isto é que eu quero mesmo muito ver. Prioridade máxima.

A torinói ló (2011)
Béla Tarr

Öszi Almanach é Tarr tal e qual o Tarr de Sátántangó ou de Werckmeister Harmóniák distanciando-se no entanto no pormenor de ser a cores (e que cores!) ao invés do habitual preto e branco que pontua os seus filmes mais aclamados, mais concretamente a partir de Karhozat.
Béla Tarr
Actualmente, não há cineasta no mundo que se compare a Béla Tarr. Sendo muito relativo, na minha opinião é certamente o melhor cineasta em actividade. E hoje lembrei-me de rever “Werckmeister Harmóniák”, talvez depois de “Sátántangó” o melhor filme do húngaro. E as semelhanças entre estas duas obras de que falo são deveras abundantes. Não falo na arte de filmar de Tarr, pois essa está presente em todas as suas obras. Falo sim da moralidade da película, do tema das duas obras. E se em “Sátántangó” Tarr explorava o caos, a desolação humana, o delírio, o falso messias; aqui ele volta a explorar isso tudo. E, talvez, “Werckmeister Harmóniák” seja mais cruel que “Sátántangó”, talvez (é mesmo) seja mais violento que “Sátántangó”. Porque aqui procura levar o caos ao limite, procura aproximá-lo do ambiente apocalíptico, procura sobretudo levá-lo ao meio revolucionário e reaccionário em que aquela população se insere.
Já referi várias vezes por esta blogosfera fora que o que mais admiro em Spielberg é a sua qualidade na arte de filmar, a sua capacidade de filmar um filme de guerra como se estivéssemos lá dentro, a sua genialidade em filmar seja o que for. Mas Spielberg comparado com Béla Tarr não é ninguém. Tarr é genial, é completamente extraordinária a sua maneira de filmar, de nos mostrar seja o que for. A maneira como ele move a câmara, como a desliza em sintonia com o que estiver a filmar, os takes longos e pausados que nos descreve todo o cenário, o perfeccionismo do húngaro…de génio.
Vazio, o nada, corpos deambulando por uma Hungria decadente, apocalíptica e uma obsessão por uma mulher casada. Música, danças e mais danças, um preto e branco que mostra uma história sem esperança alguma, um homem que procura essa esperança e uma mulher que foge dela. O caos, a chuva, a arte de filmar de Béla Tarr, o fascínio de uma obra negra e incontrolável. “Karhozat” ou “Damnation” em inglês data de 1988 e é cinema que explode nos nossos olhos, é algo intransmissível para a compreensão do espectador, são planos correntes de corpos vazios numa normalidade incompreendida e de uma procura interior que nunca chega. O silêncio. O cinema na sua realidade.