13 de agosto de 2022

 


Garbo Laughs” foi a frase mais insistentemente usada pela publicidade para lançamento desta célebre película, que marca o único encontro de dois dos mais famosos nomes de Hollywood nos anos 30: Ernst Lubitsch e Greta Garbo.

Até Ninotchka, a “divina” tinha feito sempre papéis sérios ou trágicos e nunca participara em qualquer comédia. Daí a curiosidade com que foi aguardada esta nova faceta e aquele que seria o penúltimo filme de Garbo. Ela voltaria a rir (pelo menos tão bem como na obra que vamos ver) no seu último filme, igualmente uma comédia: Two-Faced Woman, realizado por George Cukor em 1941.

Aliás, Cukor, que já dirigira Greta Garbo em 1936 no magnífico Camille, foi o realizador inicialmente designado para dirigir Ninotchka, quando, depois de enorme pega com David O. Selznick, este lhe retirou Gone With the Wind. Lubitsch ia então começar a realização de The Women. À última hora, Mayer trocou-os. Lubitsch ficou com Ninotchka, Cukor com The Women.

Há muitos anos que Lubitsch queria dirigir a Garbo e dizia a quem o quisesse ouvir: “How wonderful Greta and I would be together. What a wonderful picture we could make together”. Finalmente, a ocasião surgiu neste filme a que Mayer torceu muito o nariz. Não só achava que Greta Garbo nunca seria convincente numa comédia, como, apesar do seu visceral anti-comunismo, receou as reacções de muitos críticos e intelectuais influentes que há 69 anos pensavam e escreviam sobre a URSS exactamente o contrário do que os bisnetos deles pensam e escrevem hoje. Greta Garbo também teve medo. Foi o próprio Lubitsch quem declarou que foi difícil convencê-la e que, na célebre cena da gargalhada, a actriz estava em pânico. Pediu ao realizador que mudasse. Lubitsch ter-lhe-ia respondido: “I’ll do anything you want. I’ll change the script, the dialogue, anything, but this can’t be changed. Too much depends on it”. E dependeu.

Noventa por cento da publicidade e noventa por cento do êxito do filme vieram dessa cena. Mas deve dizer-se que o êxito, inicialmente, não foi muito grande, apesar de três designações para o Oscar (melhor filme, melhor actriz, melhor história original). Mas ainda não foi dessa vez – não foi nunca, aliás – que Garbo obteve a estatueta. Vivien Leigh bateu-a, no Gone, como “toda a gente” sabe.

Se comecei por falar de Garbo é porque, ainda hoje, é o seu mito o mais poderoso pólo de atracção para esta obra. Mas falar de Ninotchka é sobretudo falar de Lubitsch, numa das suas mais portentosas realizações. Certamente, Ninotchka não é o melhor Lubitsch, mas nele estão integralmente presentes as suas decantada e depurada arte e o famigerado Lubitsch touch.

Antes de chamar a atenção para alguns dos mais belos exemplos do seu estilo neste filme, digamos algo sobre o seu argumento e a sátira anti-URSS, que tanta tinta fez correr e tantos engulhos causou. Estava-se em 1939 e Estaline acabava de assinar com Hitler o famoso pacto de não agressão que caiu como uma bomba nos meios ocidentais. Embora a América guardasse ainda algumas distâncias em relação ao conflito europeu, a política de Roosevelt tinha uma orientação marcada (a favor das democracias ocidentais) e o pacto autorizava consequentemente a que às sátiras à Alemanha nazi (das quais a mais célebre seria O Ditador de Chaplin no ano seguinte) se juntassem as dirigidas à União Soviética. O famoso gag da troca, na estação, entre o camarada russo e o dirigente hitleriano é uma charge directa ao espírito desse Pacto e à luz dele se compreende.

Mas, de tanto se falar na sátira à URSS, têm-se esquecido que Lubitsch – mestre das aparências e ambiguidades – não apontou só para esse lado. Três anos depois, seria dele um dos filmes que mais ridicularizaria o nazismo (To Be Or Not to Be) e, mesmo em Ninotchka, a aristocracia (francesa ou russa) não é melhor tratada do que os camaradas soviéticos. A Grã-Duquesa Swana não é objecto de mais meigo tratamento (para já não falar do Conde-criado) e o próprio Melvyn Douglas é implacavelmente caracterizado (as relações com o criado e, sobretudo, o jantar no restaurante dos operários com a sua suposta familiaridade). Mais uma vez, Lubitsch ri de tudo e à custa de todos e não será Ninotchka que provará parcialidade. Nesse capítulo, a invenção mais genial é a escolha de Constantinopla (com tudo o que de pouco europeu e muito pouco democrático, à época, cidade e país evocavam) para o encontro final dos comunistas russos e do conde francês. Pode dizer-se que Lubitsch inventou avant la lettre o “terceiro mundo”, do qual, aliás, se ri tanto como dos outros dois.

