Mostrar mensagens com a etiqueta Shohei Imamura. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Shohei Imamura. Mostrar todas as mensagens

2 de agosto de 2011

楢山節考 Narayama-bushi kô (1983)
Shohei Imamura

Remake dum filme de 1958 com o mesmo título realizado por Keisuke Kinoshita (que ainda não vi), A Balada de Narayama de Imamura é um filme negro, sombrio, primitivo. O plot segue uma velha de 70 anos que apesar de ainda saudável anseia e determina a sua ida para Narayma. Ora, Narayama é o monte onde todos os velhos daquela aldeia primitiva japonesa (num tempo indeterminado mas primitivo) vão morrer. Tradições, costumes e regras ou leis próprias àquele povo. Essa, a de aos setenta anos irem para Narayama morrer, é uma regra que é imposta ou que deve ser cumprida porque a aldeia é escassa em alimentos, porque com a exclusão desses sobra mais para os outros. O mesmo para crianças indesejadas ou para o excesso delas numa família. O castigo é severo para quem rouba e para quem não cumpre as regras daquela comunidade. Imamura filma o caos, a fome, filma a sobrevivência ou a luta por ela, os mitos e os ritos primitivos, a negrura do mundo, a ausência (ou quase) de dignidade, de amor, filma a desumanidade e a natureza, a austeridade dela, da vida e do mundo. No entanto, naquele final, naquele homem que tem voltar sem olhar para trás Imamura deposita ali todo o amor ausente neste grande filme.

20 de julho de 2009

Unagi - A Enguia (1997)

Um filme de Shohei Imamura




Shohei Imamura sempre foi um dos mais polémicos cineastas japoneses. Os anos 50 e 60 foram muito férteis na sua carreira cinematográfica, o que fez dele um dos mais iconoclastas cineastas do Japão. E com este “Unagi”, Imamura conseguiu arrecadar a sua segunda Palma de Ouro de Cannes em conjunto com “Ta'm e Guilass (O Sabor da Cereja) ” de Abbas Kiarostami.
Imamura traz-nos com este “Unagi” uma história de reabilitação. O filme abre com Takuro Yamashita (Koji Yakusho) lendo uma carta que o alerta para a traição da mulher. Essa traição ocorreria sempre que ele fosse pescar. Nessa noite decide voltar mais cedo para casa e confirma o que as cartas diziam. Possuído pelo ciúme mata a mulher e entrega-se na esquadra. Na prisão encontra uma enguia e faz dela o seu refúgio, o seu animal de estimação. Ao sair, com a ajuda do seu agente de liberdade condicional, abre uma barbearia afastada do grande centro urbano e tenta reorganizar a vida. Mas entretanto conhece Keiko (Misa Shimizu) quando esta tenta o suicídio. Keiko vai-lhe fazer lembrar a mulher quando começa a trabalhar na barbearia e a relação entre os dois começa a crescer.

E o filme é isto. O argumento move-se à volta de uma reabilitação social, mas estendesse para o ciúme, para o isolamento interior, para o amor, para o arrependimento, para uma analogia entre a enguia e a culpa. E Yamashita vai criar uma prisão em liberdade, porque embora esteja em liberdade está preso pela culpa, não que se arrependa de o ter feito, mas porque foi um crime e pesa-lhe na consciência. E isso vai-o fazer sentir-se preso, incapaz de demonstrar que ama, incapaz de se soltar interiormente, de matar os remorsos. E a enguia figura aqui como o crime, a culpa que Yamashita tenta partilhar com o animal, a inferioridade quer sexual, quer espiritual que ele tenta adquirir para com a enguia. E a cena em que Yamashita sonha em frente ao aquário vendo-se dentro lado a lado com a enguia, numa pequenez desproporcionada, mostra claramente que Yamashita se considera inferior à enguia. Mas o animal escolhido também não é ao acaso, um animal de água, de pele viscosa e escorregadia, de forma semelhante à de uma serpente e de carne muito saborosa. A enguia simboliza a sua frustração sexual. Porque embora tenha matado a mulher, Yamashita relaciona a traição a uma hipotética má prestação no acto sexual que cria aí uma frustração sexual. E Yamashita tenta se inferiorizar, tenta viver com a culpa, com o amor, com a confiança que tarda em aceitar novamente. Tenta reabilitar-se. Tenta viver.
“Unagi” é daqueles filmes que chegam quase a ser uma obra-prima. É um filme belo, muito belo.

Um grande filme.