1 de outubro de 2023

 






Se Fritz Lang fez quatro filmes que podem ser abrangidos pelo subtítulo “filmes anti-nazis”, em dois deles (Ministry of Fear e Cloak and Dagger) o anti-nazismo é, um pouco, o macguffin de Hitchcock: o essencial dessas obras (essenciais) não está nessa etiqueta. Estará em Man Hunt? A questão não é pacifica, mas não é para ser abordada hoje.

E quanto a Hangmen Also Die? Aqui, o caso é francamente mais complexo, até pela própria génese da obra e do que nela pode ser atribuído a Lang, a Bertolt Brecht ou ao poeta e dramaturgo comunista John Wexley, o único a figurar no genérico como argumentista.

Lang disse que 90% do argumento do filme se devia a Brecht e citou expressamente certas passagens (o diálogo entre o Professor e o poeta antes da execução deste - “porque é que matam as pessoas de madrugada, e não ao crepúsculo” - a carta do Professor ao filho - “real freedom is fighting for freedom. And you must remember me - not because I’ve been your father, but because I died in this great fight” - ditada na cela a Mascha). Citou também - e talvez seja a marca mais distintiva do estilo de Brecht - a sequência em que o Professor explica à filha porque é que, na clandestinidade e na guerra, ninguém pode dizer nada a ninguém. “Se disseres a A, A pode dizer a B, B pode dizer a C e assim sucessivamente. E quando chegar a F e F disser a G, G quer dizer Gestapo”. “Mais ninguém neste mundo e, com certeza, nunca Wexley, podia ter escrito essa cena”, disse Lang.

Mas sabe-se que Brecht guardou amargas recordações desta experiência e considerou que as suas intenções tinham sido traídas por Lang. Para o essencial dessa questão remeto para o livro de Lotte Eisner sobre Fritz Lang mas saliento dois aspectos fundamentais. Brecht achava que Lang tinha elidido a participação operária na Resistência (os resistentes do filme são todos burgueses, como burguesas são as resistentes). Brecht achava que Lang estava mais interessado nas surpresas do que nas tensões e ficava furioso de cada vez que Lang lhe dizia que o público não ia aceitar isto e ia aceitar aquilo (para além de secundárias questões como a do título, que Brecht queria que fosse Trust the People ou Never Surrender).

A primeira questão é extremamente curiosa, porque de facto a resistência operária é o tema da primeira sequência do filme (a única em que Heydrich intervém). A cólera de Heydrich é contra os operários da Skoda (os panfletos com as tartarugas). Quando vemos pela primeira vez Svoboda, o assassino de Heydrich (médico que se faz passar por arquitecto), este vem disfarçado de operário e “desmascara-se” num plano rapidíssimo. Muito mais tarde, no filme, o nazi Gruber (o personagem mais profundamente maléfico e, curiosamente, despido dos sinais visíveis da imagética nazi - tem-se notado que a sua caracterização mais parece provir de M ou do Testament des Dr. Mabuse) prefere cerveja ao vinho escolhido pelos resistentes, notando-lhes ironicamente, que a cerveja é a bebida mais popular (só que é o vinho atirado por Svoboda para disfarçar a mancha de sangue que salva os resistentes, apagando um sinal comprometedor). Se o povo está ao lado da Resistência está-o como pano de fundo, surgindo como organização (admirável sequência tipicamente languiana em que todos se juntam para impedir Mascha de ir à Gestapo ou o coro de denúncias finais contra Czaka, o traidor) da qual emergem as grandes figuras liberais de Svoboda ou de Novotny (o discurso deste é o discurso liberal arquetípico, como arquetípicas são a sua família burguesa e as suas relações com a mulher e os filhos). O único acto de resistência anónima (outra sequência prodigiosa) é a explosão de palmas que se segue à notícia da morte de Heydrich, em mais um “filme dentro do filme” na obra de Lang.

