18 de março de 2026

 



"E os grandes proprietários, que têm de perder as suas terras na primeira transformação, os grandes proprietários que estudam a História, que têm olhos para ler a História, deviam conhecer este grande facto: a propriedade, quando acumulada, em muito poucas mãos, há-de vir a ser espoliada. E também este outro facto paralelo: quando uma maioria passa frio e fome, tomará à força aquilo que necessita. E também o facto gritante, que ecoa por toda a História: a repressão só conduz ao fortalecimento e união de todos os oprimidos. Os poderosos proprietários ignoram os três gritos da História." 


(...)


"O povo vem com redes para pescar as batatas no rio, e os guardas impedem-no. Os homens vêm nos carros ruidosos apanhar as laranjas caídas no chão, mas as laranjas estão untadas de querosene. E ficam imóveis, vendo as batatas passarem flutuando; ouvem os gritos dos porcos abatidos num fosso e cobertos de cal viva; contemplam as montanhas de laranjas, rolando num lodaçal putrefacto. Nos olhos dos homens reflecte-se o malogro. Nos olhos dos esfaimados cresce a ira. Na alma do povo, as vinhas da ira crescem e espraiam-se pesadamente, pesadamente amadurecendo para a vindima." 


'As Vinhas da Ira', John Steinbeck




The Grapes of Wrath (1940, John Ford)

revisto mais uma vez há dias, a obra-prima de ford (uma delas), embora a certa altura omita capítulos do livro e não respeite a sua linearidade, é um portento de filme onde a negrura e a luminosidade das sombras que assombram o homem são tão imensas quanto a imensidão que elas abundam nas páginas do livro; e essa escuridão, que ford explora tão magistralmente quanto steinbeck, vem de dentro da alma daqueles seres espoliados e forçados a procurar a sobrevivência na migração, vem de dentro da alma daqueles que compõem aquela sociedade injusta e preconceita que steinbeck nos revelou nesta obra tão poderosa quanto magnânima, vem de dentro daqueles que (tal como hoje ainda acontece) se aproveitam da desgraça e miserabilidade alheia... mas a luz que existe (e até nas sombras ela existe, à imagem da tradição nipónica) vem de dentro da alma da mãe, da matriarca joad que é uma verdadeira força da natureza, o pilar daquela família, porque é ela que carrega aquele mundo joad às costas, é ela que mantém o ritmo, que conduz o arado, é ela a força viva dos joad... tal como o livro de steinbeck, o filme de ford é monumental  

12 de março de 2026

 



o novo jarmusch é maravilhoso, consegue estourar na tela com toda a sua magnitude melancólica e apaziguadora numa análise brutal do distanciamento familiar; ali, a frieza das relações familiares espelha esse distanciamento que aliena o individuo no seu alheamento de vínculos afectivos e emocionais; jarmusch é perfeito na forma como analisa isso, digamos que jarmuschianamente, preenchendo o filme com os seus silêncios inquietantes e desconfortáveis, maravilhoso! 

2025, Father Mother Sister Brother, Jim Jarmusch

9 de março de 2026

do melhor para o pior...

 


Zwei Staatsanwälte (2025, Sergei Loznitsa)
In die Sonne schauen (2025, Mascha Schilinski)
Resurrection (2025, Bi Gan)

20 de fevereiro de 2026



 2025, Sawt Hind Rajab, Kaouther Ben Hania 


a voz de hind rajab tem a destreza de usar essa voz que nos entra pela tela como um objecto lancinante que nos atinge bem dentro do estômago e nos deixa, pelo menos, desconfortáveis, como objecto do real que nunca deixa o ficcional ganhar raízes; assim, no desespero da impossibilidade que cria a tensão que nos angustia e nos prende à vã tentativa de salvar hind, a cineasta usa essa voz como constante lembrança de que o real está lá, sempre - e que culmina naqueles momentos finais em que as imagens reais naquele ecrã de telemóvel se sobrepõem às imagens ficcionais como que, comparando-as e nunca nos deixando esquecer desse real - real esse que, ao invés de apenas se misturar com o ficcional, ultrapassa-o


Oh crianças malcriadas de Gaza.
Vocês que me perturbavam o tempo todo
com seus gritos debaixo da minha janela.
Vocês que enchiam de caos e correria
todas as minhas manhãs.
Vocês que quebraram meu vaso
e roubaram a flor solitária em minha varanda.
Voltem,
e gritem o quanto quiserem
e quebrem todos os vasos.
Roubem todas as flores.
Voltem.
Apenas voltem.

