(...)
"O povo vem com redes para pescar as batatas no rio, e os guardas impedem-no. Os homens vêm nos carros ruidosos apanhar as laranjas caídas no chão, mas as laranjas estão untadas de querosene. E ficam imóveis, vendo as batatas passarem flutuando; ouvem os gritos dos porcos abatidos num fosso e cobertos de cal viva; contemplam as montanhas de laranjas, rolando num lodaçal putrefacto. Nos olhos dos homens reflecte-se o malogro. Nos olhos dos esfaimados cresce a ira. Na alma do povo, as vinhas da ira crescem e espraiam-se pesadamente, pesadamente amadurecendo para a vindima."
revisto mais uma vez há dias, a obra-prima de ford (uma delas), embora a certa altura omita capítulos do livro e não respeite a sua linearidade, é um portento de filme onde a negrura e a luminosidade das sombras que assombram o homem são tão imensas quanto a imensidão que elas abundam nas páginas do livro; e essa escuridão, que ford explora tão magistralmente quanto steinbeck, vem de dentro da alma daqueles seres espoliados e forçados a procurar a sobrevivência na migração, vem de dentro da alma daqueles que compõem aquela sociedade injusta e preconceita que steinbeck nos revelou nesta obra tão poderosa quanto magnânima, vem de dentro daqueles que (tal como hoje ainda acontece) se aproveitam da desgraça e miserabilidade alheia... mas a luz que existe (e até nas sombras ela existe, à imagem da tradição nipónica) vem de dentro da alma da mãe, da matriarca joad que é uma verdadeira força da natureza, o pilar daquela família, porque é ela que carrega aquele mundo joad às costas, é ela que mantém o ritmo, que conduz o arado, é ela a força viva dos joad... tal como o livro de steinbeck, o filme de ford é monumental

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