Alguns comentadores têm notado que, ironicamente, a história parece dar razão a Lang contra Brecht: o assassinato de Heydrich foi planeado em Londres (pela resistência liberal no exílio) contra a resistência interior, liderada pelo P.C. checo. Mas, na altura, nem Brecht nem Lang o sabiam e não é isso que mais importa, para o caso. O que é extremamente relevante (neste filme em que as “armadilhas do destino” se viram contra as forças do mal) é que Lang, ao recusar uma visão classista tenha também recusado uma visão individual. Em Hangmen Also Die (ao contrário de Man Hunt), a luta não é - como muito bem observa Simsolo - “a representação da luta dum indivíduo, assassino por vingança pessoal, mas a dum acto revolucionário, político e ideológico que leva à cumplicidade activa duma cidade inteira contra os carrascos”.

E ao escolher essa óptica (descentrando a protagonização entre Donlevy e Brennan) Lang pôde trazer ao primeiro plano o conflito moral colocado pelo problema dos reféns: ecoado por Mascha e por outras figuras femininas (como pode um homem consentir na morte de dezenas de outros, sem se entregar; um tal homem - chega-se a dizer - é pior que os nazis) contrapondo a essa argumentação não apenas o discurso de Brennan, mas o acto (ou os actos) da população, ou seja reduzindo o problema às proporções de conflito lateral. Hangmen Also Die descentra, assim, a temática da culpa, e encena uma especularidade que só podia funcionar dentro dos próprios códigos de representação de Hollywood (sucessivas representações, disfarces, ocultações).

Não tenho muito mais espaço e, por isso, me limito a um dos múltiplos exemplos: o que faz Mascha perder a sua imagem mais cultivada (a de noiva fiel de Jan) pela de mulher fácil, facilmente caindo nos braços de Svoboda. Quando ambos encenam a sequência da cama, Mascha põe em causa não só a sua relação com Jan como essa imagem de “jeune fille rangée”. E ilude tudo e todos, menos Gruber (a genial descoberta da falsa marca de “batôn”), porque Gruber é o único que está para além de aparências morais. Duvida de encenações demasiado bem feitas, mas acaba por ser vítima de outra, em que todos trocam de papel (os médicos assassinando-o, e esse plano sublime - referência emblemática ao M - do chapéu a rolar). Uma tal inversão e representação de estatutos só podia funcionar, quando eles estão claramente demarcados como o estavam para Mascha.

Por outro lado, é capital, em termos de construção, que, “decapitado” o filme do seu personagem central (Heydrich) logo após a primeira sequência (Lang elide até o assassinato), a narrativa se fosse afunilando em progressivas substituições. Até dela emergir outro personagem central - Czaka - o traidor abjecto, vítima duma conspiração de mentiras, que saberemos (pela mensagem final) não ter sido crível sequer para os nazis. Mas quando se tratava de salvar uma face colectiva, aquela face particularmente repugnante e particularmente individual, serviu os desígnios de todos.

Lang refere que a censura americana lhe pôs as maiores objecções a esse desfecho (“Como se pode aprovar um filme que glorifica uma mentira?”) o que é mais uma vez altamente sintomático. Porque efectivamente se trata de inverter todos os valores morais, pela inversão que a guerra já significa: morrem centenas de reféns, mas não se soube nunca quem foi o assassino; denuncia-se quando o denunciado é um denunciador; que importam aparências de fidelidade, quando já se tem que ser infiel a todos os poderes recebidos?

Só era possível fazer funcionar essa inversão quando a versão fosse, inicialmente, a mais representativamente clara. Por isso o nazismo aqui não podia ser o monstro de mil cabeças. Tinha que ser Gruber - o seu rosto mais rasteiro - e Czaka. Contra eles, a Resistência não podia ser o povo ou o herói solitário. Mas o par Svoboda-Mascha que jamais funciona em termos duma relação de amor, mas sobre o amor.

