6 de julho de 2012


Injustiçados…

“The Ox-Bow Incident” tem a intensidade e a asperidade e a implacabilidade dos mais duros e dos mais brutos do Ford ou do De Toth ou do Hawks, começa com a chegada e acaba com a partida de dois homens (um deles o grande Henry Fonda), abre com o mesmo plano e o mesmo enquadramento e o mesmo local que encerra (e o mesmo cão que se atravessa à frente na chegada e atrás na partida dos dois cowboys), mas no meio, bem dentro do meio desse monumento tão irascível e tão negro e tão imensamente feérico que é “The Ox-Bow Incident”, implode tudo e toda a tensão e toda a pulsão do mundo tal como Wellman a voltaria a implodir dentro daquela casa do “Track of the Cat” e arrasta durante uma hora e quinze minutos a inexorabilidade duma terrível sentença desde muito cedo decretada pela maioria daqueles homens. Corta-se a respiração e luta-se pela vida de três homens que logo sentimos serem inocentes, luta-se que é como dizer lutam sete daquela imensa falange de cowboys-civis cegos e sedentos de sangue e de vingança pela suposta morte dum rancheiro lá do sítio (Nevada, 1885). Volto a dizê-lo, corta-se a respiração e imerge-se no negro da noite e das trevas que a cegueira da vingança e da justiça pelas próprias mãos traz ao mundo, penetra-se no abafamento e na perpetuação desse abafamento do ar tais são as hesitações e as incertezas e os fantasmas e os gritos de demência e todos ele sedentos de sangue e de morte, irracionalidade e erraticidade a dominar o homem.

“The Ox-Bow Incident”, “Track of the Cat”, westerns tão bons e tão brutais quanto os melhores do Ford ou do Mann ou do Hawks, obras-primas marginais, esquecidos e injustiçados, coisas terríficas e selváticas que assombram o homem, “The Ox-Bow Incident” então é provavelmente o western mais aterrador e usurpador da alma humana, volátil e fugaz como as mais fugazes corridas de carros ou de motas, negro como os mais negros de Murnau, coisa feroz e irascível e veemente que brada pela lei e a ordem, que recusa tiranias e absolutismos de maiorias e impetuosidades repentinas. Não aos linchamentos e a tudo o que isso possa simbolizar, “The Ox-Bow Incident”, filme-irmão daquela que é a grande obra-prima de Lumet “12 Angry Men”, moralidade das moralidades - até o mais vil dos criminosos tem direito a defender-se e tem direito à justiça - a lei não é só umas palavras escritas no papel, faz parte da consciência do homem, a carta de Donald Martin diz tudo e tudo irá perpetuar na vida daqueles homens, será o peso da ceifadela daquelas três almas inocentes que todos (todos menos sete como perto do final diz Arthur Davies ao xerife) carregarão na consciência até ao fim das suas vidas.

Luz e contra-luz e sombras fantasmagóricas que tudo apavoram naqueles momentos aterradores daquela noite interminável para Martin e os outros dois, nada mais pode ser feito quando a maioria está cega e dominada pelo ódio e pelo desejo de vingança que dissemina todo o medo do mundo naqueles três homens, são rostos e corpos fulminados e vilipendiados pelos feixes de luz e pelas sombras da escuridão que nada mais fazem senão mostrar todo o medo e todo o ódio do mundo, é a luz do humanismo que pouco ou nada pode contra a escuridão do ódio e da vingança, é a justiça a perder-se na imensidão da intempestiva ânsia da morte e do castigo que tudo cega e tudo lança nas trevas da injustiça e do arrependimento. Máximo realismo, classicismo total.

Já não se fazem coisas destas em Hollywood, nada desta matéria e desta rugosidade terrífica e ensurdecedora que fez de Hollywood o centro do mundo do cinema, já não há destes raccords e destas découpages e destes planos e enquadramentos e movimentos de câmara que tudo dizem e tudo mostram sem recorrer à “pornografia” das imagens e dos movimentos que tudo querem mostrar e nada mostram porque imergem no vazio e na inutilidade do seu cinema e dos seus embelezamentos, mil Finchers ou mil Nolans ou mil Spielbergs e nunca assim chegariam a Wellman, à negrura e à irascibilidade e à implacabilidade e à dureza e à forma da sua câmara e do seu cinema. Wellman, um dos grandes esquecidos e injustiçados…

3 comentários:

João Gonçalves disse...

Mais um para ver. Bom texto, muito bom texto, Álvaro!

O Narrador Subjectivo disse...

Excelente! Para mim, o melhor western de sempre. Gostei muito do texto. Abraço

Álvaro Martins disse...

Obrigado aos dois.