9 de junho de 2022


 


1983, Sredi serykh kamney, Kira Muratova


Sredi serykh kamney, filme mutilado que fez com que Muratova o rejeitasse, coisa de 83 mas só lançada a 88, na altura creditado a Ivan Sidorov precisamente pela recusa de Muratova em assinar o seu nome, acção de protesto pela censura sofrida e consequente mutilação do material filmado, ainda assim é coisa preciosa, estilisticamente áspera e rudimentar na esteira dum Parajanov, duma Shepitko, Klimov ou Pasolini… 

Entre as pedras cinzentas, que na sua crueza e asperidade encontra a poética necessária para adaptar o conto de Korolenko, é na verdade a procura das memórias de processos traumáticos na infância. Vive da nostalgia como quem vive do pão, mas foge da exposição ao sentimentalismo como o diabo foge da cruz. O ritmo que Muratova consegue imprimir ao filme é vertiginoso e, de certa forma, tipicamente soviético (ou daquela era). É, no entanto, a procura da abstração que fazem do filme coisa preciosa, a deambulação de Vasya entre o contraste social dos dois “mundos” explorados, na ânsia de colmatar o vazio deixado pela perda recente da mãe, traz ao filme não só essa abstração narrativa, como um conflito interior e emocional daquela criança.

O que me parece em Entre as pedras cinzentas é que Muratova procura estender um certo tumulto interior, não só de Vazia como de seu pai, ambos em processo de luto e de dor, ao caos frenético que se vive naquela casa, como se o exterior fosse uma extensão do interior daqueles dois seres em redescoberta interior e readaptação ao mundo que os rodeia. É talvez por isso que Vasya procura o oposto a que tem em casa, ainda que encontre outro caos idêntico, numa tentativa imaculada e cândida de encontrar o afecto que perdeu da mãe e o que lhe é negado pelo pai, imerso também ele na sua dor e no seu conflito interior. Não deixa, pois, de ser curioso, que seja na manifestação de afecto de Vasya para com Marusya, que a catarse de pai e filho seja desencadeada e culmine no final, como se Muratova nos quisesse dizer que a cura é o amor. Maravilhoso!

4 de junho de 2022






filmes vistos dignos de registo:


2013, Cuba Libre, Albert Serra
2018, Roi Soileil, Albert Serra
1953, Lili, Charles Walters
1960, Hadaka no shima, Kaneto Shindô
1945, Les enfants du paradis, Marcel Carné
1938, Le quai des brumes, Marcel Carné
1938, Hotel du Nord, Marcel Carné
1939, Le jour se lève, Marcel Carné
1937, Drôle de drame, Marcel Carné
1942, Les visiteurs du soir, Marcel Carné
1957, The Tarnished Angels, Douglas Sirk
1969, La madrigueira, Carlos Saura
1973, Ana y los lobos, Carlos Saura
2013, História de la meva mort, Albert Serra
2017, Zama, Lucrecia Martel
1959, The Nun’s Story, Fred Zinnemann
2005, Tian bian yi duo yun, Tsai Ming-Liang
1959, Deux hommes dans Manhattan, Jean-Pierre Melville
1930, La petite Lise, Jean Grémillon
1941, Remorques, Jean Grémillon
1958, Ascenseur pourn l’échafaud, Louis Malle
1948, Anna Karenina, Julien Duvivier
1937, Pépé le Moko, Julien Duvivier
1995, Do lok tin si, Wong Kar-Wai
1936, La Belle Equipe, Julien Duvivier
1939, La fin du jour, Julien Duvivier
1991, Jacquot de Nantes, Agnès Varda
2021, Akyrky koch, Dastan Zhapar Uulu e Bakyt Mukul
1941, Lydia, Julien Duvivier
1943, Flesh and Fantasy, Julien Duvivier
1967, Diaboliquement votre, Julien Duvivier
1952, Don Camillo, Julien Duvivier
1953, Le Retour de Don Camillo, Julien Duvivier
1946, Panique, Julien Duvivier
2021, Hive, Blerta Basholli
1932, Daïnah la métisse, Jean Grémillon
2020, Février, Kamen Kalev
2016, Bezbog, Ralitza Petrova
1972, Kozijat rog, Metodi Andonov
1988, Krótki film o zabijaniu, Krzysztof Kieslowski
2013, La Vénus à la fourrure, Roman Polanski
1977, Ceddo, Ousmane Sembène
1927, Napoléon vu par Abel Gance, Abel Gance
1928, Zemlya v plenu, Fyodor Otsep
1960, Boulevard, Julien Duvivier
2015, Maraviglioso Boccaccio, Paolo e Vittorio Taviani
2011, Nana, Valérie Massadian
2017, Columbus, Kogonada
2012, Le Capital, Costa-Gravas
1956, Voici le temps des assassins, Julien Duvivier
1931, David Golder, Julien Duvivier
2005, Mata no hi no chika, Kazuo Hara
1971, Basic Training, Frederick Wiseman
2008, Tokyo Sonata, Kiyoshi Kurosawa
2010, Boxing Gym, Frederick Wiseman