E chega-se à questão das surpresas e tensões. Lang afirmou ter recusado deliberadamente o psicologismo, porque a psicologia não muda em nada o essencial da acção. E o mais surpreendente ao longo de todo o filme (e neste sentido ele acaba por ser fiel a Brecht) é que exactamente pelo efeito de surpresa seja possível seguir os pólos que o célebre escritor queria para Hangmen Also Die: o assassinato de Heydrich; a questão da rapariga, cujo pai é preso como refém; e o linchamento de Czaka.

Se repararmos bem, é nas ligações entre esses três episódios que a surpresa funciona: sequência do cinema (efeito muito mais forte que a visão da morte de Heydrich); determinação do comportamento de Mascha (o que ela viu e o pai lhe diz que não pôde ver, aprendizagem na visita à cadeia, descoberta do pouco que contam Jan e Svoboda enquanto homens); descoberta (fabulosa sequência da anedota) da duplicidade de Czaka e seu efectivo linchamento final (na medida em que pelos múltiplos falsos testemunhos e pelo assassinato de Gruber, o personagem perde provas de inocência).

Como o Professor ensina à filha textualmente (com o dicionário) naquela guerra no one is no one. Nem sequer ele (fabuloso Walter Brennan) cuja única importância advém de ser um elo da cadeia, o que explicitamente se refere à brechtiana canção final de Hanns Eisler: “Take hold of the invisible torch and pass it on” (...) “but never let them take you, brother”.

Neste, entre múltiplos outros sentidos, Hangmen Also Die sobrepõe à representação épica (brechtiana) a representação circular e, em última análise, romântica, típica de Fritz Lang. 


 JOÃO BÉNARD DA COSTA

3 de setembro de 2023

 


2023, Roter Himmel, Christian Petzold


Há no último filme de Petzold, que é coisa assombrosa e magnética, aquilo que já havia em undine, e que o seu cinema vem cada vez mais a declarar, que é um elo entre o real e o espiritual, ou a materialidade e a imaterialidade; em roter himmel, aonde o amor vai brotar a sua chama, precisa de experienciar os seus medos para assim os expiar e no fim recomeçar, como o livro que Leon escreve terá de ser recomeçando; os medos de Leon são exponenciados pela falta de confiança, mas também pela confiança dos outros, e se é o fogo um dos veículos para o aniquilamento da alienação e da apatia, é também o fogo que lhe vai permitir no final alcançar o culminar do processo evolutivo do qual Nadja é o gatilho; a dada altura do filme, quando ela fala na bioluminescência do mar, a fonte da segurança deles todos face ao perigo dos incêndios, cria-se um simbolismo e uma relação entre o mar e Nadja, aos olhos de Leon, apaixonado desde o primeiro olhar sobre ela, e que determina a suspensão entre o real e o espectral nesta tragicomédia brutal, simbolismo que naquela floresta, perto do final, também adquire o seu sentido quando o javali bebé morre queimado em frente a Leon, como que prenunciando a tragédia que virá logo a seguir.
Rotter Himmel é um filmaço.

24 de agosto de 2023

 



        “A um primeiro nível, a metáfora da prisão é uma representação relativamente simples do conflito corpo/alma. As personagens abandonam gradualmente os próprios corpos, mais ou menos da maneira que Fontaine escapa passo a passo do cárcere. A cadeia do corpo é o derradeiro impedimento à emancipação da alma. Joana d’Arc deposita a sua fé em Cristo e S. Miguel, em parte esperando e em parte ansiando que venham em sua ajuda, «mesmo que seja através de um milagre». Mas quando se apercebe de que o «milagre» da sua fuga será na realidade o seu martírio, desdiz a falsa confissão e opta pela morte, afirmando: «Prefiro morrer a prolongar este sofrimento.» Na noite anterior à execução, o irmão Isambart dá-lhe a comunhão e interroga-a: «Acreditas que isto é o corpo de Cristo?» «Sim, e é o único que me pode salvar», responde Joana. «Não tens esperança no Senhor?», pergunta Isambart pouco depois, ao que ela responde: «Sim, e com a ajuda de Deus estarei no Paraíso.» A salvação de Joana é a morte: o único modo de escapar da prisão é abandonar o seu corpo.

