Ghost Elephants [2025, Werner Herzog]
das intermitências...
24 de março de 2026
23 de março de 2026
2025, Magalhães, Lav Diaz
magalhães, e o cinema de diaz é sempre espelhado pela lentidão dos seus movimentos e pela sua sonoridade abrasadora, é coisa tão erosiva quanto a sua sentença mitológica que prevalece no final; é na visceralidade dos seus primitivismos, tanto dos colonizadores como dos colonizados, que diaz promove uma espécie de pathos (tendo o seu pico na relação amorosa de magalhães) para combater um logos que tem a sua suprema expresividade naquele final mitológico e sentenciador; ora, magalhães é esse duelo conflituoso entre dois conceitos, filmado e sonorizado magistralmente como diaz já nos habituou
18 de março de 2026
(...)
"O povo vem com redes para pescar as batatas no rio, e os guardas impedem-no. Os homens vêm nos carros ruidosos apanhar as laranjas caídas no chão, mas as laranjas estão untadas de querosene. E ficam imóveis, vendo as batatas passarem flutuando; ouvem os gritos dos porcos abatidos num fosso e cobertos de cal viva; contemplam as montanhas de laranjas, rolando num lodaçal putrefacto. Nos olhos dos homens reflecte-se o malogro. Nos olhos dos esfaimados cresce a ira. Na alma do povo, as vinhas da ira crescem e espraiam-se pesadamente, pesadamente amadurecendo para a vindima."
revisto mais uma vez há dias, a obra-prima de ford (uma delas), embora a certa altura omita capítulos do livro e não respeite a sua linearidade, é um portento de filme onde a negrura e a luminosidade das sombras que assombram o homem são tão imensas quanto a imensidão que elas abundam nas páginas do livro; e essa escuridão, que ford explora tão magistralmente quanto steinbeck, vem de dentro da alma daqueles seres espoliados e forçados a procurar a sobrevivência na migração, vem de dentro da alma daqueles que compõem aquela sociedade injusta e preconceita que steinbeck nos revelou nesta obra tão poderosa quanto magnânima, vem de dentro daqueles que (tal como hoje ainda acontece) se aproveitam da desgraça e miserabilidade alheia... mas a luz que existe (e até nas sombras ela existe, à imagem da tradição nipónica) vem de dentro da alma da mãe, da matriarca joad que é uma verdadeira força da natureza, o pilar daquela família, porque é ela que carrega aquele mundo joad às costas, é ela que mantém o ritmo, que conduz o arado, é ela a força viva dos joad... tal como o livro de steinbeck, o filme de ford é monumental
12 de março de 2026
9 de março de 2026
20 de fevereiro de 2026
2025, Sawt Hind Rajab, Kaouther Ben Hania
a voz de hind rajab tem a destreza de usar essa voz que nos entra pela tela como um objecto lancinante que nos atinge bem dentro do estômago e nos deixa, pelo menos, desconfortáveis, como objecto do real que nunca deixa o ficcional ganhar raízes; assim, no desespero da impossibilidade que cria a tensão que nos angustia e nos prende à vã tentativa de salvar hind, a cineasta usa essa voz como constante lembrança de que o real está lá, sempre - e que culmina naqueles momentos finais em que as imagens reais naquele ecrã de telemóvel se sobrepõem às imagens ficcionais como que, comparando-as e nunca nos deixando esquecer desse real - real esse que, ao invés de apenas se misturar com o ficcional, ultrapassa-o
Oh crianças malcriadas de Gaza.
Vocês que me perturbavam o tempo todo
com seus gritos debaixo da minha janela.
Vocês que enchiam de caos e correria
todas as minhas manhãs.
Vocês que quebraram meu vaso
e roubaram a flor solitária em minha varanda.
Voltem,
e gritem o quanto quiserem
e quebrem todos os vasos.
Roubem todas as flores.
Voltem.
Apenas voltem.
'Oh crianças malcriadas de Gaza', Khaled Juma
Hakkari'de Bir Mevsim (1983, Erden Kiral)
a season in hakkari é daquelas pérolas cinematográficas que nos deixam maravilhados; filme que nasce dum objecto político, o exílio do professor para o kurdistão turco, não sabemos o motivo do exílio, nem interessa, pois o que interessa é o elo de ligação que se vai estabelecendo com aquela gente e em especial com as crianças, e nisso kiral consegue evitar lugares-comuns, sensacionalismos, sentimentalismos bacocos e desmesurados, etc; na sua veia introspectiva, o filme usa a voz-off mais como uma transmissão dos pensamentos (coisa tarkovskyana, malickiana, etc) do que como narração dos acontecimentos; de resto, hakkari'de bir mevsim caminha por um realismo social que nunca deixa esquecer as dificuldades e o isolamento daquela região e daquelas pessoas; belíssimo!
Manpower (1941, Raoul Walsh)
| a tragédia da candura |
em manpower, walsh faz algo que deambula entre o melodrama, a comédia e o noir, assim como a personagem de dietrich é uma femme fatale que o rejeita ser (ou foge de o ser); no entanto, entre a candura e a fanfarronice, manpower é um filme sobre a amizade
7 de fevereiro de 2026
1987, Yam Daabo, Idrissa Ouedraogo
| rejeição e obstinação |
em a escolha, ouedraogo serve-se dos ritos e do primitivismo para analisar o ser humano em si; se é no rudimentar que ouedraogo caminha, fá-lo na intenção de exponenciar o ser humano nos seus principios e nas relações entre si, ou seja, se o primitivismo a uns se acentua, a outros se emiscui; é por isso que yam daabo, na sua mais que competente mise-en-scène, se reveste de simplicidade para nos contar uma história de amor, de rejeição e de obstinação que determina o destino daquela gente; maravilhoso
Subscrever:
Comentários (Atom)
-
as obras-primas de António Reis e Margarida Cordeiro 1976, Trás-os-Montes Por um filme A única solidão é aquela que não tem passado....