Noto agora, alguns dos mais saborosos achados de Lubitsch nesta comédia:

a) Mais uma vez, as honras são para o seu sentido de elipse, tanto visual como sonoro. A sequência em que os três camaradas instalados na suite real, fazem as suas encomendas, com a banda sonora a funcionar em off sobre as portas que se abrem e fecham, é um exemplo antológico, como o são o já citado gag da saudação hitleriana, a troca de chapéus, a cena em que Garbo propõe a Douglas mostrar-lhe os ferimentos, a estátua da república com a coroa no quarto de Douglas, a cena da casa de banho do restaurante de luxo ou as sucessivas entradas e saídas do comissário Razinin (desempenhado pelo popularíssimo especialista de filmes de terror, Bela Lugosi, o que já de si é um achado). Como achados são as utilizações dos retratos de Lenine e Estaline ou a sequência dos beijos, com o famoso “Again” da Garbo.

b) Os portentosos diálogos, funcionando para todos os lados. Tanto para justificarem a instalação no hotel dos russos, como para as maquinações de Douglas e da Grã-Duquesa (“comprarmos o nosso futuro com o teu passado”).

c) A construção da narrativa com o clou na famigerada sequência das gargalhadas de Garbo (repare- se na utilização anterior da anedota dos escoceses) ou na da sua não menos célebre bebedeira. Talvez Greta Garbo nunca tenha sido tão admirável como quando bebe champagne pela primeira vez (“lt’s good”) ou quando, depois, de olhos fechados, ouve o barulho da rolha da garrafa.

d) Finalmente, o último gag, talvez hoje o que mais faz pensar. Apesar da conversão ao capitalismo, os três ex-comissários continuam em purgas. Kopalski apagou-se no anúncio luminoso do restaurante e exibe o cartaz onde se lê: “Buljanoff and lranoff unfair to Kopalski” e ficamos sem saber se aprendeu à sua custa o que significa a livre concorrência ou se tudo mudou para tudo ficar na mesma.


JOÃO BÉNARD DA COSTA

10 de agosto de 2022


 

Últimas coisas vistas, entre filmes da Muratova, Bressane e revisões do Stalker, A torinói ló e Madam Satan do DeMille, quatro filmes de Grémillon, portentosas obras, maravilhamento total pelo cinema clássico francês. Lumière d'été, safra de 43, é noir que transpira tragédia desde o início, desde aquela chegada de Michele ao hotel, coisa progressiva que vai revelando a personalidade das personagens, coisa negra que se serve da distância entre as personagens para cavar o fosso de trevas que se vai revelando e crescendo… onde nuns existe amor, noutros há obsessão, caminho demoníaco, as trevas dominam Patrice como no passado já o haviam dominado, o destino afigura-se trágico e aniquilador. Lumière d'été é um portento de filme.
Le ciel est à vous, no ano a seguir, volta a trazer a deslumbrante Madeleine Renaud no papel duma esposa dum ex-piloto e mecânico que se deslumbra e apaixona pela aviação. Fábula emocional, Le ciel est à vous é coisa singela e humana que exalta a mulher.
De 44 saltamos para 51, L’étrange Madame X, filme de enganos e desenganos, de amor e de traição, de ilusão e decepção, de candura e de astúcia. É naqueles dois amantes, um iludido e outro perdido, que se encontra o contraste social, ele operário e pobre, conduzido por um amor idealizado que mal sabe ele não corresponder à realidade, e ela madame rica, perdida nas incertezas e nas mentiras duma vida dupla, a correr contra o tempo que a cerca com os acontecimentos do presente e a pressionam a tomar uma decisão…coisa melancólica.
Por fim, L’amour d’une femme de 53, ultima longa-metragem de Grémillon, assombro total. Tal como L’étrange Madame X, L’amour d’une femme é coisa melancólica, mais ainda até, mergulha na ambiguidade e no confronto dum amor que impõe com a vocação que a preenche.
Os filmes de Grémillon são coisas líricas e melancólicas que atestam a sua grandiosidade.

20 de julho de 2022



 2018, Den' Pobedy, Sergei Loznitsa


["Floresciam macieiras e pereiras,
Pairavam névoas sobre o rio. 
Katyusha saía para a margem, 
Para a margem alta e íngreme.
Katyusha saía para a margem, 
Para a margem alta e íngreme..."]

5 de julho de 2022


 

1983, La Ville des Pirates, Raoul Ruiz


 texto de Daney, tradução de Luiz Soares Júnior 
[https://dicionariosdecinema.blogspot.com/2016/09/a-cidade-dos-piratas-por-serge-daney.html]

9 de junho de 2022


 


1983, Sredi serykh kamney, Kira Muratova


Sredi serykh kamney, filme mutilado que fez com que Muratova o rejeitasse, coisa de 83 mas só lançada a 88, na altura creditado a Ivan Sidorov precisamente pela recusa de Muratova em assinar o seu nome, acção de protesto pela censura sofrida e consequente mutilação do material filmado, ainda assim é coisa preciosa, estilisticamente áspera e rudimentar na esteira dum Parajanov, duma Shepitko, Klimov ou Pasolini… 

Entre as pedras cinzentas, que na sua crueza e asperidade encontra a poética necessária para adaptar o conto de Korolenko, é na verdade a procura das memórias de processos traumáticos na infância. Vive da nostalgia como quem vive do pão, mas foge da exposição ao sentimentalismo como o diabo foge da cruz. O ritmo que Muratova consegue imprimir ao filme é vertiginoso e, de certa forma, tipicamente soviético (ou daquela era). É, no entanto, a procura da abstração que fazem do filme coisa preciosa, a deambulação de Vasya entre o contraste social dos dois “mundos” explorados, na ânsia de colmatar o vazio deixado pela perda recente da mãe, traz ao filme não só essa abstração narrativa, como um conflito interior e emocional daquela criança.

