Apichatpong Weerasethakul
Weerasethakul, para quem conhece, já se percebeu que é cineasta de alegorias, de fantasmas e crenças budistas. Cineasta de mitos e de memórias. E por isso, nada mas mesmo nada em Loong Boonmee raleuk chat é novo, nada é novidade para quem conhece o cinema deste peculiar cineasta tailandês. Tudo é alegórico, tudo é uma constante procura de materializar essa crença ou esses fantasmas do tailandês, tudo são memórias que ele quer explorar. Tudo tão próximo de um Angelopoulos ou de um Tarr (longos planos-sequência, morosos e distantes) ou de um Tarkovsky (o naturalismo acima de tudo). Enigmático? Sim. Estranho? Sim, muito estranho. Mas belo, fascinante (relativamente claro). Cinema fantástico? Talvez, a fantasia reina ali, a metáfora e a crença (ou descrença?) da reincarnação. Mas não será, porventura, uma fantasia qualquer, ou melhor, não é nada vulgar ou daquele cinema fantástico de Hollywood o que ali vemos. O que é então Loong Boonmee raleuk chat? Como o resto das obras de Weerasethakul, Loong Boonmee raleuk chat é uma procura de dissertar ou explorar a morte e a sua mistificação budista da reincarnação. Mas isto da reincarnação já foi explorado no Sud Pralad e no Sang Sattawat. Volto a dizê-lo, nada de novo. O que acontece aqui, mais do que em qualquer outro filme dele, é a indubitável presença da morte e da fragilidade humana, a condição humana sobretudo. Por isso temos a procura constante em mostrar os tratamentos médicos. Loong Boonmee raleuk chat é sobretudo uma fábula mágica ou sobrenatural da reincarnação, de resto só o título (Uncle Boonmee Who Can Recall His Past Lives em inglês) indica tudo. E como disse em cima, o tailandês serve-se de alegorias e de mitos para explorar a reincarnação, mas cria-as sem nos dar respostas (ou pelo menos evitando-as). O búfalo no início do filme e a princesa depressiva devido à falta de beleza física que entra na água e tem relações com um peixe (qual foi Boonmee, a princesa ou o peixe?) são metáforas ou espectros de vidas passadas de Boonmee. Quase no final, Boonme e a cunhada e o sobrinho exploram uma gruta que é dita por ele como uma tumba e como o local onde terá nascido pela primeira vez. Além disso, Weerasethakul traz a mulher de Boonmee (ou o seu espírito) falecida há 14 anos e o filho desaparecido há outros tantos (este como um macaco fantasma) para um jantar de família. Aquilo que consigo perceber destas “aparições” é que se trata das inquietações, ou como diz a princesa quando vê um rosto belo no reflexo da água, de ilusões ou delírios psicológicos de Boonmee (causa da proximidade da morte). E faz sentido, por isso depois vemos ele agarrar-se ao espírito da mulher a lhe perguntar como a encontrará depois de morrer. Uncle Boonmee Who Can Recall His Past Lives é uma fábula duma beleza indescritível sobre a reincarnação, sobre a mistificação desta e sobre a morte.






