        Assim que o corpo é identificado com a prisão, surge uma tendência para a auto-mortificação. O pároco rural mortifica o corpo e na hora da morte entrega-se nas mãos de Deus. Em O Carteirista a metáfora está invertida: a prisão de Michel é o crime, e a liberdade dele está no cárcere. Também o processo dele é uma auto-mortificação, que, no entanto, não o leva à morte. Fontaine é o único protagonista do ciclo da prisão que não se persegue a si próprio activamente, embora os seus hábitos sejam bastante ascéticos. Nele, a liberdade do corpo coincide com a liberdade da alma, e esta singular ocorrência é resultado da graça, um tema que Bresson trata em profundidade em Fugiu um Condenado à Morte.

(…)

        Nos filmes de Bresson a graça permite ao protagonista aceitar o paradoxo da predestinação e do livre-arbítrio. Para demonstrar a ortodoxia de Bresson neste aspecto, Ayfre cita Santo Agostinho: «A liberdade da vontade não é anulada pela acção da Graça, antes é desse modo consolidada.» Todavia não é suficiente que a graça esteja presente, já que é ao homem que cabe escolher recebê-la. O homem deve escolher aquilo que lhe foi predestinado. Fontaine pode aceitar correctamente a intervenção da graça através de Jost porque, previamente, manifestou a vontade de fugir. Do mesmo modo, Joana, porque escolhe acreditar nas vozes que ouve («Como sabias que era a voz de um anjo?», é-lhe perguntado. «Porque quero acreditar», responde), pode reconhecer a graça na sua morte. No final de O Carteirista, Michel chega à aceitação da graça na pessoa de Jeanne, a quem diz através das grades: «Que estranho caminho tive de tomar para chegar a ti.» Mas a máxima afirmação da graça sai da boca do pároco rural, cujas últimas palavras antes de morrer são: «Tudo é graça.» Se se aceitar o estilo transcendental, então tudo é graça, porque apenas ela permite que o protagonista e o espectador se sintam simultaneamente presos e livres.”


Paul Schrader, 'O Estilo Transcendental no Cinema'

13 de julho de 2023

 

O tédio enquanto instrumento estético 

Recusar aos espectadores o que estes procuram. Recusar, recusar, recusar. Porque haveria um espetador de suportar tamanhos maus-tratos? Tamanho tédio.
Bom, a maioria dos espectadores não o faz. A maioria dos filmes ditos lentos é de facto «aborrecida» (um juízo subjectivo, mas as coisas são como são) e não há assim tanta gente que goste de slow cinema.
Alguns filmes «lentos» possuem o efeito contrário. Prendem o espectador. Servem-se de forma calculada do tédio como instrumento estético. O aborrecido transforma-se em fascinante. São esses os filmes verdadeiramente importantes.
Por que razão aguentamos isso? O tédio. A distância. Em primeiro lugar, porque os praticantes eficazes do slow cinema são mestres na gestão das expectativas. Recorrendo a imagens impactantes, truques auditivos e fragmentos de actividade, o realizador de um filme «lento» mantém o espectador cativado, a julgar que há uma recompensa, uma «compensação» logo ao virar da esquina. É uma chantagem hábil. Se me for embora, vou perder aquilo de que tenho estado à espera. Até o espectador experimentado no slow cinema conta com alguma coisa. Algum momento. Algum fim para as expectativas. A espera vai valer a pena.
Em segundo lugar, porque há alguma coisa a acontecer. O cinema permite-nos olhar em volta. Quando é bom, o slow cinema dá-nos algo que ver quando o fazemos.
A terceira razão está relacionada com o acto de ir ao cinema. Ir ver um filme é como ir à igreja. Estabelece-se um compromisso. «Vim cá de livre e espontânea vontade e aceito as regras.» não se sai de uma cerimónia religiosa passada meia hora por ser aborrecida. Os filmes «lentos» tiram partido desse pacto entre o espectador e o que é visto.
Em quarto lugar, temos aquilo a que Haladyn chamou «vontade de tédio». O que desemboca no «sim fervoroso» - o sim nietzschiano -, «que persiste perante a falta de sentido de um mundo subjectivo, na esperança de ver mais (…), de criar sentido onde não existe nenhum.»
(...)