revisões:


1991, La double vie de Véronique, Krzysztof Kieslowski
1994, Little Women, Gillian Armstrong
1988, Wong Gok ka moon, Wong Kar-Wai
1990, Ah Fei jing juen, Wong Kar-Wai
1994, Chung Hing sam lam, Wong Kar-Wai
2018, Donbass, Sergei Loznitsa
1960, Le testament d’Orphée, Jean Cocteau
1960, Les yeaux sans visage, Georges Franju
1997, Chun gwong cha sit, Wong Kar-Wai
2000, Fa yeung nin wah, Wong Kar-Wai
2004, 2046, Wong Kar-Wai
2019, State Funeral, Sergei Loznitsa
1977, Der amerikanische freund, Wim Wenders

30 de maio de 2022

 



Últimos filmes vistos, duas obras de Duvivier assombrosas, negras como a noite... apenas umas coisinhas sobre elas:

Voici le temps des assassins é um pináculo do noir francês, data de 1956, última colaboração de Duvivier e Gabin, é coisa subversiva e pérfida que rompe as amarras da candura nas escolhas do ser humano. Se há coisa que Voici le temps des assassins percorre, é a frieza da mulher como ser manipulador e pérfido. Coisa imoral. Mãe e filha, duas mulheres submersas numa espiral decadente que na tragédia desaguarão, uma em trabalho interior corrosivo e outra já numa convalescença dessa mesma corrosão que ambas partilham, coisas tão embrenhadas na alma e que a enegrecem de tal forma que aos mais atentos não escapa e inquieta, e por isso aquele “dá-me calafrios” da madame Chatelin para o filho quando conhece Catherine, coisa demoníaca, coisa que vem directamente das trevas, há naquelas duas mulheres uma aura luciferina que as sombras de Duvivier fazem tão bem transparecer, sobretudo naquele quarto onde a mãe, enclausurada, permanece. 

 O outro, David Golder, filme de 31, história dum judeu, magnata capitalista que não hesita em trair o sócio (na qual resulta o seu suicídio), que se depara com verdades familiares inconvenientes e que abraça no seu final a redenção e “a remissão dos pecados”. Tal como Voici le temps des assassins, David Golder é coisa negra como a noite, abraça a perfídia e a subversão para explorar o interior do ser humano. Tem vários planos e movimentos de câmara assombrosos para a época, mergulha num conflito interior resultante da traição e desagua na redenção e numa espécie de libertação material, ainda que num último esforço altruísta (e proveniente do amor incondicional) a ele recorra, ao materialismo. Da escuridão para a luz, transfiguração final. Redenção total.

