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19 de janeiro de 2011

A Casa (1997)
Sharunas Bartas

"Mãe.
Mãe, muitas vezes eu quis falar contigo sobre tudo...mas nunca o fiz. Mas no meu interior, lá no fundo, eu falava contigo. Eu pude sentir e ouvir as tuas respostas. Mas cada vez que vinha aqui ouvir-te...eu não podia mais falar contigo.
Estou silencioso. Todas as palavras foram já faladas. Faladas interiormente. E todas as minhas questões...respondeste-as lá no fundo do meu interior. Antes disso sempre aconteceu assim. Quando estávamos afastados. Longe um do outro. Era assim que era antes. Como acontecia antes. E nunca mais voltará a acontecer. Não interessa quanto o queira...
O futuro. No futuro sou livre. Livre porque ainda não existe. Não compreendo o presente. O presente é tão efémero...não tenho a certeza que exista."



O primeiro plano d’ A Casa, um plano geral do exterior duma casa, fixo, é acompanhado por uma voz que lê uma carta à mãe (que se pode ler em cima). Aquela voz, a qual deve pertencer ao Francisco Nascimento (que protagoniza o filme), fala-nos de mágoa e duma certa incomunicabilidade entre os dois, de nostalgia. Há ali algo que acaba, por isso ele diz E nunca mais voltará a acontecer. Não interessa quanto o queira…, mas o que é esse algo? Aquilo que parece óbvio, e conhecendo um pouco da sua obra (falta-me ver o Seven Invisible Men, o Trys Dienos e o novo Indigène d'Eurasie), especulamos na pátria, na desolação da pátria, no trauma social que o desmembramento da URSS deixou. Ou seja, a mãe desta carta é a pátria, a sua Lituânia. E o que acabou foi a antiga pátria, a URSS. Deduzimos então que A Casa vem (à imagem de tudo aquilo que já fez e com especial similaridade com O Corredor, particularmente no espaço (quase na totalidade interior) e nas pessoas que traduzem essa desolação socioeconómica da Lituânia com aquele vaguear pelos compartimentos da casa, aqui, e na fábrica, no Koridorius) criar metáforas do caos e da desolação da sua pátria resultante do fim da União Soviética.

O que vem a seguir é o tédio, a desolação. Aquela casa, uma mansão antiga, aristocrata, passa a ser o filme. Tudo o que Bartas filma é lá dentro (até ao final em que volta ao exterior (noutro ângulo primeiro e frontalmente depois) para filmar a chegada do exército, o fim da pátria (sim porque ele sente-se soviético), a chegada do caos, e para acabar de ler a carta). Aí, vagueando pelos compartimentos daquela casa, observando pessoas e animais que vagueiam por ali, desoladas, mergulhadas no tédio e na apatia do caos, acompanhamos um homem (o actor português). Não sabemos donde vem nem quem é, não há diálogos, as únicas palavras que ouvimos são as da carta (no principio e no fim), não sabemos quem são aquelas pessoas que pouco a pouco vão aparecendo. E começamos a desconfiar que aquela casa é mais uma metáfora da pátria, são memórias da voz que lê a carta. Porque faz sentido, porque tudo indica assim (os olhares, a desolação daquela gente (donde vem aquela gente? Quem são?), a procura do grotesco, do feio e do belo, do velho e do novo, a tentativa dessa antítese que traz a conotação política, as expressões, o tédio e a resignação do caos, o exército no final, a morte do negro (a morte do comunismo talvez), a carta que fala de algo que nunca voltará por muito que se queira). E, portanto, se aquela casa simboliza a pátria perdida, é inevitável que não se compreendam todos aqueles ritos enigmáticos a que assistimos durante quase duas horas como a alienação e a depressão da instabilidade socioeconómica do país. Por isso o vaguear sem rumo, como que perdidos naquele espaço. Isto é cinema para pouca gente, para quem ama o cinema.

