Mostrar mensagens com a etiqueta Apichatpong Weerasethakul. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Apichatpong Weerasethakul. Mostrar todas as mensagens

16 de fevereiro de 2011

Loong Boonmee raleuk chat (2010)
Apichatpong Weerasethakul

Weerasethakul, para quem conhece, já se percebeu que é cineasta de alegorias, de fantasmas e crenças budistas. Cineasta de mitos e de memórias. E por isso, nada mas mesmo nada em Loong Boonmee raleuk chat é novo, nada é novidade para quem conhece o cinema deste peculiar cineasta tailandês. Tudo é alegórico, tudo é uma constante procura de materializar essa crença ou esses fantasmas do tailandês, tudo são memórias que ele quer explorar. Tudo tão próximo de um Angelopoulos ou de um Tarr (longos planos-sequência, morosos e distantes) ou de um Tarkovsky (o naturalismo acima de tudo). Enigmático? Sim. Estranho? Sim, muito estranho. Mas belo, fascinante (relativamente claro). Cinema fantástico? Talvez, a fantasia reina ali, a metáfora e a crença (ou descrença?) da reincarnação. Mas não será, porventura, uma fantasia qualquer, ou melhor, não é nada vulgar ou daquele cinema fantástico de Hollywood o que ali vemos. O que é então Loong Boonmee raleuk chat? Como o resto das obras de Weerasethakul, Loong Boonmee raleuk chat é uma procura de dissertar ou explorar a morte e a sua mistificação budista da reincarnação. Mas isto da reincarnação já foi explorado no Sud Pralad e no Sang Sattawat. Volto a dizê-lo, nada de novo. O que acontece aqui, mais do que em qualquer outro filme dele, é a indubitável presença da morte e da fragilidade humana, a condição humana sobretudo. Por isso temos a procura constante em mostrar os tratamentos médicos. Loong Boonmee raleuk chat é sobretudo uma fábula mágica ou sobrenatural da reincarnação, de resto só o título (Uncle Boonmee Who Can Recall His Past Lives em inglês) indica tudo. E como disse em cima, o tailandês serve-se de alegorias e de mitos para explorar a reincarnação, mas cria-as sem nos dar respostas (ou pelo menos evitando-as). O búfalo no início do filme e a princesa depressiva devido à falta de beleza física que entra na água e tem relações com um peixe (qual foi Boonmee, a princesa ou o peixe?) são metáforas ou espectros de vidas passadas de Boonmee. Quase no final, Boonme e a cunhada e o sobrinho exploram uma gruta que é dita por ele como uma tumba e como o local onde terá nascido pela primeira vez. Além disso, Weerasethakul traz a mulher de Boonmee (ou o seu espírito) falecida há 14 anos e o filho desaparecido há outros tantos (este como um macaco fantasma) para um jantar de família. Aquilo que consigo perceber destas “aparições” é que se trata das inquietações, ou como diz a princesa quando vê um rosto belo no reflexo da água, de ilusões ou delírios psicológicos de Boonmee (causa da proximidade da morte). E faz sentido, por isso depois vemos ele agarrar-se ao espírito da mulher a lhe perguntar como a encontrará depois de morrer. Uncle Boonmee Who Can Recall His Past Lives é uma fábula duma beleza indescritível sobre a reincarnação, sobre a mistificação desta e sobre a morte.

28 de junho de 2010

Sang Sattawat (2006)






Sang Sattawat retoma a narrativa bifurcada que nos apresentou em Sud Sanaeha e Sud Pralad. Mas aqui Apichatpong cria um filme visualmente contemplativo, lírico e meloso. Sang Sattawat traz-nos, em determinados momentos, planos-sequência à Tarr, seja a contemplar a natureza, seja a admirar estátuas ou bustos de divindades e figuras célebres tailandesas. Dividido entre uma primeira parte feminina e uma segunda masculina, Sang Sattawat é filme sobre o tempo e sobre a memória (que é como quem diz sobre a reincarnação [como o é também Sud Pralad]). O filme é poético e lírico, mas é sobretudo uma reflexão sobre os costumes tailandeses (medicina tradicional e moderna, o budismo...). E das duas partes bifurcadas pelos mesmos momentos distinguidos pelo seu meio (primeira parte/feminino e rural, segunda parte/masculino e urbano), quase tudo se repete como uma reincarnação. Sang Sattawat é um olhar ambíguo para a sociedade tailandesa, o contraste entre o tradicional e o evolucional (aqui directamente ligados na medicina). É um filme belo, atractivo para quem gosta de cinema contemplativo, sensorial. Acima de tudo, Sang Sattawat dispensa linearidades e narrativas, define-se como um poema visual. Memórias.