12 de maio de 2022

7 de maio de 2022


 

2011, Nana, Valérie Massadian


Com Nana somos confrontados com um cinema de gestos e da sua observação, na mistura do real e do imaginário, daquela criança que repete os mesmos gestos da mãe e do avô, como que numa automatização da imitação que resulta no aprendizado, afinal de contas é assim mesmo o aprendizado duma criança, na imitação dos gestos da(s) figura(s) paterna(s)... num meio que a confronta com a realidade da vida e da morte, a violência da cena inicial é na realidade apenas coisa integrante da vida, contrasta, isso sim, com a dissimulação da vida citadina que se afasta da origem daquilo que tem no prato das refeições, mostra as coisas como são, é no fundo um filme de quem lhe interessa o momento, os gestos, os movimentos, a acção espontânea - como quando a mãe desaparece e Nana põe em prática todos os ritos e acções que foi aprendendo e num momento em que alguém a corrige quando esta lê aquele livro, responde que ela agora já sabe ler -, e observar isso tudo... como que num estudo antropológico sobre a natureza comportamental do ser humano ou objecto observacional dos gestos e daquilo que revelam, num filme claramente "herdeiro" do cinema de Pedro Costa a quem nos créditos finais agradece... Nana é uma pequena relíquia cinematográfica!

12 de abril de 2022



 

2020, Février, Kamen Kalev
2016, Bezbog, Ralitza Petrova

Noite passada dois filmes búlgaros vistos, coisas antagónicas mas ambas coisas existenciais.
No primeiro, Février, acompanhamos o percurso dum homem, pastor por herança e por convicção, desde a infância até à velhice. Particularmente, é filme que me agrada, na condução narrativa e na veia contemplativa que assume. Moroso e impoluto na sua fotografia, é no entanto coisa que se cola demasiado às suas influências, nomeadamente Angelopoulos e o aclamado Tarkovsky. Dividido em três partes, fases da vida, principiamos pela infância onde com o avô aprende a ser pastor, continuamos na segunda, instrução militar, e finalizamos no fim dos dias (ou o caminhar para eles). Na instrução militar achei particularmente piada à cena em que o capitão lhe pergunta se lá na terra dele eram todos assim tão primitivos, para depois, de noite, à luz da fogueira e ao som duma viola, este tirar a pistola e matar as gaivotas que abundam por ali. Questões do primitivismo!...
O segundo, Bezbog, é coisa mais corrosiva, psicológica e negra. Principia na tragédia (ou no seio da barbárie) para logo percebermos que se trata do final. Ali, ao invés de primitivismo e abnegação, somos confrontados com a frieza, com a luta interior e com depressão que assola a protagonista. Aos poucos revela-se-nos a causa e as justificações das suas escolhas - o passado -, as feridas que ainda não sararam e que a impedem, como confessa desabafando com a mãe (que funciona ali até certo ponto como um espelho dela), de amar. Imersa num mundo de depravação e de corrupção, no entanto, ainda resta a consciência e a constatação de que as escolhas não revelam a fonte e o verdadeiro ser. Muito bom!

19 de março de 2022


 

1939, La fin du jour, Julien Duviver

[se há coisa maravilhosa, deliciosa e genial em Duvivier, e em especial neste assombro de filme, são os diálogos!]

11 de fevereiro de 2022



 

O filme de Kaneto Shindô é coisa singela e duma beleza que me parece exclusiva a alguns… àqueles de destreza, de grandiosidade, àqueles dum outro tempo e outro cinema… não há hoje em dia cineasta que consiga filmar aquele sentimento, aquela simplicidade!... não há hoje cineasta que filme assim a tragédia… ou se os há são parcos, raros… hadaka no shima é desmesuradamente observacional, minucioso nos detalhes, nos ritos, na mecanização e automatização do processo laboral ou rural, nos gestos, nos trajectos… a dada altura veio-me à memória o finis terrae do Epstein, a mesma obstinação nos processos humanos e laborais em detrimento do enredo em si, a quase “documentarização” do objecto filmado, apenas interrompido pela chegada da tragédia anunciada. Ainda assim, quando esta acontece, a tragédia, o registo cinematográfico adoptado até ali não muda, à primeira vista pode até parecer que existe ali uma certa frieza quando apenas se filma a aceitação e a resignação… e os planos finais imersos na explosão da dor, da confrontação do pilar mais forte daquela família numa reacção oposta a outra anterior (lá no início do filme... nada de dor aí, apenas a reacção ao erro da mulher), compreensão e amadurecimento, a dor a moldar o homem, surgimento dum novo homem… são coisas idílicas ainda que abalroadas por certos primitivismos, ainda que a tragédia e a dor tentem usurpar grande parte dessa singeleza. Enorme!