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9 de agosto de 2010

Såsom i en Spegel - Através De Um Espelho (1961)




A que se remete um filme no qual do início ao fim se fala de uma doença sem se a identificar? De que obscurantismo tão presente e tão enérgico se faz Såsom i en Spegel?
Labirinto de perturbações, rito de loucura afável que oscila entre o real e o imaginário. Doença sem nome que projecta os fantasmas não só de Karin (espantosa Harriet Andersson) como os de todos os personagens. A Karin se revele toda a “face negra” de Såsom i en Spegel, objecto obscuro da mente humana, fantasma dos seus fantasmas. Caminhos tenebrosos pelos quais Bergman percorre Såsom i en Spegel. Estudo da loucura e da fé. Através De Um Espelho é uma obra marcante, filme de ápices na sua melancolia, na procura da verdade (ou direi antes realidade). Reflexão psicológica ou psiquiátrica de Bergman (à qual muito se inclinou na década de 60). Enquadramentos e sombras de uma beleza e perfeição só alcançável pelos “grandes”. Obra-prima.

2 de julho de 2010

Sommaren Med Monika - Mónica e o Desejo (1953)








‘It’s close to my heart and one of my films I’m always happy to see again.’ Ingmar Bergman (Bergman on Bergman)

"The film every director ought to make when he's twenty." François Truffaut (Letters)

“Monika was a forerunner of And God Created Woman, but done perfectly. And the final scene of Nights of Cabiria, with Giulietta Masina staring blindly into the camera: have we forgotten that it was right there in the next-to-last scene of Monika?” Jean-Luc Godard (quoted in Ingmar Bergman, An Artist’s Journey)



Acima de tudo, Mónica e o Desejo é um filme sobre o amor passageiro, sobre a liberdade jovial. Quando o inevitável chega, Mónica diz a Harry Quero me divertir enquanto sou jovem. E é isso que Mónica e o Desejo reclama, esse desejo de se divertir/amar enquanto pode. Para Mónica, o amor muda de estação para estação. Harry foi um amor de Verão, amor que durou enquanto a liberdade foi completa, enquanto houve a tal diversão, enquanto os dois vaguearam naquele barco pelo mar. Chegam as responsabilidades e acaba a diversão, acaba a permanente atenção de Harry em Mónica. Acaba o amor de Mónica. De certa forma, Bergman caracteriza a Mulher (na sua juventude), atribui-lhe a sua natureza libertina, ao contrário do Homem. Sommaren Med Monika é filme sobre a natureza da Mulher, da sua juventude. E o enquadramento da câmara, os grandes planos de Bergman, assombroso.


27 de junho de 2010

Vargtimmen - A Hora do Lobo (1968)







Vargtimmen ou A Hora do Lobo é, talvez, o filme mais psicótico e enigmático de Bergman (mais que Persona até). Porque em Vargtimmen nunca sabemos se o que estamos a ver é a realidade ou os medos e os fantasmas de Alma ou de Johan. E mais importante é, se a aceitarmos, não saber quando tem início a alucinação de Johan. David Lynch a Vargtimmen muito deve para a construção material dos seus filmes mais enigmáticos (Eraserhead, Mulholland Dr., Inland Empire), nomeadamente na forma como define o seu cinema na qual nunca procura dar respostas mas sim perguntas. E Vargtimmen é assolado desde o início com perguntas às quais nunca chegamos a conhecer as respostas, a não ser as que vamos conseguindo formular ao longo do filme. Um sonho? Imaginação? E aquele diário, existe mesmo? E se existe, quem afinal o escreveu? Johan ou terá sido Alma? E qual deles será o fantasma do outro, assim como os fantasmas daquele castelo?

Em Vargtimmen tudo se materializa. Se a sanidade mental de Johan se perde nalgum momento (se não quisermos aceitar que vem do início do filme) dá-se em dois momentos, na cena onde Johan fala da hora do lobo a Alma somente iluminado por um fósforo e na cena da morte do garoto. São esses os momentos em que Johan entra em colapso mental com os seus fantasmas e a alucinação começa. Mas podemos também considerar o momento em que Alma lê pela primeira vez o diário, e, aí teremos de afastar Johan (o Johan pós leitura do diário) como insano e julgá-lo como irreal, como fruto da imaginação de Alma. Porque ao ler sobre Veronica Vogler, Alma descobre algo que até aí desconhecia sobre o passado de Johan. E se virmos bem, tudo se resume a Veronica Vogler e à relação que outrora teve com Johan. Portanto, a partir desse momento podemos ter aí o começo da alucinação (ou talvez de um sonho) mas de Alma, causada pelo ciúme.

Vargtimmen é um filme muito complexo, é filme de sombras e de obscuridades. Intenso e traumático. É uma viagem alucinante e abismal pelos caminhos turtuosos e obscuros da mente de Johan (ou será de Alma?). Vargtimmen só não é a grande obra-prima de Bergman porque um dia fez Persona.

1 de julho de 2009

Smultronstället (1957)

Um filme de Ingmar Bergman






















Bergman foi aquele que mais deu ao cinema, aquele que mais explorou os medos do ser humano, foi aquele que mais tentou reflectir na vida e na morte. E “Smultronstället” (Morangos Silvestres) é um dos seus filmes que mais reflecte na morte, nas memórias da infância, na velhice, no medo da morte, no arrependimento, nas relações humanas, na afectividade. E Victor Sjöström brilhante.