14 de junho de 2010

Sud Pralad - Febre Tropical (2004)










Sud Pralad, ou Tropical Malady como é mais conhecido, vive do seu sentido naturalista. Ninguém filma a selva como Apichatpong Weerassethakul. Porque não é uma simples forma de filmar a floresta. Não, o tailandês filma com uma mestria inigualável os sons, a luz, as sombras. Quase que podemos sentir o vento que atravessa aquela floresta, a força naturalista daquelas imagens. Sud Pralad divide-se em duas partes (à imagem do que já acontecia em Sud Sanaeha) onde a segunda parte vem dar uma volta de 180 graus ao filme. Duma simples história de amor entre dois jovens (Tong,um camponês desempregado e Keng, um militar) partimos para uma odisseia de desejos e utopias, de lendas e mitos, de enigmas e descontruções narrativas. Mas sobretudo misterioso, sustentado pelo amor daqueles dois seres que, mesmo depois da "reviravolta" do género, subsiste no meio de todo o mito que "vive nas memórias dos outros". E o confronto final entre soldado/Keng e tigre/Tong é dos momentos mais sublimes que já vi no cinema. Obra-prima.

29 de janeiro de 2010

Sud Sanaeha (2002)








Primeiro filme que vejo deste tailandês cujo nome é quase impronunciável, Apichatpong Weerasethakul. Primeiramente que tudo, é um filme político. A imigração ilegal é o principal foco do tailandês. A história centra-se em três personagens fulcrais, Min (o tal imigrante birmanês), Roong (a namorada tailandesa) e Orn (uma mulher de meia idade que parece ser tipo protectora de Min). E Weerasethakul apresenta-nos estas três personagens antes dos créditos iniciais (convém referir que só passado 45 minutos é que estes são apresentados – algo inédito penso eu). Mas relativamente ao filme, existe sobretudo um teor político como já referi. Por outro lado, o filme vive duma forte conotação sexual (existe inclusive uma cena explícita onde Roong acaricia o pénis de Min). Roong abandona o trabalho sob o falso pretexto de estar doente e parte juntamente com Min para um local exótico com vista a ter uma tarde de romance e prazer. Orn trai o marido perto do local onde Min e Roong estão. Ou seja, o cineasta tailandês parece-me preocupado em explorar o momento, o prazer humano momentâneo, especialmente o prazer sexual, o clímax do momento. Mas o início do filme explora essa vertente política. Min tem uma doença qualquer da pele (é irrelevante qual), mas o importante é reparar que ele nem fala (a namorada alega que ele tem desde criança dores de garganta que o impossibilitam de falar). E não fala simplesmente para não revelar a sua verdadeira identidade, a nacionalidade. Antes de saírem do médico pedem um atestado de robustez física à médica, mas sem documentos é impossível diz-lhe esta. E onde estão os documentos? Portanto, o tailandês divide, quanto a mim, o filme em duas partes. A primeira parte (os primeiros 45 minutos que antecedem os créditos iniciais) onde ele incide nessa temática política, nessa problemática da imigração. A segunda parte reserva-nos essa exploração do desejo sexual. E aqui, Weerasethakul faz o elo de ligação entre o sexo e a natureza. Porque é no bosque onde os amantes (quer o jovem casal quer Orn e o amante) se entregam ao desejo sexual. E depois temos a beleza naturalista e paisagística do filme, a luz, a claridade. Tenho de descobrir mais profundamente este senhor.