1940, John Ford)

revisto mais uma vez há dias, a obra-prima de ford (uma delas), embora a certa altura omita capítulos do livro e não respeite a sua linearidade, é um portento de filme onde a negrura e a luminosidade das sombras que assombram o homem são tão imensas quanto a imensidão que elas abundam nas páginas do livro; e essa escuridão, que ford explora tão magistralmente quanto steinbeck, vem de dentro da alma daqueles seres espoliados e forçados a procurar a sobrevivência na migração, vem de dentro da alma daqueles que compõem aquela sociedade injusta e preconceita que steinbeck nos revelou nesta obra tão poderosa quanto magnânima, vem de dentro daqueles que (tal como hoje ainda acontece) se aproveitam da desgraça e miserabilidade alheia... mas a luz que existe (e até nas sombras ela existe, à imagem da tradição nipónica) vem de dentro da alma da mãe, da matriarca joad que é uma verdadeira força da natureza, o pilar daquela família, porque é ela que carrega aquele mundo joad às costas, é ela que mantém o ritmo, que conduz o arado, é ela a força viva dos joad... tal como o livro de steinbeck, o filme de ford é monumental  

12 de março de 2026

 



o novo jarmusch é maravilhoso, consegue estourar na tela com toda a sua magnitude melancólica e apaziguadora numa análise brutal do distanciamento familiar; ali, a frieza das relações familiares espelha esse distanciamento que aliena o individuo no seu alheamento de vínculos afectivos e emocionais; jarmusch é perfeito na forma como analisa isso, digamos que jarmuschianamente, preenchendo o filme com os seus silêncios inquietantes e desconfortáveis, maravilhoso! 

2025, Father Mother Sister Brother, Jim Jarmusch

9 de março de 2026

do melhor para o pior...

 


Zwei Staatsanwälte (2025, Sergei Loznitsa)
In die Sonne schauen (2025, Mascha Schilinski)
Resurrection (2025, Bi Gan)

20 de fevereiro de 2026



 2025, Sawt Hind Rajab, Kaouther Ben Hania 


a voz de hind rajab tem a destreza de usar essa voz que nos entra pela tela como um objecto lancinante que nos atinge bem dentro do estômago e nos deixa, pelo menos, desconfortáveis, como objecto do real que nunca deixa o ficcional ganhar raízes; assim, no desespero da impossibilidade que cria a tensão que nos angustia e nos prende à vã tentativa de salvar hind, a cineasta usa essa voz como constante lembrança de que o real está lá, sempre - e que culmina naqueles momentos finais em que as imagens reais naquele ecrã de telemóvel se sobrepõem às imagens ficcionais como que, comparando-as e nunca nos deixando esquecer desse real - real esse que, ao invés de apenas se misturar com o ficcional, ultrapassa-o


Oh crianças malcriadas de Gaza.
Vocês que me perturbavam o tempo todo
com seus gritos debaixo da minha janela.
Vocês que enchiam de caos e correria
todas as minhas manhãs.
Vocês que quebraram meu vaso
e roubaram a flor solitária em minha varanda.
Voltem,
e gritem o quanto quiserem
e quebrem todos os vasos.
Roubem todas as flores.
Voltem.
Apenas voltem.

'Oh crianças malcriadas de Gaza', Khaled Juma
















Hakkari'de Bir Mevsim (1983, Erden Kiral)


a season in hakkari é daquelas pérolas cinematográficas que nos deixam maravilhados; filme que nasce dum objecto político, o exílio do professor para o kurdistão turco, não sabemos o motivo do exílio, nem interessa, pois o que interessa é o elo de ligação que se vai estabelecendo com aquela gente e em especial com as crianças, e nisso kiral consegue evitar lugares-comuns, sensacionalismos, sentimentalismos bacocos e desmesurados, etc; na sua veia introspectiva, o filme usa a voz-off mais como uma transmissão dos pensamentos (coisa tarkovskyana, malickiana, etc) do que como narração dos acontecimentos; de resto, hakkari'de bir mevsim caminha por um realismo social que nunca deixa esquecer as dificuldades e o isolamento daquela região e daquelas pessoas; belíssimo!















Manpower (1941, Raoul Walsh)
| a tragédia da candura |



em manpower, walsh faz algo que deambula entre o melodrama, a comédia e o noir, assim como a personagem de dietrich é uma femme fatale que o rejeita ser (ou foge de o ser); no entanto, entre a candura e a fanfarronice, manpower é um filme sobre a amizade

7 de fevereiro de 2026


1987, Yam Daabo, Idrissa Ouedraogo 



  | rejeição e obstinação | 


em a escolha, ouedraogo serve-se dos ritos e do primitivismo para analisar o ser humano em si; se é no rudimentar que ouedraogo caminha, fá-lo na intenção de exponenciar o ser humano nos seus principios e nas relações entre si, ou seja, se o primitivismo a uns se acentua, a outros se emiscui; é por isso que yam daabo, na sua mais que competente mise-en-scène, se reveste de simplicidade para nos contar uma história de amor, de rejeição e de obstinação que determina o destino daquela gente; maravilhoso

31 de janeiro de 2026

7 de janeiro de 2026



 
1956, Fedra, Manuel Mur Oti 

se em freda oti filma a tragédia sénequiana (que vem da eurípidiana) como um melodrama que invariavelmente desaguará nessa tagédia, é coisa de mestre tudo o que oti consegue com freda, desde o erotismo que estrella transpira em cada olhar, em cada movimento, até à tensão que se vai criando entre madrasta e enteado decorrente da obsessão (que por sua vez vem do desejo) que é o thema desta tragédia; magnífico











 
Red Shoes (2022, Carlos Eichelmann Kaiser) 



| comunhão de almas lancinadas | 

belo filme este onde os erros do passado assombram o presente e onde os traumas se reconhecem e se conciliam...













 
On Paradise Road (James Benning, 2020)