in 'O Estilo Transcendental no Cinema', Paul Schrader

27 de junho de 2023


 

1974, La gueule ouverte, Maurice Pialat


entre as fodas do filho, a depravação do pai e o leito de morte agonizante da mãe, pialat, talvez o mais bressoniano cineasta francês (e o mais anti-nouvelle vagueano), e só isso é sinónimo de ausência de ornamentos narrativos e visuais, coisa portanto crua e frontal, declara na sua magnitude a antítese das relações entre pai e filho, e a sua hereditariedade, mãe e filho, e moribunda com quem a rodeia; la gueule ouverte opõe a vida à morte, sendo a vida esse fulgor e esse frenético impulso sexual que os faz, a pai e filho, trair as suas mulheres e ser mulherengos, ainda que no fim vejamos que o amor estava lá, num travelling final assombroso que quer dizer tanto mas tanto... grandioso é ser modesto!

20 de junho de 2023


 

1994, Wrony, Dorota Kędzierzawska 


O cinema de Kędzierzawska é coisa sokuroviana e kieslowskiana, ao adquirir deles os elementos oníricos e contemplativos assume assim a sua linguagem cinematográfica para a partir daí criar um cinema muito próprio vincado nos silêncios e na linguagem corporal dos seus personagens; em wrony existe uma tendência crescente de efabular aquela história de uma criança inserida na disfuncionalidade familiar, vive com a mãe, que desde operária a puta cultiva, no fundo, um desdém pela filha, ela sente-o, sente particularmente a solidão e a ausência física e afectuosa da mãe, é no fundo essa lacuna que lhe insere a ânsia de interpretar ela esse papel de mãe, como que querendo mostrar a si mesma que ela é diferente; a candura em confronto com a negrura do mundo.

19 de junho de 2023



1998, Nic, Dorota Kędzierzawska

 A primeira vez que vemos a comiseração em nic é quando aquela velha bisbilhoteira do prédio lhe diz pra ir com ela e as crianças dali embora, a segunda é o casal de velhinhos que os acolhe no final, antecedendo a tragédia, tragédia essa que presentimos desde o início do filme; nic expressa assim nessa comiseração, e em meio ao fatalismo e à penúria do mundo, uma esperança na humanidade; é de resto o sepia embrutecido que simboliza essa penúria do mundo, sepia sokuroviano (e nic é soviético em todo o seu imo) que alia os closes, os silêncios e a acção comportamental e corporal - existe no filme de Kędzierzawska uma ambiência quase que onírica -, numa locomoção vertiginosa do arquétipo individual do colectivo que no passado suportou o autoritarismo do patriarcado; assim, na sua totalidade, nic declara o terror do medo e a sua angústia, colhe aí os frutos das acções que precederam e que determinaram a sociedade...

18 de junho de 2023

 

filmes vistos que interessem destacar:


