20 de fevereiro de 2026



 2025, Sawt Hind Rajab, Kaouther Ben Hania 


a voz de hind rajab tem a destreza de usar essa voz que nos entra pela tela como um objecto lancinante que nos atinge bem dentro do estômago e nos deixa, pelo menos, desconfortáveis, como objecto do real que nunca deixa o ficcional ganhar raízes; assim, no desespero da impossibilidade que cria a tensão que nos angustia e nos prende à vã tentativa de salvar hind, a cineasta usa essa voz como constante lembrança de que o real está lá, sempre - e que culmina naqueles momentos finais em que as imagens reais naquele ecrã de telemóvel se sobrepõem às imagens ficcionais como que, comparando-as e nunca nos deixando esquecer desse real - real esse que, ao invés de apenas se misturar com o ficcional, ultrapassa-o


Oh crianças malcriadas de Gaza.
Vocês que me perturbavam o tempo todo
com seus gritos debaixo da minha janela.
Vocês que enchiam de caos e correria
todas as minhas manhãs.
Vocês que quebraram meu vaso
e roubaram a flor solitária em minha varanda.
Voltem,
e gritem o quanto quiserem
e quebrem todos os vasos.
Roubem todas as flores.
Voltem.
Apenas voltem.

'Oh crianças malcriadas de Gaza', Khaled Juma
















Hakkari'de Bir Mevsim (1983, Erden Kiral)


a season in hakkari é daquelas pérolas cinematográficas que nos deixam maravilhados; filme que nasce dum objecto político, o exílio do professor para o kurdistão turco, não sabemos o motivo do exílio, nem interessa, pois o que interessa é o elo de ligação que se vai estabelecendo com aquela gente e em especial com as crianças, e nisso kiral consegue evitar lugares-comuns, sensacionalismos, sentimentalismos bacocos e desmesurados, etc; na sua veia introspectiva, o filme usa a voz-off mais como uma transmissão dos pensamentos (coisa tarkovskyana, malickiana, etc) do que como narração dos acontecimentos; de resto, hakkari'de bir mevsim caminha por um realismo social que nunca deixa esquecer as dificuldades e o isolamento daquela região e daquelas pessoas; belíssimo!















Manpower (1941, Raoul Walsh)
| a tragédia da candura |



em manpower, walsh faz algo que deambula entre o melodrama, a comédia e o noir, assim como a personagem de dietrich é uma femme fatale que o rejeita ser (ou foge de o ser); no entanto, entre a candura e a fanfarronice, manpower é um filme sobre a amizade

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