O que me parece em Entre as pedras cinzentas é que Muratova procura estender um certo tumulto interior, não só de Vazia como de seu pai, ambos em processo de luto e de dor, ao caos frenético que se vive naquela casa, como se o exterior fosse uma extensão do interior daqueles dois seres em redescoberta interior e readaptação ao mundo que os rodeia. É talvez por isso que Vasya procura o oposto a que tem em casa, ainda que encontre outro caos idêntico, numa tentativa imaculada e cândida de encontrar o afecto que perdeu da mãe e o que lhe é negado pelo pai, imerso também ele na sua dor e no seu conflito interior. Não deixa, pois, de ser curioso, que seja na manifestação de afecto de Vasya para com Marusya, que a catarse de pai e filho seja desencadeada e culmine no final, como se Muratova nos quisesse dizer que a cura é o amor. Maravilhoso!

4 de junho de 2022






filmes vistos dignos de registo:


2013, Cuba Libre, Albert Serra
2018, Roi Soileil, Albert Serra
1953, Lili, Charles Walters
1960, Hadaka no shima, Kaneto Shindô
1945, Les enfants du paradis, Marcel Carné
1938, Le quai des brumes, Marcel Carné
1938, Hotel du Nord, Marcel Carné
1939, Le jour se lève, Marcel Carné
1937, Drôle de drame, Marcel Carné
1942, Les visiteurs du soir, Marcel Carné
1957, The Tarnished Angels, Douglas Sirk
1969, La madrigueira, Carlos Saura
1973, Ana y los lobos, Carlos Saura
2013, História de la meva mort, Albert Serra
2017, Zama, Lucrecia Martel
1959, The Nun’s Story, Fred Zinnemann
2005, Tian bian yi duo yun, Tsai Ming-Liang
1959, Deux hommes dans Manhattan, Jean-Pierre Melville
1930, La petite Lise, Jean Grémillon
1941, Remorques, Jean Grémillon
1958, Ascenseur pourn l’échafaud, Louis Malle
1948, Anna Karenina, Julien Duvivier
1937, Pépé le Moko, Julien Duvivier
1995, Do lok tin si, Wong Kar-Wai
1936, La Belle Equipe, Julien Duvivier
1939, La fin du jour, Julien Duvivier
1991, Jacquot de Nantes, Agnès Varda
2021, Akyrky koch, Dastan Zhapar Uulu e Bakyt Mukul
1941, Lydia, Julien Duvivier
1943, Flesh and Fantasy, Julien Duvivier
1967, Diaboliquement votre, Julien Duvivier
1952, Don Camillo, Julien Duvivier
1953, Le Retour de Don Camillo, Julien Duvivier
1946, Panique, Julien Duvivier
2021, Hive, Blerta Basholli
1932, Daïnah la métisse, Jean Grémillon
2020, Février, Kamen Kalev
2016, Bezbog, Ralitza Petrova
1972, Kozijat rog, Metodi Andonov
1988, Krótki film o zabijaniu, Krzysztof Kieslowski
2013, La Vénus à la fourrure, Roman Polanski
1977, Ceddo, Ousmane Sembène
1927, Napoléon vu par Abel Gance, Abel Gance
1928, Zemlya v plenu, Fyodor Otsep
1960, Boulevard, Julien Duvivier
2015, Maraviglioso Boccaccio, Paolo e Vittorio Taviani
2011, Nana, Valérie Massadian
2017, Columbus, Kogonada
2012, Le Capital, Costa-Gravas
1956, Voici le temps des assassins, Julien Duvivier
1931, David Golder, Julien Duvivier
2005, Mata no hi no chika, Kazuo Hara
1971, Basic Training, Frederick Wiseman
2008, Tokyo Sonata, Kiyoshi Kurosawa
2010, Boxing Gym, Frederick Wiseman




revisões:


1991, La double vie de Véronique, Krzysztof Kieslowski
1994, Little Women, Gillian Armstrong
1988, Wong Gok ka moon, Wong Kar-Wai
1990, Ah Fei jing juen, Wong Kar-Wai
1994, Chung Hing sam lam, Wong Kar-Wai
2018, Donbass, Sergei Loznitsa
1960, Le testament d’Orphée, Jean Cocteau
1960, Les yeaux sans visage, Georges Franju
1997, Chun gwong cha sit, Wong Kar-Wai
2000, Fa yeung nin wah, Wong Kar-Wai
2004, 2046, Wong Kar-Wai
2019, State Funeral, Sergei Loznitsa
1977, Der amerikanische freund, Wim Wenders