1971, Une aventure de Billy le Kid, Luc Moullet
2022, Cô gái đến từ Đắk Lắk, Pedro Roman & Mai Huyền Chi
2022, Ankabut-e moqaddas, Ali Abbasi
2022, Tár, Todd Field
1966, Un homme et une femme, Claude Lelouch
1974, Toute une vie, Claude Lelouch
1978, Robert et Robert, Claude Lelouch
2022, Pacifiction, Albert Serra 
2022, Saint Omer, Alice Diop 
1972, L’aventure, c’est l’aventure, Claude Lelouch 
1973, La bonne année, Claude Lelouch 
2020, Pão e Gente, Renan Rovida 
2016, Zhi fan ye mao, Zhang Hanyi 
2005, Pervye na Lune, Aleksey Fedorchenko 
1971, Umutsuzlar, Yilmaz Güney 
1963, Zlaté kapradí, Jiri Weiss 
1972, Stantsionnyy smotritel, Sergey Solovyov 
2001, Le Pornographe, Bertrand Bonello 
2003, Tiresia, Bertrand Bonello 
2011, L’Apollonide (Souvenirs de la maison close), Bertrand Bonello 
2014, Saint Laurent, Bertrand Bonello 
2016, Nocturama, Bertrand Bonello 
2019, Zombi Child, Bertrand Bonello 
2022, Tab, Hong Sang-soo 
1966, Brigitte et Brigitte, Luc Moullet 
1962, The loneliness of the long distance runner, Tony Richardson 
2022, As Bestas, Rodrigo Sorogoyen 
2016, Qingshui li de daozi, Wang Xuebo 
1984, Dong dong de jiàqi, Hou Hsiao-Hsien 
2000, guizi lai le, Jiang Wen 
2022, Skazka, Aleksandr Sokurov 
1983, Feng gui lai de ren, Hou Hsiao-Hsien 
1985, Tóngnián wangshì, Hou Hsiao-Hsien 
1993, Xi meng ren sheng, Hou Hsiao-Hsien 
1996, Nan guo zai jian, Hou Hsiao-Hsien 
2001, Qian xi man bo, Hou Hsiao-Hsien 
2003, Kôhî jikô, Hou Hsiao-Hsien
2005, Zui hao de shi guang, Hou Hsiao-Hsien
2015, Cike Nie Yin Niang, Hou Hsiao-Hsien
2022, Ta farda, Ali Asgari 
1996, Pedar, Majid Majidi 
2000, Yi yi, Edward Yang 
2007, Ai qing de ya chi, Zhang Yuxin 
1978, Pretty Baby, Louis Malle 
1986, Dao ma zei, Tian Zhuangzhuang 
2007, Mang shan, Yang Li 
2003, Mang jing, Yang Li 
2022, Jang-e jahani sevom, Houman Seyyedi 
2009, Chun feng chen zui de ye wan, Lou Ye 
2014, Court, Chaitanya Tamhane 
1976, News from home, Chantal Akerman 
1962, Otoshiana, Hiroshi Teshigahara 
1966, Tanin no kao, Hiroshi Teshigahara 
2014, Heaven knows what, Benny Safdie & Josh Safdie 
2022, Baradaran-e Leila, Saeed Roustayi 
2016, Abad va yek rooz, Saeed Roustayi 
2019, Metri shesh va nim, Saeed Roustayi 
2002, Ren xiao Yao, Zhang-ke Jia 
2006, Dong, Zhang-ke Jia 
2008, Heshang de aiqing, Zhang-ke Jia 
1933, Minato no nihonmusume, Hiroshi Shimizu 
1938, Anma to onna, Hiroshi Shimizu 
2008, De la guerre, Bertrand Bonello 
1970, Mujô, Akio Jissôji 
1971, Mandara, Akio Jissôji 
1972, Uta, Akio Jissôji 
1942, Once upon a honeymoon, Leo McCarey 
1969, Erosu purasu gyakusatsu, Yoshishige Yoshida 
1970, Rengoku eroica, Yoshishige Yoshida 
1973, Kaigenrei, Yoshishige Yoshida 
2022, R.M.N, Cristian Mungiu 
2022, Roza, Andrés Rodriguez 
2022, Los reyes del mundo, Laura Mora Ortega 
2015, Aferim!, Radu Jude 
2018, Îmi este indiferent daca în istorie vom intra ca barbari, Radu Jude 
2020, Iesirea trenurilor din gara, Radu Jude & Adrian Cioflâncã 
