16 de agosto de 2026






 2021, Ras vkhedavt, rodesac cas vukurebt?, Alexandre Koberidze



| vive l'amour |


o mais interessante neste lírico e romanesco conto georgiano, prende-se com a sua linguagem cinematográfica e narrativa; o ritmo impresso pelo cineasta, bem como a atenção ao detalhe, fazem de o que vemos quando olhamos para o céu? um exercício belíssimo sobre o amor e o destino

14 de agosto de 2026


 

a registar:


2022, Red Shoes, Carlos Eichelmann Kaiser 
1956, Fedra, Manuel Mur Oti 
1962, Vie privée, Louis Malle
2021, Lili Alone, Jing Zou
1967, Jaguar, Jean Rouch
1947, Ivy, Sam Wood
2019, 61. La verdad interior, James Benning & Sofía Brito
1937, Gribouille, Marc Allégret
2025, O último azul, Gabriel Mascaro
2025, Leibniz: Chronik eines verschollenen Bildes, Edgar Reitz & Anatol Schuster
1964, Zhivye i myortvye, Aleksandr Stolper
1987, Yam Daabo, Idrissa Ouedraogo
1970, Petit à petit, Jean Rouch
2025, O agente secreto, Kleber Mendonça Filho
1941, Manpower, Raoul Walsh
1983, Hakkari'de Bir Mevsim, Erden Kiral
2025, Sawt Hind Rajab, Kaouther Ben Hania
1953, Vozvrashchenie Vasiliya Bortnikova, Vsevolod Pudovkin
1985, La messa è finita, Nanni Moretti
2025, Zwei Staatsanwälte, Sergei Loznitsa
2025, In die Sonne schauen, Mascha Schilinski
2025, Resurrection, Bi Gan
2025, Father Mother Sister Brother, Jim Jarmusch
2024, Gokogu no Neko, Kazuhiro Sôda
2025, Magalhães, Lav Diaz
2025, Ghost Elephants, Werner Herzog
1975, India Song, Marguerite Duras
2024, Génesis, José Oliveira e Marta Ramos
2025, L'étranger, François Ozon
1992, Lektionen in Finsternis, Werner Herzog
1987, Ruda Feya, Volodymyr Kovalenko
2021, Freda, Gessica Geneus
1987, 84 charing cross road, David Hugh Jones
2025, Mektoub, my love: Canto Due, Abdellatif Kechiche
2025, Pod elektricheskimi oblakami, Aleksey German Jr.
2025, Secret of a mountain serpent, Nidhi Saxena
1963, Los días perdidos, Victor Erice
2003, Pas de repos pour les Braves, Alain Guiraudie
2011, La piel que habito, Pedro Almodóvar
1984, Love Streams, John Cassavetes
1976, The Killing of a Chinese Bookie, John Cassavetes
1980, Gloria, John Cassavetes
2008, La belle personne, Christophe Honoré
1976, Midway, Jack Smight
1969, Bitka na Neretvi, Veljko Bulajic
1980, Salto nel vuoto, Marco Bellocchio
1971, Nel nome del padre, Marco Bellocchio
1984, Vengeance is mine, Michael Roemer
1984, La garce, Christine Pascal
1975, Keetje Tippel, Paul Verhoeven
1984, The blood of others, Claude Chabrol
2025, Laguna, Sharunas Bartas
1958, El pisito, Marco Ferreri
2014, Hui guang zou ming qu, Hsiang Chienn
1936, Le crime de Monsieur Lange, Jean Renoir
1996, Original Gangstas, Larry Cohen & Fred Williamson
1968, Il giorno della civetta, Damiano Damiani
1939, Confessions of a nazi spy, Anatole Litvak
2024, Xining guozhai, Tsai Ming-Liang




revisões:


1940, The Grapes of Wrath, John Ford
1992, Zendegi va digar hich, Abbas Kiarostami
1994, Zire darakhatan zeyton, Abbas Kiarostami

17 de junho de 2026

Laguna (2025, Sharunas Bartas) 

| elegia fúnebre |

provavelmente o filme mais bonito que iremos ver este ano; bartas celebra a vida celebrando a morte, e laguna corre, na contemplação da vida, da natura, corre para a sua celebração (da vida), numa viagem interior que procura aceitação e compreensão, no luto que procura extirpar a dor; laguna é belíssimo

5 de maio de 2026


 Secret of a Mountain Serpent (Nidhi Saxena, 2025)


as minhas impressões sobre o filme aqui

30 de abril de 2026

Pod elektricheskimi oblakami (2025, Aleksey German Jr.)
| melancolia apocalíptica (and the infinite sadness) |

