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19 de outubro de 2010

Serbis (2008)












Em Serbis é já manifestada a intenção de Brillante Mendoza em enveredar pelo neo-realismo contemporâneo. E para isso (e aqui ainda mais do que em Kinatay e Lola) é influência primordial (além do neo-realismo italiano como base para toda a evolução do seu cinema) a dupla dos irmãos Dardenne, sendo estes a mais notória influência não só na vertente social mas também na mise-en-scène praticamente igual entre os belgas e o filipino. Mas o que distingue Serbis de Kinatay e Lola são os momentos hilariantes e absurdos que contém, é a desmesurada forma de retractar a degradação humana (aqui concretamente daquela família), é a explicitação sexual exposta. Em Serbis há uma preocupação em, dentro de todo o realismo e pessimismo (leia-se dramatização) inerente a essa crítica social, “desdramatizar” não caindo no melodrama clássico (mesmo que possamos chamar a Serbis o filme do degredo), porque o sentido hilariante assim o pretende, porque aqui não há moralidades nem integridades (resultado do estado social). Porque, no fim de contas, Serbis é uma sátira social.

13 de outubro de 2010

Lola (2009)
















Embora num registo completamente diferente (aqui trata-se do melodrama social), Lola pouco se distingue de Kinatay. Porque o tal caminho de auto-descoberta artística que Mendoza fala ganha aqui contornos mais evidentes, a tal influência do neo-realismo é aqui mais visível ainda. Lola é um filme perdido no tempo (e no vento e na chuva de Manila), filme de ambiguidades morais. Dum lado a morte, do outro o encarceramento pelo assassinato do primeiro. E nos dois lados temos as figuras patriarcas das famílias, as lolas (avós) que lutam cada uma por aquilo que o amor lhes pede. Mas se o que a morte traz aos familiares (além da dor) é o desejo de punição do culpado pelo acto criminoso do seu ente querido, a outra lola (sem que o sentido de justiça se intrometa) faz tudo para salvar da cadeia o seu. Moralidade (ou falta dela) inerente aos interesses de cada lola. E a angústia de cada uma na contenda pelo seu propósito, contra todas as adversidades (não esqueçamos o neo-realismo, se em Kinatay Mendoza apontava as suas “baterias” para a violência e a corrupção, aqui há toda uma série de carências sociais prontas a “combater” os esforços das duas lolas) das quais a escassez de dinheiro é figura central, torna ainda mais escuro (ainda assim não tanto quanto Kinatay) este melodrama social. Brillante filma a derrota (e a sua aceitação) e a vitória, filma a resignação e a recompensa, filma a dignidade e a perda dela. Porque a pobreza assim o determina. Porque as tempestades de Manila não são só de chuva e de vento, são de falta de condições e de miséria também. E o que aquelas lolas fazem é lutar contra as adversidades com as contrariedades que lhe são próprias da idade e da condição social, cada uma com o seu intuito mas ambas com amor pelos seus entes queridos (os netos). E se uma se engana nos trocos propositadamente, a outra aceita o dinheiro para o acordo amigável. Tudo porque sem dinheiro não há ética nem moral que resista. E porque, como disse o Carlos aqui, “os mortos leva-os o rio”.

12 de outubro de 2010

Kinatay (2009)









E se um “puto” de 20 anos acabado de casar, já com um filho e com pretensões a futuro policia, se vê de um momento pró outro enfiado numa carrinha prestes a executar aquilo que chamam de uma “operação”? E se nessa carrinha estão quatro polícias e dois aspirantes (que é como quem diz ajudantes, sendo o tal “puto” um deles) prestes a espancar, violar e desmembrar uma prostituta que não pagou as dívidas resultantes da droga? Qual o estado emocional e psicológico a que este “puto” é submetido? Qual a reacção de Peping (o puto) face ao que sucede? Kinatay procura isso mesmo, explorar o impacto emocional e psicológico de quem é apanhado de surpresa num acto tão violento e perverso quanto este. A corrupção no seu extremo.

Mas Kinatay é muito mais que um simples filme sobre a “eliminação” de uma puta que não pagou o que devia. Kinatay é arte de fazer cinema, a arte de filmar um acontecimento marcante para Peping, arte de filmar a violência. Mas, mais importante, Kinatay descende do neo-realismo italiano (e Kinatay é a prova do que Brillante falava há tempos numa entrevista a Vasco Câmara) ainda que num registo negro e obscuro que a história reclama. É a perda da inocência que está em causa (e por isso aquele final em que, simplesmente, se traduz na continuidade da apatia). E essa apatia (que, como dizia Vasco Câmara, é partilhada por aquele aspirante a policia e por nós, espectadores) nem é criticada, afinal, é parte integrante (face ao que ocorre não só naquele momento como no geral) para a sobrevivência dos que se deparam com este meio, é antes denunciada, exibida. O que Brillante (e nunca um nome foi tão justo) faz é mostrar aquelas horas de angústia e perplexidade emocional que assolam Peping. E fá-lo num registo tão próximo das personagens como que a querer situar o espectador dentro (e depois fora) daquela carrinha. Aliás, essa brilhante (lá está o nome) forma de filmar (a câmara na mão, o ritmo alucinante com que segue o personagem, a aproximação (cola-se literalmente) constante ao personagem) descende dos Dardenne (que por sua vez provêm dum Dogma 95). Mas tudo num negrume que dá corpo a um obscurantismo presente resultante da matéria que se filma (aqui o acto cru e sádico do desmembramento da puta) e da fasquia elevada do tormento vivido pelo “puto” que nos chega por meio do som (ou sons).

