20 de julho de 2009

Unagi - A Enguia (1997)

Um filme de Shohei Imamura




Shohei Imamura sempre foi um dos mais polémicos cineastas japoneses. Os anos 50 e 60 foram muito férteis na sua carreira cinematográfica, o que fez dele um dos mais iconoclastas cineastas do Japão. E com este “Unagi”, Imamura conseguiu arrecadar a sua segunda Palma de Ouro de Cannes em conjunto com “Ta'm e Guilass (O Sabor da Cereja) ” de Abbas Kiarostami.
Imamura traz-nos com este “Unagi” uma história de reabilitação. O filme abre com Takuro Yamashita (Koji Yakusho) lendo uma carta que o alerta para a traição da mulher. Essa traição ocorreria sempre que ele fosse pescar. Nessa noite decide voltar mais cedo para casa e confirma o que as cartas diziam. Possuído pelo ciúme mata a mulher e entrega-se na esquadra. Na prisão encontra uma enguia e faz dela o seu refúgio, o seu animal de estimação. Ao sair, com a ajuda do seu agente de liberdade condicional, abre uma barbearia afastada do grande centro urbano e tenta reorganizar a vida. Mas entretanto conhece Keiko (Misa Shimizu) quando esta tenta o suicídio. Keiko vai-lhe fazer lembrar a mulher quando começa a trabalhar na barbearia e a relação entre os dois começa a crescer.

E o filme é isto. O argumento move-se à volta de uma reabilitação social, mas estendesse para o ciúme, para o isolamento interior, para o amor, para o arrependimento, para uma analogia entre a enguia e a culpa. E Yamashita vai criar uma prisão em liberdade, porque embora esteja em liberdade está preso pela culpa, não que se arrependa de o ter feito, mas porque foi um crime e pesa-lhe na consciência. E isso vai-o fazer sentir-se preso, incapaz de demonstrar que ama, incapaz de se soltar interiormente, de matar os remorsos. E a enguia figura aqui como o crime, a culpa que Yamashita tenta partilhar com o animal, a inferioridade quer sexual, quer espiritual que ele tenta adquirir para com a enguia. E a cena em que Yamashita sonha em frente ao aquário vendo-se dentro lado a lado com a enguia, numa pequenez desproporcionada, mostra claramente que Yamashita se considera inferior à enguia. Mas o animal escolhido também não é ao acaso, um animal de água, de pele viscosa e escorregadia, de forma semelhante à de uma serpente e de carne muito saborosa. A enguia simboliza a sua frustração sexual. Porque embora tenha matado a mulher, Yamashita relaciona a traição a uma hipotética má prestação no acto sexual que cria aí uma frustração sexual. E Yamashita tenta se inferiorizar, tenta viver com a culpa, com o amor, com a confiança que tarda em aceitar novamente. Tenta reabilitar-se. Tenta viver.
“Unagi” é daqueles filmes que chegam quase a ser uma obra-prima. É um filme belo, muito belo.

Um grande filme.

2 comentários:

Ricardo disse...

Acredito que seja muito bom. Gostava de lhe pedir para utilizar uma das imagens que publicou para uma 'rúbrica' no meu blog, chamada Semelhanças (já agora, será para por lado a lado com esta http://giapet.net/wp-content/uploads/2008/05/ponyo.png do novo filme do Miyazaki)).

Obrigado

Álvaro Martins disse...

Acredita que sim.
Quanto à imagem, força. Depois quero ver as semelhanças :)

Abraços