2021, Babardeala cu bucluc sau porno balamuc, Radu Jude 
2009, Cea mai fericita fata din lume, Radu Jude 
2012, Toata lumea din familia noastra, Radu Jude 
2017, The Dead Nation, Radu Jude 
1931, Nanatsu no umi: Zenpen – Shojo-he, Hiroshi Shimizu 
1932, Nanatsu no umi: Kôhen – Teisô-hen, Hiroshi Shimizu 
1929, Fue no shiratama, Hiroshi Shimizu 
2022, Coma, Bertrand Bonello 
1973, Ludwig, Luchino Visconti 
1965, Vaghe stelle dell’Orsa, Luchino Visconti 
1967, Lo straniero, Luchino Visconti 
1969, La caduta degli dei (Götterdämmerung), Luchino Visconti 
1976, L’innocente, Luchino Visconti 
1933, Daigaku no wakadanna, Hiroshi Shimizu 
1942, Tales of Manhattan, Julien Duvivier 
1999, Na shan na ren na gou, Jianqi Huo 
1933, Nakinureta haru no onna yo, Hiroshi Shimizu 
1971, The Panic in Needle Park, Jerry Schatzberg 
1993, Au nom du Christ, Roger Gnoan M’Bala 
2022, Khers nist, Jafar Panahi 
1969, Liebe ist kälter als der Tod, Rainer Werner Fassbinder 
1970, Die Niklashauser Fart, Rainer Werner Fassbinder e Michael Fengler 
1972, Die bitteren Tränen der Petra von Kant, Rainer Werner Fassbinder 
1973, Welt am Draht, Rainer Werner Fassbinder 
1983, The Great Sadness of Zohara, Nina Menkes 
1974, Angst essen Seele auf, Rainer Werner Fassbinder 
1995, Kardiogramma, Däreschan Ömirbajew 
1974, Fontane Effi Briest, Rainer Werner Fassbinder 
2013, Palo Alto, Gia Coppola 
1986, Magdalena Viraga, Nina Menkes 
1991, Queen of Diamonds, Nina Menkes 
1996, The Bloody Child, Nina Menkes 
2007, Phantom Love, Nina Menkes 
2010, Hitparkut, Nina Menkes 
2022, Brainwashed: Sex-Camera-Power, Nina Menkes 
1975, Angst vor der angst, Rainer Werner Fassbinder 
1975, Faustrecht der Freiheit, Rainer Werner Fassbinder 
1976, Ich will doch nur, daß ihr mich liebt, Rainer Werner Fassbinder 
2022, Padre Pio, Abel Ferrara 
1978, In einem Jahr mit 13 Monden, Rainer Werner Fassbinder 
1979, Die dritte Generation, Rainer Werner Fassbinder 
1979, Die Ehe der Maria Braun, Rainer Werner Fassbinder 
1976, Satansbraten, Rainer Werner Fassbinder 
2022, Showing Up, Kelly Reichardt 
1981, Lili Marleen, Rainer Werner Fassbinder 
1981, Lola, Rainer Werner Fassbinder 
1982, Die Sehnsucht der Veronika Voss, Rainer Werner Fassbinder 
1975, Mutter Küsters’ Fahrt zum Himmel, Rainer Werner Fassbinder 
1934, Kinkanshoku, Hiroshi Shimizu 
1970, Götter der Pest, Rainer Werner Fassbinder 
1971, Rio das Mortes, Rainer Werner Fassbinder 
1971, Pioniere in Ingolstadt, Rainer Werner Fassbinder 
2022, Master Gardener, Paul Schrader 
1965, …a pátý jezdec je Strach, Zbyněk Brynych 
1970, Hranjenik, Vatroslav Mimica 
1935, Tôkyô no eiyû, Hiroshi Shimizu 




revisões: 


1922, Dr. Mabuse, der Spieler, Fritz Lang 
1971, Warnung vor einer heiligen Nutte, Rainer Werner Fassbinder 
1990, Texasville, Peter Bogdanovich 
1969, Katzelmacher, Rainer Werner Fassbinder 
1971, Whity, Rainer Werner Fassbinder 
1982, Querelle, Rainer Werner Fassbinder