21 de novembro de 2010

Freedom (2000)













Bartas, o cineasta da desolação. Nada mais verdadeiro há que isto.
Freedom, filme da terra e do mar, filme sem mácula e sem fé. Filme do desespero. Filme da tragédia, filme do caminho para a morte.

É tudo tão cru e tão rude em Bartas, tudo tão fora da boniteza do cinema de Hollywood e tão dentro da crueza da vida. Sim, Bartas o cineasta da desolação, da secura e dos planos fixos. Bartas, o cineasta político, pessimista e destrutivo. Cineasta sem fé e sem esperança. Freedom (como Koridorius ou Few of Us) é cinema de silêncios, de expressões, de olhares, de contemplações cruas. Cinema de movimentos humanos e de sons da natureza, de ocultações. Nada se explica, tudo se revela. Nada se conta mas tudo se mostra.

Freedom, porque a liberdade é tudo (mas tem o seu preço). Três homens e uma mulher chegam à costa (presume-se africana). Um deles morre na chegada (ferido pela guarda costeira). Do trio que fica, os dois homens separam-se e a mulher tem de seguir um dos homens. Imigrantes ilegais? Do que fogem? Não há explicações. Mas sabe-se à partida que fogem em busca de algo melhor, fogem da repressão, buscam a liberdade. Por isso, explicar do que fogem é irrelevante. Basta saber que fogem de algo. O que interessa é a partir daquele momento, da chegada à costa. O que importa é descobrir se alcançam o que procuram.

Freedom caminha para uma epifania utópica, para a morte irremediável que assombra aquelas três pessoas. O destino inevitável de quem procura incessantemente sobreviver perdido naquele deserto à beira da costa marítima, no calor desmesurado que lhe abafa a respiração, na busca de alimentos, água e de um abrigo. Tão simples quanto isso.

Mas Freedom é muito mais que um filme de sobrevivência (ou da tentativa desta) de três pessoas. Freedom é a repercussão da desolação do desmembramento da União Soviética, é sobre as consequências do que ficou. É sobre a mentalidade da Europa de Leste. Flagelo do povo, caminho tortuoso da desolação que ficou. A ausência de diálogos (ou quase ausência) espelha o estado do povo de leste, metáfora irrisória da espera (de uma vida melhor, do desenvolvimento, da prosperidade). O que fica é a natureza. O que fica é a vida, força intrínseca da natureza. Por isso a sobrevivência, instinto natural do homem.

Freedom, filme de um sentido inóspito, filme do nada, da espera pelo destino. Carrega a vida no caminho da morte. Perdição frontal e estática do que é humano, controlo poético do desespero, exemplo maior da crueza da remissão. Freedom, filme da solidão, filme da liberdade (ou da angústia de a alcançar), da metáfora e do Ser. Tudo a que Bartas remete transpira apatia e resignação. Resignação do ser humano, da sobrevivência, desolação do recomeço, morte invariável do ser humano, mais importante, da sociedade. A espera e o silêncio. O caos.

Bartas o poeta, Bartas o cineasta da natureza, dos sons, da humildade, dos planos distantes e fixos, da profundidade de campo, dos enquadramentos, do minimalismo. Tão próprio (não há outro como Bartas) quanto influenciado (Bresson, Tarkovsky, Tarr, Sokurov, Godard). Bartas, singular entre os singulares, cinema que caminha por entre as ramificações do que ficou, crise existencial das memórias, fantasmas do pós-comunismo, azedume da natureza humana.

Sim, Bartas o político, o cineasta da desolação. Bartas o cineasta.

29 de junho de 2009

Praéjusios Dienos Atminimui (1990)

Um filme de Sharunas Bartas










Sempre me pareceu que antes de Bartas querer fazer cinema, ele quer denunciar o subdesenvolvimento do país, o que ficou do pós URSS. E "Praéjusios Dienos Atminimui" é isso tudo, esse cinema cru e rude de Bartas, esse cinema poético, realista e anti-fictício do lituâno que acima de tudo se preocupa e se direcciona para essa vertente sociopolítica do seu país. E "Praéjusios Dienos Atminimui" traz religião, traz a fé como fenómeno social de um país em plena miséria.

