2 de dezembro de 2009

Andrey Rublyov (1966)

Um filme de Andrei Tarkovsky





















Existe uma beleza indescritível em cada uma das obras de Tarkovsky. Uma beleza poética, penetrante e introspectiva em cada frame, cada take, cada movimento de câmara do russo. O cinema de Tarkovsky extravasa essencialmente fé. A constante procura da fé, do espírito. E “Andrey Rublyov” é sobretudo a procura da fé. Mas a fé nunca caminha sozinha. Até porque a razão é inimiga da fé.
O cinema de Tarkovsky, tal como o de Bergman, reflecte acima de tudo no existencialismo. A questão filosófica está presente em todo o cinema de Tarkovsky. E é esteticamente perfeito. Cada uma das obras de Tarkovsky é um exemplo perfeito do cuidado, da precisão com que o cineasta se preocupava. E além de tudo o que possa ser exaltado no cinema do russo, a beleza estética e contemplativa com que Tarkovsky nos brinda é qualquer coisa de fenomenal. Mas “Andrey Rublyov” é talvez a sua obra mais simbólica religiosamente. Aqui, Tarkovsky reflecte, mais do que em todas as suas restantes obras, na utopia católica. Em “Andrey Rublyov”, o russo explora o misticismo religioso e disserta mais uma vez na grande questão que percorre todas as suas obras cinematográficas, o espírito. A biografia de um pintor que mostra uma visão mais operária do artista. “Andrey Rublyov” é acima de tudo um poema em cinema, uma expressão da vida e do tempo espiritual.

19 de novembro de 2009

Vozvrashcheniye – O Regresso (2003)
Andrei Zvyagintsev

Se pensarmos num filme como simples objecto de pura diversão, então tanto nos faz ver um filme como uma novela ou como os programas televisivos. Pura diversão, para quem se diverte com tais produções quer cinematográficas quer televisivas. Mas se pensarmos num filme como uma obra, como um produto de reflexão em determinada linha do pensamento humano, aí teremos cinema a sério. E é isto que Zvyagintsev faz com “O Regresso”. Obra de extrema importância nos dias que correm, “O Regresso” trata do relacionamento. Um pai ausente volta a casa e decide levar os dois filhos para uma viagem que supostamente duraria dois dias onde o principal objectivo seria o de cimentar a relação pai/filhos e recuperar o tempo perdido. Portanto, desde logo nos apercebemos que Zvyagintsev reflecte na ausência, na procura de uma recuperação da figura paternal. E logo na noite que precede a chegada do pai somos confrontados com a diferença de atitudes dos dois irmãos. Andrei (Vladimir Garin) deseja ser aceite, agradar ao pai, enquanto Ivan (lvan Dobronravov) é o oposto, o rebelde, o indisciplinado, rancoroso e sobretudo confuso em relação ao pai. Quem é ele na verdade? O que faz? O que quer de nós ao fim de doze anos de ausência? Perguntas que fazem com que Ivan adopte uma postura rebelde e desafiadora para com o pai. E logo quando chegam a casa, mesmo antes do jantar onde o pai, frio e distante, lhes comunica que irão viajar no fim-de-semana, mesmo antes dessa noite onde nos apercebemos das diferentes posturas face ao pai, logo aí após o irem espreitar ao quarto eles correm para o sótão e procuram num baú uma fotografia antiga com a finalidade de comprovarem a veracidade do facto, é o nosso pai. A própria conduta do pai leva a esse conflito de pai e filho, a tentativa rígida e dura que o pai tenta adoptar perante os filhos leva a essa atitude rancorosa e rebelde de Ivan, leva ao acordar de uma amargura adormecida provocada pela ausência dessa figura paternal. Mas esta figura paternal que se revela dura, ríspida e fria tem no fundo o devido amor de um pai pelo filho. Tem sobretudo nas suas acções o objectivo de fazer deles homens, capazes de enfrentar o mundo. Este pai que retorna ao fim de doze anos quer essencialmente começar de novo. E Ivan sofre acima de tudo de falta de afecto. A história que desde o início se prevê trágica desenvolve-se sob um minimalismo brilhante e contemplativo que faz lembrar Tarkovsky.
E por falar em Tarkovsky, desde o início que descobrimos a sua influência, o seu naturalismo, o seu minimalismo, o seu caos desolador de “Stalker” e de “Solyaris”, a sua contemplação pela beleza paisagística. Depois há o rigor estético, a beleza de Sokurov. E há Tarr em determinados planos, há Hitchcock no ambiente claustrofóbico que se vai criando ao longo da obra e há Ozu no enquadramento da câmara.
Zvyagintsev cria simbolismos e evoca Dante e a sua “Divina Comédia” na viagem dos dois irmãos pelo lago (simbolizando o rio do esquecimento de Dante). E “O Regresso” lembra Dostoyevsky e a sua derradeira obra “Os Irmãos Karamazov”, porque até no Ivan está a semelhança, na sua amargura para com a vida, na sua constante rebeldia e rancor, na relação com a morte do pai e na culpa moral que resulta da tragédia. E de novo a semelhança com Tarkovsky na procura da fé, no simbolismo das imagens.
Zvyagintsev quer essencialmente reflectir no peso psicológico e moral que aquela ausência causou em todas as partes envolvidas. A consequência da ausência, a tentativa do recomeço, o relacionamento resultante dessa ausência. Obra-prima.