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29 de maio de 2011

A Corte do Norte (2008)
João Botelho

João Botelho, cineasta do tudo ou nada, faz com A Corte do Norte aquilo que Oliveira faria, ou seja, ali é tudo Botelho a revisitar Oliveira. Não conheço o romance de Agustina Bessa-Luís, por isso não posso falar de hipotéticas fidelidades ou não à obra literária, nem me interessa discutir isso. Como obra cinematográfica A Corte do Norte é uma tragédia obscura, filme de época, que pisa terrenos Oliveirescos (e Viscontianos) onde o rigor estético dos décors, do guarda-roupa e da narrativa imperam. História de uma mulher ou o olhar sobre essa mulher e o que a sua conduta deixou de herança. Coisa romanesca, barroca, duma beleza hipnótica, tão perto do realismo como da fantasia ou do onirismo, atenção desmesurada aos planos e à sua disposição pictórica, o tal rigor da fotografia, da representação da teatralidade. A mise-en-scène.

13 de agosto de 2009

Tráfico (1998)

Um filme de João Botelho















"O dinheiro faz as pessoas ficar bem dispostas. É comum dizer-se que a mais importante das coisas é o amor. Os pobres sabem perfeitamente que é o dinheiro. Os sons do campo podem invadir a cidade e um personagem secundário pode tornar-se principal desde que a luz incida nele.

Filmar ideias com a noção exacta de que há um reino que o cinema nunca chega a conquistar - o da abstracção pura.


Impuro e complicado, promíscuo com os outros modos artísticos, "arte" e comércio, ou melhor, nem arte nem vida (qualquer coisa entre), o cinema que eu amo, velho de cem anos, tenta resistir às ameaças de morte que o cercam. E se é para morrer, porque não morrer a rir?


Quando me sentei para escrever este projecto de filme, comecei a organizar uma comédia frívola e extravagante, adequada a este final de século: uma serpente calculada, com a cauda enfiada na boca. A associação rápida e explosiva de coisas que se encontram na viagem da construção das ideias, matou-me o calculismo. Os fios esvoaçaram agitados e a teia estremeceu. O que me confirmou que qualquer lei vinda do exterior significa prisão e morte. E em vez da serpente de escamas coloridas encontrei-me com uma cebola sem centro, cuja primeira camada esconde a segunda, a segunda esconde a terceira e assim sucessivamente. Menos e mais do que uma comédia, uma farsa.


O que tenho entre mãos? Um filme de aventuras que atravessa o meu país, desde uma praia fora de estação a Sul até um aterro de lixo a Norte, com Lisboa como centro? Um filme negro em volta dos mais variados tráficos, sinais e fonte principal de riqueza nos anos que correm? Um drama político sobre os esquivos tempos que atravessamos, em que nada é seguro?

Exercícios cinematográficos sobre ideias distintas de "raccord"? Ou, outra vez, uma comédia cor-de-rosa sobre todos os tráficos à face da Terra? O cinema são muitas coisas. Que viva o cinema! Tudo já foi dito, mas como ninguém ouviu temos de estar sempre a voltar ao princípio."


João Botelho


23 de maio de 2009

Tráfico (1998)

Um filme de João Botelho




Qual Antonioni e seu escárnio pela burguesia, Botelho alude a Tati e cria uma sátira hilariante e fabulosa à sociedade, aos ricos, aos pobres, à falsidade.

Como diria Nuno Melo a dada altura da fita, “Temos orvalho”.