9 de junho de 2011

Le Trou (1960)
Jacques Becker

Le trou é filme máximo, coisa quase perfeita, lapidado a bruto, beleza quase tão bela quanto o filme do Bresson mas mais realista e mais lúcido não nos detalhes e na minuciosidade, aí tão igual tão similar ao Un Condamné..., mas sem a fé na redenção que o filme do Bresson tem, mais duro mais preocupado com a liberdade. A arte de filmar, de observar, dos detalhes, de contar uma fuga (ou o que restou dela)...

8 de junho de 2011

Wanda (1970)
Barbara Loden

Wanda, filme de culto não só por ser a única longa-metragem dessa mulher que teria muito mais a dar não lhe fosse ceifada a vida por um cancro em 1980 (assim como a sua carreira de cineasta que além deste Wanda nada mais viu a luz do dia, excepto duas curtas-metragens em 75), mulher ou esposa de um dos grandes nomes do cinema clássico norte-americano, Kazan, mas também porque Loden faz com Wanda o que Kazan não fez em nenhuma das suas obras. Em Wanda é tudo tão cru e tão arcaico ou anacrónico, rudimentar, coisa com grão que é coisa que desagrada à maioria dos cinéfilos (ou àqueles que se julgam cinéfilos), sem embelezamentos visuais, sem quaisquer resquícios de sensacionalismos ou de facilitismos. É tudo tão desmesuradamente real, forte, psicologicamente violento, sombrio e tão prestes a eclodir toda essa violência. Subversivo. Mas nada de violento se passa, ou de explicitamente violento, até porque de violento só mesmo Mr. Dennis. Em Wanda encontramos o que parece ser uma mulher letárgica, frustrada, desolada, sem rumo, uma alma perdida e errante (assim como Mr. Dennis), apostada em ser “levada” ou “arrastada” pelos homens com quem se relaciona, uma mulher que procura refúgio ou um certo tipo de liberdade nos homens que encontra, nas relações que assume com tanta facilidade, como se procurasse uma companhia mas quisesse sempre a sua liberdade que afinal não é mais do que a sua letargia, coisa duma dissidente que não sabe o que quer, que acredita que é melhor estar morta (como diz a dada altura), que vagueia sem rumo atrás daquele homem que lhe rouba as réstias dalguma dignidade e moralidade que ainda tinha. Wanda é literalmente uma inútil (novamente palavras dela), mulher que não se importa com o divórcio e que relega a tutela dos filhos ao pai - eles estão melhor com ele - diz ela. Como diria Mozos, Wanda “é um retrato frágil e singular, magnífico e vigoroso de uma sociedade triste e pardacenta, indiferente aos loosers que ela própria criou e que não se encaixam no American Way of Life.” O final, aquele final tão brutal quanto o próprio filme e sobretudo quanto toda a caminhada de Wanda para esse final onde naquele momento todo o terror da consciencialização da sua realidade e da sua própria letargia e erradicação do mundo e da sociedade é coisa tão brutal quanto lírica, tão dolorosa quanto bela, tão cheia de resignação quanto de sacrifício. Wanda é filme de culto porque é mais que um simples filme, é uma das melhores obras que já se fez na América.

6 de junho de 2011

Les Favoris de la Lune (1984)
Otar Iosseliani

O cinema de Iosseliani parece-me, ao cabo de três filmes vistos (mas particularmente neste), assentar as suas raízes ou influências cinematográficas nesse grande senhor da comédia pantomímica que foi Tati. Aquilo que me parece, também, é de que o seu cinema é feito de sarcasmos, de sátiras ao ser humano e à sua inerente obsessão no materialismo acima de tudo, coisa mordaz e burlesca sobre o ser humano. Les Favoris de la Lune é uma comédia burlesca como Jardins en Automne, filme de planos-sequência e de absoluta mestria em cruzar histórias e personagens nesses planos-sequência, no ritmo, no absurdismo de tudo, um prodígio da mise-en-scène.

5 de junho de 2011

Tarkovsky

Offret
Stalker
Nostalghia
Zerkalo
Solyaris
Ivanovo Detstvo
Andrey Rublyov
Katok i Skripka
Segodnya Uvolneniya ne Budet

*não quer dizer que daqui a uns tempos a ordem seja a mesma.

2 de junho de 2011

Attenberg (2010)
Athina Rachel Tsangari

Há em Attenberg um força tão incontrolável, tão incomensurável que nos arrasta para uma filosofia primitivista e sobretudo limitadora da condição humana e da animalização do homem. Há, no entanto, muito mais de melancolia e de sentimento pueril ainda que escondido na estranheza e no insólito das relações inter-pessoais daquelas três personagens. À semelhança das de Kynodontas, também aqui aquela gente parece viver num mundo idílico criado por eles, ainda que aqui se confronte (e aceite) todo o prazer carnal ou libidinoso do ser humano. Contudo, é a morte que assombra quase a totalidade do filme, que paira sobre aquelas personagens e as molda. Porque é a aproximação da morte do pai que faz Marina perder toda a timidez e, essencialmente, toda a repulsa pelo sexo (em especial pelo órgão sexual masculino), é a certeza da chegada da morte que a faz ter certas conversas com o pai, que a faz pedir aquele favor a Bella. À primeira vista Attenberg poderá parecer um filme frio, coisa que não é. Eu diria que é um filme seco, dissimulado, mas frio não. Aquele final afasta qualquer ideia de frieza, bem como toda a conduta de Marina para com o pai (ou para com a morte que pouco a pouco galga no pai). Há ali muito amor paternal, muita compaixão (embora ela a rejeite - à compaixão - a determinada altura), muita ternura na forma como apresenta aquela jovem que nunca sequer um beijo deu. Mas o que há, principalmente, é a metáfora duma limitação do ser humano à sua animalização e consequentemente a descoberta daquilo que de mais animalesco o ser humano tem (o sexo) e a reflexão à sua condição humana, a morte. A aceitação tanto duma coisa como doutra.