11 de maio de 2009

Few of Us (1996)

Um filme de Sharunas Bartas

Entramos no mundo intrigante de Sharunas Bartas, no cinema estático dum cineasta que não se preocupa com diálogos, que os evita, que procura fazer transparecer emoções pela imagem, pelo som, pela linguagem corporal. Num cinema cru, rude, estático e introspectivo, Bartas filma uma árida zona fronteiriça da Sibéria onde Yekaterina Golubeva, actriz fetiche de Bartas, é largada por um helicóptero e colhida por um tanque. A partir daqui tudo se mistura, nada se distingue. Bartas faz um filme completamente enigmático, abstracto. “Few of Us” vive desse enigma, dessa forma peculiar de Bartas fazer cinema, da lucidez com que Yekaterina vagueia por uma região que aparenta viver num primitivismo extremo, isolada numa cultura que não é a sua, colmatada com um acto de violência que a faz fugir daquela região ou aldeia e continuar a vaguear. De facto, não há explicações no cinema de Bartas, na forma como conduz a obra. O lituano procura sobretudo exprimir as emoções do actor/personagem. Ele não se mostra interessado em fazer uma história linear, em contar uma história com princípio, meio e fim. Não, Bartas quer espremer sensações, pensamentos e emoções escondidos nos olhares, nas acções, no ambiente, nos ruídos, na natureza. Ele não se preocupa nem nos pretende explicar o porquê dela vaguear por ali, não há razão para tal, simplesmente vagueia. Somos confrontados com o seu percurso e é isso que nos interessa, a sua jornada naquela aldeia, naquela cultura primitiva e agressiva que a faz vaguear ainda mais. Não precisamos saber mais. E é isso que Sharunas Bartas nos mostra, esse percurso que retracta uma ambiguidade moral e uma desolação humana numa terra de ninguém sempre de forma estática, rude e peculiar que só ele alcança.

26 de abril de 2009

The Corridor / Koridorius (1994)

Um filme de Sharunas Bartas





Sharunas Bartas é o cineasta mais peculiar que conheço. O seu cinema é estranho, difícil, rude, estático. Se Lynch não se preocupa em explicar o porquê das coisas, Bartas procura complicar ainda mais uma suposta elucidação. “The Corridor” não tem explicação, o filme é uma sucessão de imagens de um quotidiano bizarro naquilo que parece ser o que outrora foi uma fábrica e que devido a uma crise financeira e social está ocupada por várias pessoas que à partida não fazem nada. A ideia que o filme me transmite é que Bartas faz uma crítica sociocultural de uma Lituânia pós-soviética em que mergulhou numa fragilidade e depressão económica e social. “The Corridor” parece-me ser uma metáfora dessa desolação, dessa ideologia, dessa falta de identidade que o fim da URSS deixou. A semelhança com Tarr é irrefutável, embora o cinema de Bartas seja mais estático e onde abundam mais tempos mortos. Bartas filma uma “festa” numa cozinha onde os personagens se embebedam e dançam lembrando a cena de Tarr no seu “Sátántangó”. E tanto no filme de Tarr como no de Bartas penso que se define como o delírio duma sociedade perdida, desolada, depressiva e fragilizada. Diálogos, não há. Imagem é a preto e branco. Argumento está escondido nas expressões dos personagens. Nomes, não são precisos. Ou seja, simples e sem muitos artefactos, “The Corridor” é um filme em que são necessárias várias visualizações para o compreender. E mesmo assim…!

16 de fevereiro de 2009

Sharunas Bartas

Praejusios Dienos Atminimui - Im Memory of the Day Passed By (1990)






Trys Dienos - Três Dias (1991)





Koridorius - O Corredor (1994)






Few Of Us (1996)





A Casa (1997)





Freedom (2000)





Seven Invisible Men (2005)