'Oh crianças malcriadas de Gaza', Khaled Juma
















Hakkari'de Bir Mevsim (1983, Erden Kiral)


a season in hakkari é daquelas pérolas cinematográficas que nos deixam maravilhados; filme que nasce dum objecto político, o exílio do professor para o kurdistão turco, não sabemos o motivo do exílio, nem interessa, pois o que interessa é o elo de ligação que se vai estabelecendo com aquela gente e em especial com as crianças, e nisso kiral consegue evitar lugares-comuns, sensacionalismos, sentimentalismos bacocos e desmesurados, etc; na sua veia introspectiva, o filme usa a voz-off mais como uma transmissão dos pensamentos (coisa tarkovskyana, malickiana, etc) do que como narração dos acontecimentos; de resto, hakkari'de bir mevsim caminha por um realismo social que nunca deixa esquecer as dificuldades e o isolamento daquela região e daquelas pessoas; belíssimo!















Manpower (1941, Raoul Walsh)
| a tragédia da candura |



em manpower, walsh faz algo que deambula entre o melodrama, a comédia e o noir, assim como a personagem de dietrich é uma femme fatale que o rejeita ser (ou foge de o ser); no entanto, entre a candura e a fanfarronice, manpower é um filme sobre a amizade

7 de fevereiro de 2026


1987, Yam Daabo, Idrissa Ouedraogo 



  | rejeição e obstinação | 


em a escolha, ouedraogo serve-se dos ritos e do primitivismo para analisar o ser humano em si; se é no rudimentar que ouedraogo caminha, fá-lo na intenção de exponenciar o ser humano nos seus principios e nas relações entre si, ou seja, se o primitivismo a uns se acentua, a outros se emiscui; é por isso que yam daabo, na sua mais que competente mise-en-scène, se reveste de simplicidade para nos contar uma história de amor, de rejeição e de obstinação que determina o destino daquela gente; maravilhoso

31 de janeiro de 2026

7 de janeiro de 2026



 
1956, Fedra, Manuel Mur Oti 

se em freda oti filma a tragédia sénequiana (que vem da eurípidiana) como um melodrama que invariavelmente desaguará nessa tagédia, é coisa de mestre tudo o que oti consegue com freda, desde o erotismo que estrella transpira em cada olhar, em cada movimento, até à tensão que se vai criando entre madrasta e enteado decorrente da obsessão (que por sua vez vem do desejo) que é o thema desta tragédia; magnífico











 
Red Shoes (2022, Carlos Eichelmann Kaiser) 



| comunhão de almas lancinadas | 

belo filme este onde os erros do passado assombram o presente e onde os traumas se reconhecem e se conciliam...













 
On Paradise Road (James Benning, 2020)

6 de janeiro de 2026

Salaam Bombay! (1988, Mira Nair) 



| sobreviver em bombaim | 

salaam bombay! mostra logo no seu inicio ao que vem: realismo; desde esse inicio onde somos confrontados com o abandono de krishna naquele circo, que encetamos uma viagem neorealista, qualquer coisa aproximada a um road movie mas onde não há road e onde a viagem é a do crescimento, em que a sobrevivência e a esperança (ou o sonho) coexistem; da crueza vive salaam bombay, mas é na sua constância e na sua fuga aos aligeiramentos narrativos que se transcende, evitando sentimentalismos bacocos; o filme de mira nair mergulha nessa crueza da luta pela vida numa bombaim caótica e degradante (como toda a índia), conseguindo não se ater a um personagem nessa exposição da miséria e conseguindo também fazer um filme luminoso em meio a toda a escuridão simbolizada; maravilhoso