16 de abril de 2026

 Freda (2021, Gessica Geneus)


poderosíssimo este freda, filme onde os ecos do colonialismo e do capitalismo reverberam sobre a tela para nos mostrar a miserabilidade que esse poder vigente deixa num país; freda é uma descida ao orco (que se nos apresenta logo naquele inicio que nos conta que houve uma violação), um passeio pela miserabilidade de um haiti corrupto, podre e a braços com convulsões sociais; há em freda, nessa sua génese política que conduz toda a narrativa, um factor subversivo que reclama consciência social e política, pois é na miserabilidade daquela gente que esses ecos coloniais ainda vivem; sóbrio, freda é filme que evita histerismos, facilitismos e sensacionalismo, assim como consegue, ainda que imerso nessa característica política que emerge do seu âmago, não ser um panfleto político; ora, na sua dramatização e na renúncia ao romantismo, freda fala-nos da desumanização daquela gente que culmina naquele final onde mãe e filha espelham a resignação e a descrença humana, da letargia recorrente disso tudo, das escolhas daquelas (e daqueles) jovens que abdicam dos sonhos para sobreviver; em suma, freda é um grande filme.

4 de abril de 2026

 



| carta ao filho |


Génesis (2024, José Oliveira e Marta Ramos)



o último filme do josé oliveira e da marta ramos é coisa elegíaca, oscila entre a ficção e o documental para falar de raízes, de antropologia, geologia, etnografia, etc, culminando nas memórias e naquilo que será a passagem de testemunho ao filho; coisa autobiográfica, pareceu-me, génesis (e o título não é em vão assim escolhido) carrega consigo um sentido humanístico que o faz, aliado aos planos panorâmicos que assombram o espectador, ser um tipo de herdeiro do cinema fordiano; de facto, toda essa paisagem nos mostra as fundações do cinema desta dupla, fundações westernianas não só de ford mas também de cimino; não é à toa que o sentido humanístico se vai exponenciar na sua veia documental, com o episódio dos refugiados ucranianos à cabeça; mas o filme da dupla portuguesa que nos faz rememorar reis e cordeiro ou straub e huillet, é, dentro dessa carta elegíaca ao filho - no começo ainda no ventre da mãe para no fim estar nos braços do pai -, uma viagem genesíaca e mitológica pelas terras (e serras) do fundão que analisa não só o passado como o presente e nos deixa as perguntas sobre o futuro, não só relativamente à tecnologia que avança vertiginosamente mas também quanto às nossas raízes e matrizes fundacionais, aos valores que são necessários cultivar e cujas novas gerações tendem a esquecer; belíssimo filme!

30 de março de 2026


India Song (1975, Marguerite Duras)

 

“Tant qu’une image est vivante, tant qu’elle a de l’impact (idéologiquement dangereuse ou utile), tant qu’elle interpelle un public, tant qu’elle lui fait plaisir, cela signifie que fonctionne dans cette image, autour d’elle, derrière elle, quelque chose qui est du domaine de rénonciation (pouvoir + événement = « Voici »). Admirable à cet égard est le dernier film de M. Duras (India Song) qui nous donne à saisir (à entendre) d’où vient ce qui nous donne les images.”
Serge Daney

23 de março de 2026

 

2025, Magalhães, Lav Diaz 



magalhães, e o cinema de diaz é sempre espelhado pela lentidão dos seus movimentos e pela sua sonoridade abrasadora, é coisa tão erosiva quanto a sua sentença mitológica que prevalece no final; é na visceralidade dos seus primitivismos, tanto dos colonizadores como dos colonizados, que diaz promove uma espécie de pathos (tendo o seu pico na relação amorosa de magalhães) para combater um logos que tem a sua suprema expresividade naquele final mitológico e sentenciador; ora, magalhães é esse duelo conflituoso entre dois conceitos, filmado e sonorizado magistralmente como diaz já nos habituou

18 de março de 2026

 



"E os grandes proprietários, que têm de perder as suas terras na primeira transformação, os grandes proprietários que estudam a História, que têm olhos para ler a História, deviam conhecer este grande facto: a propriedade, quando acumulada, em muito poucas mãos, há-de vir a ser espoliada. E também este outro facto paralelo: quando uma maioria passa frio e fome, tomará à força aquilo que necessita. E também o facto gritante, que ecoa por toda a História: a repressão só conduz ao fortalecimento e união de todos os oprimidos. Os poderosos proprietários ignoram os três gritos da História." 


(...)


"O povo vem com redes para pescar as batatas no rio, e os guardas impedem-no. Os homens vêm nos carros ruidosos apanhar as laranjas caídas no chão, mas as laranjas estão untadas de querosene. E ficam imóveis, vendo as batatas passarem flutuando; ouvem os gritos dos porcos abatidos num fosso e cobertos de cal viva; contemplam as montanhas de laranjas, rolando num lodaçal putrefacto. Nos olhos dos homens reflecte-se o malogro. Nos olhos dos esfaimados cresce a ira. Na alma do povo, as vinhas da ira crescem e espraiam-se pesadamente, pesadamente amadurecendo para a vindima." 


