1957, Banka, Heinosuke Gosho
das intermitências...
30 de março de 2025
Sobre au fond des bois do jacquot, filme assombroso que remete para o desejo mas que se desdobra numa complexidade notável, é de realçar a forma como o cineasta francês explora o poder da sedução e a fragilidade do seduzido; numa metamorfose desenvolvida progressivamente, que parte do fantasmático e do encantamento, au fond des bois analisa a capacidade do poder mental (e do olhar) e da altercação do poder; se é timothée quem rapta e força joséphine a segui-lo e a ter relações com ele por meios encantatórios, progressivamente observamos a passagem do comando dele para ela, sugerida mais tarde pelo fórceps hipnótico de joséphine desafiar a dor e a morte, culminado no final de ascendência “joséphiniana”; é nessa alternância (que se estende à temporalidade e à sociedade em si, tendo joséphine como símbolo dessa evolução social), na fragilização do raptor/feiticeiro (o feitiço mata o feiticeiro) pela crescente obsessão por joséphine, como se à medida que o desejo se torna amor a fragilização acontece, que au fond des bois se revela na sua maestria, deixando-nos ainda no final a dúvida de ter sido sempre ela a sedutora; magnífico!
29 de março de 2025
1987, Matewan, John Sayles
| carvão vermelho |
Em matewan, filme de mineiros (ou sobre eles) e da luta de classes, longe daquele lirismo e daquele sentimentalismo do ford de how green was my valley, mas próximos do realismo do malick do days of heaven e do pioneirismo do cimino de heaven’s gate ou do huston de sierra madre, o folk é a perfeita sonorização para um filme de época em transição do velho oeste para uma era progressiva.
Op sumptuosa que na sua crueza oscila entre o western e o que se lhe seguiu, estamos ainda naquela américa mítica dos caminhos de ferro, mas também dos xerifes e alguns cavalos, américa profunda ao sul (west virginia), embarcamos nessa transição do velho oeste para o novo onde a máquina capitalista está em seu pleno furor; conjuntura política que definiria o que (ainda) são hoje os estados unidos, falamos do ressurgimento socialista e do apogeu comunista um pouco por todo o mundo, revolução russa, alemã (falhada), na itália seriam esmagados pelo aparecimento do fascismo, é sobretudo bakunin quem é citado por joe, um anarquista a servir de modelo a um sindicalista chamado de vermelho (comunista); é no sindicalismo que o novo vem substituir o velho, ou na luta dele, o sentido pioneiro de todo o filme abarca não só a sua ambiência e o seu espaço como também esse detalhe da temporalidade, que aqui é dual com essa transição - e matewan está no epicentro dessa transição.
Ora, se o velho oeste ainda lá está enraizado em matewan, cidade mineira que à exploração está habituada, quase tudo pertence à companhia mineira, os direitos são trabalhar e calar, a desumanização do trabalhador, é nessa sindicalização que o progresso se faz ver, inclusive na erradicação do racismo que apenas serve como factor divisório do trabalhador, é a luta de classes que é priorizada, os homens dividem-se em dois diz joe: os que trabalham e os que não; é portanto no realismo que matewan se apresenta, no realismo e na luta social num sul ainda a braços com a sua transformação.
A igreja, a fé, isso surge ainda em matewan como catalisador (e prova da conciliação) da luta de classes, como se a fé renovasse as forças (e a clarividência: lembremos o momento em que danny salva joe através da pregação na missa) daqueles trabalhadores ameaçados e escravizados pelo capital, como se ela, a fé, fosse o catalisador dessa resistência pela justeza laboral e social e assim gritasse ao mundo: não, a fé não é inimiga da classe trabalhadora!
28 de março de 2025
1955, Un eroe dei nostri tempi, Mario Monicelli
| la paura |
Sordi em un eroe dei nostri tempi personifica na sua plenitude a desprezibilidade no homem, interpretação magnífica a atestar a sua grandiosidade como actor, o eterno cobarde e neurótico-maníaco que rege a sua vida segundo um medo incompreensível e uma timidez risível, fruto da criação/educação de mãe e tia; monicelli faz de un eroe dei nostri tempi uma sátira extremamente divertida e fluente, nada devendo às screwball comedys americanas, onde a flutuação entre o anedótico e a análise político-social (a crítica ao capitalismo está lá, à autoridade também) convivem em perfeita sintonia.
Monicelli é daquela nata de cineastas italianos que são muitas vezes esquecidos e depreciados face aos consagrados, no entanto ofereceu-nos autênticas ops assombrosas como é o caso deste la grande guerra; entre o neoralismo e a comédia, monicelli consegue em la grande guerra, como em tantos outros filmes seus (i compagni por ex), humanizar os seus personagens oscilando entre a coragem e a cobardia, a honra e a vileza, o patriotismo e a ausência dele; magnífico.
26 de março de 2025
Em miséricorde, guiraudie adentra-se pelo reino da bizarria e do surrealismo por portas realistas, nas quais o emaranhado pseudo-filosófico escatológico culminado naquele diálogo entre padre e assassino à beira de um penhasco oscila entre o simbolismo e o psicologismo; objecto falhado, miséricorde busca uma espécie de efabulação da perversão e da danação do ser humano, tentando assim adentrar na obscuridade da sua natureza e dos seus desejos primários; mas é na construção desse vórtice, que se inicia no ciúme e no realismo para culminar na bizarrice e na condenação da humanidade, que miséricorde se perde, nunca se encontrando a si próprio nem ao seu pretenso surrealismo.
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Qual o melhor filme de Hitchcock? Estou dividido entre o Rear Window e o Spellbound .