6 de setembro de 2009

Lakposhtha Hâm Parvaz Mikonand – As Tartarugas Também Voam (2004)

Um filme de Bahman Ghobadi






Como disse Luís Miguel Oliveira, “As Tartarugas Também Voam” é um filme que nos conduz ao fim do mundo. E com toda a razão, porque o filme de Ghobadi é sobretudo pessimista, assente num carisma apocalíptico e desolador de um Iraque invadido. Ghobadi reflecte no destino dos curdos, na sua condição enquanto povo que sofre numa guerra, na miséria que uma guerra provoca.
E o cineasta curdo traz para a tela “a ferida” de qualquer guerra, traz uma realidade trágica e chocante resultante de uma guerra nefasta. Mais do que a quantidade de mortos que uma guerra possa sentenciar, é a dura e triste realidade das crianças e adolescentes na sua incessante luta pela sobrevivência em tempos acerbos que nos choca. Mas Ghobadi evita ao máximo uma abordagem política ainda que existam momentos em que isso é impossível. “As Tartarugas Também Voam” é acima de tudo um filme poético, onde o belo e o horror de uma guerra se misturam, onde a crueldade e a esperança estão lado a lado. Mais um grande filme desse cinema iraniano que tanto me fascina.

31 de agosto de 2009

E hoje apeteceu-me recordar

Sétima Legião - Noutro Lugar e Sem Ter Quem Amar ao Vivo



Sétima Legião - Por Quem Não Esqueci ao Vivo

How Green Was My Valley (1941)

Um filme de John Ford










“(…) À época, pareceu viragem de 180° que o «revoltado» Ford das Vinhas da Ira (que não chegou a ser título português de The Grapes of Wrath porque a censura se encarregou de o proibir) aparecesse em How Green Was My Valley a defender os valores menos associados à revolta: Deus, Pátria e Família. É neste filme que Donald Crisp chama à greve «socialist nonsense», recusando-se a aderir a ela e tentando proibir os filhos de o fazer. A discussão azeda em torno da velha mesa patriarcal. E o Pai proíbe que ela continue. Quem quiser coisas dessas não tem lugar naquela casa. E é então que, um a um, os cinco filhos mais velhos se levantam e saem. Fica só o mais novo – Roddy McDowall –, criança ainda, e fica um enorme silêncio perante aquele primeiro «assassinato do pai». Depois, o miúdo tosse e, sem o olhar, Donald Crisp diz muito devagar: «Yes, my son, I know you are there.»
(…) Desde o início, o filme é inscrito numa soberana harmonia entre o olhar e o olhado, entre o dito e o visto. Recorrendo à voz off de uma criança (como em tantos outros filmes dos forties) a magia começa quando o narrador começa a evocar a vida que se vivia cinquenta anos antes. E sobre as imagens da única rapariga da família – Maureen O’Hara – e do pai com a mão pousada sobre o ombro do filho (imagem que voltará com outras, no final, num efeito de recorrência tão típico de Ford) ouvimos os cânticos do País de Gales e ouvimos o miúdo dizer que «cantar está para o meu povo, como ver está para os olhos».
Depois, essa tão grande nostalgia que todo o filme «respira» é dada em breves planos do quotidiano (o dinheiro que os filhos ganham a cair no avental da mãe, os banhos, as refeições, a rapariga crescida no meio de homens sem falsos pudores). Nunca, talvez, uma figura de «passado indefinido» tenha sido tão poderosamente criada em cinema. Tudo o que vemos no presente ao passado pertence, tudo o que sucede é já efémero e perecível. Dantes (um dantes anterior ao próprio filme) fora a imobilidade do vale. Há 50 anos, tudo tinha começado a mudar e Roddy McDowall é a última testemunha dessa transição fatal e letal. Como diria Augustina, há coisas que fazem tanta pena. Todo o filme está nessa pena, nesse espaço «entre».
Ao princípio, é o primeiro casamento. Bronwen (Anna Lee), a tão bela Bronwen, vem para casar com um dos filhos do vale. E o miúdo diz-nos que imediatamente se apaixonou por ela. It’s perhaps foolish a child being in love, mas aconteceu. E esse casamento – sem que ninguém o saiba – é o último «momento verde» da vida da família, com a portentosa festa e a portentosa alegria.
(…) Quem disser que este filme é reaccionário é porque nada sabe do sagrado. Filmado com a luz de Dreyer, em torno da mesma linha fundamental (as verticais) How Green Was My Valley é a obra que mais comoventemente mostrou, em acções concretas e planos americanos, sentimentos tão simples – ou tão complexos – como a dignidade, a liberdade e a frontalidade.
Nunca deixarei de me espantar com olhar tão limpo e tão límpido. Como Roddy McDowall diz do pai, nenhum filme me existe na memória tão real como na vida, amando e amado sempre.
E não há filme que me faça mais saudades.”


João Bénard da Costa