'As Vinhas da Ira', John Steinbeck




The Grapes of Wrath (1940, John Ford)

revisto mais uma vez há dias, a obra-prima de ford (uma delas), embora a certa altura omita capítulos do livro e não respeite a sua linearidade, é um portento de filme onde a negrura e a luminosidade das sombras que assombram o homem são tão imensas quanto a imensidão que elas abundam nas páginas do livro; e essa escuridão, que ford explora tão magistralmente quanto steinbeck, vem de dentro da alma daqueles seres espoliados e forçados a procurar a sobrevivência na migração, vem de dentro da alma daqueles que compõem aquela sociedade injusta e preconceita que steinbeck nos revelou nesta obra tão poderosa quanto magnânima, vem de dentro daqueles que (tal como hoje ainda acontece) se aproveitam da desgraça e miserabilidade alheia... mas a luz que existe (e até nas sombras ela existe, à imagem da tradição nipónica) vem de dentro da alma da mãe, da matriarca joad que é uma verdadeira força da natureza, o pilar daquela família, porque é ela que carrega aquele mundo joad às costas, é ela que mantém o ritmo, que conduz o arado, é ela a força viva dos joad... tal como o livro de steinbeck, o filme de ford é monumental  

12 de março de 2026

 



o novo jarmusch é maravilhoso, consegue estourar na tela com toda a sua magnitude melancólica e apaziguadora numa análise brutal do distanciamento familiar; ali, a frieza das relações familiares espelha esse distanciamento que aliena o individuo no seu alheamento de vínculos afectivos e emocionais; jarmusch é perfeito na forma como analisa isso, digamos que jarmuschianamente, preenchendo o filme com os seus silêncios inquietantes e desconfortáveis, maravilhoso! 

2025, Father Mother Sister Brother, Jim Jarmusch

9 de março de 2026

do melhor para o pior...

 


Zwei Staatsanwälte (2025, Sergei Loznitsa)
In die Sonne schauen (2025, Mascha Schilinski)
Resurrection (2025, Bi Gan)

20 de fevereiro de 2026



 2025, Sawt Hind Rajab, Kaouther Ben Hania 


a voz de hind rajab tem a destreza de usar essa voz que nos entra pela tela como um objecto lancinante que nos atinge bem dentro do estômago e nos deixa, pelo menos, desconfortáveis, como objecto do real que nunca deixa o ficcional ganhar raízes; assim, no desespero da impossibilidade que cria a tensão que nos angustia e nos prende à vã tentativa de salvar hind, a cineasta usa essa voz como constante lembrança de que o real está lá, sempre - e que culmina naqueles momentos finais em que as imagens reais naquele ecrã de telemóvel se sobrepõem às imagens ficcionais como que, comparando-as e nunca nos deixando esquecer desse real - real esse que, ao invés de apenas se misturar com o ficcional, ultrapassa-o


Oh crianças malcriadas de Gaza.
Vocês que me perturbavam o tempo todo
com seus gritos debaixo da minha janela.
Vocês que enchiam de caos e correria
todas as minhas manhãs.
Vocês que quebraram meu vaso
e roubaram a flor solitária em minha varanda.
Voltem,
e gritem o quanto quiserem
e quebrem todos os vasos.
Roubem todas as flores.
Voltem.
Apenas voltem.

'Oh crianças malcriadas de Gaza', Khaled Juma
















Hakkari'de Bir Mevsim (1983, Erden Kiral)


a season in hakkari é daquelas pérolas cinematográficas que nos deixam maravilhados; filme que nasce dum objecto político, o exílio do professor para o kurdistão turco, não sabemos o motivo do exílio, nem interessa, pois o que interessa é o elo de ligação que se vai estabelecendo com aquela gente e em especial com as crianças, e nisso kiral consegue evitar lugares-comuns, sensacionalismos, sentimentalismos bacocos e desmesurados, etc; na sua veia introspectiva, o filme usa a voz-off mais como uma transmissão dos pensamentos (coisa tarkovskyana, malickiana, etc) do que como narração dos acontecimentos; de resto, hakkari'de bir mevsim caminha por um realismo social que nunca deixa esquecer as dificuldades e o isolamento daquela região e daquelas pessoas; belíssimo!















Manpower (1941, Raoul Walsh)
| a tragédia da candura |



em manpower, walsh faz algo que deambula entre o melodrama, a comédia e o noir, assim como a personagem de dietrich é uma femme fatale que o rejeita ser (ou foge de o ser); no entanto, entre a candura e a fanfarronice, manpower é um filme sobre a amizade

7 de fevereiro de 2026


1987, Yam Daabo, Idrissa Ouedraogo 



  | rejeição e obstinação | 


em a escolha, ouedraogo serve-se dos ritos e do primitivismo para analisar o ser humano em si; se é no rudimentar que ouedraogo caminha, fá-lo na intenção de exponenciar o ser humano nos seus principios e nas relações entre si, ou seja, se o primitivismo a uns se acentua, a outros se emiscui; é por isso que yam daabo, na sua mais que competente mise-en-scène, se reveste de simplicidade para nos contar uma história de amor, de rejeição e de obstinação que determina o destino daquela gente; maravilhoso

31 de janeiro de 2026