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2 de junho de 2009

Io Non Ho Paura (2003)

Um filme de Gabriele Salvatores







Mas que agradável surpresa foi para mim este “Io Non Ho Paura”, traduzindo resulta em “Eu Não Tenho Medo”. A partir do romance homónimo de Niccolò Ammaniti, “Io Non Ho Paura” (2001), Salvatores cria uma fábula, um conto arrebatador que nos fala do medo, da privação da liberdade, de enfrentar o medo. E Salvatores fá-lo de maneira extraordinária.

Sul de Itália, um vilarejo abandonado e pobre no meio do nada. O filme abre com um rochedo que supostamente estará confinado a uma caverna, tal é a escuridão a que somos remetidos. Nesse rochedo aparece inscrito Io Non Ho Paura, o título da obra. Com o desenvolvimento do filme percebemos o significado desta cena inicial, em perfeita sintonia com a história. Esta sequência inicial leva-nos a imaginar um filme negro e assustador. Mas rapidamente somos invadidos pelo sol, pela claridade, pelas cores garridas das camisolas das crianças que brincam, pelo amarelo dos campos de trigo que pontuam todo o ecrã. Até que Michelle (Giuseppe Cristiano), tendo que voltar atrás buscar os óculos da irmã, descobre um fundo falso que remete à tal gruta. E a partir daqui, Salvatores inicia a sua exploração pelo medo, pela coragem de Michelle, pela sua curiosidade, pela sua solidariedade ao deparar-se com a visão de um tornozelo. Michelle rapidamente fecha o tampo que cobre a entrada para a gruta. O medo, o susto, invadiram Michelle e a nós, pois Gabriele Salvatores inteligentíssimo deixa-nos na dúvida e na ignorância. Deixa-nos sem saber se é um cadáver ou não. Assim como Michelle, que no dia seguinte volta lá cheio de curiosidade, mas sempre com o medo, o receio a pautar os seus movimentos, as suas acções. Desta vez, Michelle vai mais longe e atira uma pedra tentando comprovar se é um cadáver ou não. E a cena mais assustadora e choque do filme acontece quando, depois de fechar o tampo, ele volta a abri-lo e não vendo o tornozelo debruça-se para dentro da caverna e um menino lhe aparece, deixando-o aterrorizado e fazendo-o fugir numa pressa incalculável na sua bicicleta. E mais não conto. Há que o ver.

Salvatores joga com as cores e com a luz de forma magnífica. Ele cria dois “mundos” literalmente. Dois campos de visão para o espectador, onde cada um deles tem o seu significado. O mundo de Michelle, inocente e curioso, com o medo natural de uma criança (e até de adulto) mas com uma coragem incrível, com um desejo infindável de vencer os medos, de descobrir a realidade. Um mundo vivo, cheio de cor, de alegria, de brincadeira. Do outro lado temos um mundo negro, o mundo de Filippo (Mattia Di Pierro), a criança que está remetida à caverna, um mundo que está ligado ao crime (e isto já é contar mais), um mundo aprisionado, de medo também. Um mundo de escuridão, de morte, num ambiente claustrofóbico.
E esses dois mundos vão a pouco e pouco unir-se, vão se tornando só num, no mundo em que Michelle se vai interiorizando da realidade, da sórdida verdade, do porquê de Filippo estar ali, num mundo que se vai definindo, no mundo em que Michelle cria laços de amizade com Filippo. E cria um mundo de resistência, de esperança para Filippo e para ele próprio. Um mundo de vitória porque venceu os seus medos, um mundo de decepção pela verdade que descobre.

Muito bom.

31 de maio de 2009

Mediterraneo (1991)

Um filme de Gabriele Salvatores










"EM TEMPOS COMO ESTE A FUGA É O ÚNICO MEIO DE MANTER-SE VIVO E CONTINUAR A SONHAR." (Henry Laborit)


Mais um filme que vi em tenra idade e que me deixou marcas, que me fez ser um confesso apaixonado pelo cinema italiano até mais do que por outro qualquer. “Mediterraneo” é um filme belo, de uma beleza indescritível, de uma beleza só alcançável no cinema italiano, só comparável a filmes como “Nuovo Cinema Paradiso” e “Màlena” de Tornatore. É mais que um filme, é um hino à beleza, à tranquilidade, à vida. Gabriele Salvatores traz com “Mediterraneo” uma mensagem anti-guerra, uma conotação que exalta a paz.

Antes de me alongar, convém mencionar a história desta obra singela e magnífica. Corre o ano de 1941, o tenente Raffaele Montini (Claudio Bigagli) lidera um grupo de soldados italianos que são enviados numa missão a Mighisti, uma ilha grega perdida no Mar Egeu. Como diz o tenente e narrador do filme, Importância Estratégica: Zero. Ao princípio, a ilha está deserta. Ninguém parece habitar as casas da ilha. Depois de montarem um posto de observação, o rádio é destruído por Gigio (Eliseo Strazzabosco) que, depois de a sua mula ser morta por engano, atira com o rádio pela colina abaixo. Sem rádio, sem comunicação com o mundo exterior e, sendo assim, sem notícias da guerra, este grupo de militares vai construir o seu dia-a-dia numa ilha grega maravilhosa do Mediterrâneo. Vão adaptar-se ao novo quotidiano (sem dificuldade). Nicola Lorusso (Diego Abatantuono) assume o comando visto o tenente começar a partir daí a dar importância à pintura da igreja local. Depois, aparece Vassilissa (Vanna Barba numa beleza infindável), uma prostituta que passa a ocupar alguns dos soldados e o próprio Lorusso. Mas Farina (Giuseppe Cederna) vai-se apaixonar por ela...

Salvatores não faz um filme político ou de guerra, nem por sombras. Pelo contrário, Salvatores cria uma fábula onde fala de amor, de paz, de vida, de arte, do quotidiano, do ser humano. O azul do Mediterrâneo perfaz o ecrã durante o filme inteiro dando-lhe toda a essência. A fotografia do filme é lindíssima. “Mediterraneo” tem um desenvolvimento narrativo ténue, nem lento nem apressado, perfeito. E a banda sonora é fantástica. Tem momentos cómicos, diálogos hilariantes e outros mais filosóficos. É uma ode à vida, sem dúvida. A frase de Laborit é bem elucidativa da intenção de Salvatores quanto à mensagem de “Mediterraneo”. Embora largados numa ilha perdida, este grupo de militares italianos é a imagem de uma “rebeldia” contra o regime, contra a guerra, contra um ideal que não é o deles. São o retracto de uma minoria que sonhou, de alguns que preferiram ser cobardes do que morrer. Porque o mais importante é viver, porque as guerras nunca são benéficas, nunca têm justificação. Como diriam os italianos, “Mediterraneo” é bellissimo.