Mas o que realmente Mendoza quer mostrar com Kinatay é o estado das Filipinas e da sua sociedade, o “caos” de violência e corrupção em que o seu país está mergulhado (a tal influência do neo-realismo). E mais do que neo-realista, Kinatay é o filme da desesperança, da desumanização. Porque, quando há polícias sádicos e desumanos como aqueles não há esperança que resista. Brilhante Mendoza.

19 de maio de 2009

E eis que surge um filipino

"É para já a obra maior da competição de Cannes: "Kinatay", do filipino Brillante Mendoza. Uma viagem ao fim da noite de Manila que nos faz cúmplices de uma barbaridade.

Um susto de filme. Como quem não quer a coisa, pega no espectador mais ou menos desprevenido, mais ou menos inocente - porque nunca se é, completamente - e leva-o pela noite dentro até ao fim da noite. Não há forma de abandonar a viagem, mesmo quando começamos a encontrar na escuridão os contornos da brutalidade. Estamos encurralados na passividade do "voyeurismo". E mesmo que acabemos a viagem razoavelmente imaculados, seguros - porque nunca saímos assim, completamente, de um filme -, nunca nada vai ser igual. É essa a experiência do espectador de "Kinatay", do filipino Brillante Mendoza, obra brutal, para já o filme maior da competição de Cannes. Nada vai ser igual a partir de agora em relação ao cinema de Mendoza, o que não é nada que estivéssemos a pedir, um momento de epifania com a obra deste realizador de 49 anos que começou a fazer filmes há cinco, vindo da publicidade e do teatro, e que esteve em concurso em Cannes o ano passado com "Serbis".

Essa viagem do espectador pelo horror é a viagem do protagonista de "Kinatay" - em filipino, "Chacina". Um estudante na academia de polícia de Manila, já com um filho e um casamento na linha do horizonte mais próximo - e Manila amanhece no início de "Kinatay" - não se pode dar ao luxo de prescindir de fazer trabalhinhos por fora, de pactuar, despreocupadamente, com o "milieu" da droga. Nada que afecte o seu projecto de inocência.

Até que entra numa carrinha - começa a anoitecer em Manila -, onde vai passar grande parte desta viagem. Ao lado destes "gangsters" aparentemente de trazer por casa e de uma prostituta que não cumpriu as suas obrigações. Já é noite em Manila quando a carrinha, o aprendiz, os gangters e a prostituta (desmaiou devido aos murros) chegam a uma casa. Aí o serviço vai ser completo - o título do filme é "Chacina".

Começa a amanhecer em Manila quando um estudante da academia de polícia regressa a casa, exausto. Adormece no táxi. É manhã em Manila.

Não há elipses assim em "Kinatay". Como se tinha percebido pela forma como a câmara do realizador percorria um cinema porno no anterior "Serbis" (a Lusomundo não vai exibir comercialmente esse filme em Portugal, lança-o directamente em DVD, com o título "Serviços"), Mendoza faz todo o caminho e vai até ao fim. "Kinatay" é uma extraordinária experiência do tempo: deixa-nos a sensação de filme em plano único, que vai incorporando a mudança ao longo do caminho, que se vai transformando - do dia para a noite, literalmente, depois outra vez para o dia. É uma angustiante experiência com o espaço: em grande parte do filme estamos dentro de uma carrinha; em outra grande parte estamos dentro de uma casa vazia, tacteamos a escuridão, com os gritos em fundo.

Se alguém filmasse no escuro o espectador de "Kinatay", como seria a sua expressão de rosto? Insondável, ambígua, culpada e inocente como está no rosto de um cadete da polícia?

"As pessoas podem ver um filme de terror e até ficarem assustadas. Mas eu não queria que as pessoas vissem o meu filme. Eu queria que as pessoas experimentassem o meu filme. Nas Filipinas, é comum esses casos de massacres e depois aparecerem os corpos. Lê-se nos jornais, mostram na televisão. Mas as pessoas já não sentem nada. É ''entertainment'. Eu quis que as pessoas sentissem que não é ''entertainment'", disse o brilhante Brillante Mendoza, é favor fixar este nome.

É uma viagem a que não se diz não a de "No One Knows about Persian Cats", do curdo, iraniano Bahman Ghobadi (Un Certain Regard). O título, explicou o realizador, refere-se ao facto de os gatos, e em geral os animais domésticos, não estarem autrorizados a passearem com os seus donos nas ruas de Teerão. Vivem "indoors". Assim também ninguém sabe o que se passa no "underground" da capital iraniana, em que se toca rock, heavy metal e hip hop, música que as autoridades consideram "impura" e que proibiram. Ghobadi, deprimido com a sorte reservada para os seus filmes (não estreiam, estão proibidos, ficam invisíveis), lançou-se numa espécie de catarse: tendo conhecido um casal de músicos, acabados de sair da prisão (por serem músicos) mas nada derrotados em relação ao desejo de conseguirem um visto e um passaporte que os permita tocar em festivais internacionais, montou, em 15 dias, improvisando um argumento, jogando às escondidas com a polícia, um "falso documentário". Isto é: é tudo verdade, as histórias que se contam, as pessoas que participam no filme (aconteceu-lhes a elas), e é tudo recriado. Com um indesmentível orgulho - mostrar a energia de uma cidade que se aloja nas caves, que está escondida nas casas - e com uma não menos indisfarçável tristeza. E "No One Knows about Persian Cats" é já um dos títulos acarinhados do festival. Mas é preciso dizer que, até pelas condições de rodagem e pela forma como lida com a ambiguidade do formato, essa existência da ficção como documentário e vice-versa, o filme tem a insustentável leveza de um guia turístico. Mesmo que seja pelo "underground"."

Vasco Câmara (Público)


E assim cá fico à espera deste "Kinatay".