Central do Brasil (1998)
Walter Salles
Central do Brasil é filme da descoberta. Tudo o que se queira chamar de compaixão, de amizade, de afecto, tudo que se possa assemelhar a isso está lá, ali naquele Brasil do nordeste, das aldeias e do fim do mundo. Tanto humanismo que se rejeita naquela azáfama citadina e que se (re)descobre naquela viagem , tanta ternura no meio de tanta miséria.
Central do Brasil é uma história do reencontro interior, duma segunda oportunidade, da reconquista da alma, da perda do medo dos fantasmas do passado, a procura do afecto e da aniquilação da solidão interior. Coisa simples que abrange o mundo, a humanidade, o tempo.
Central do Brasil é qualquer coisa tão bela e tão emotiva que a poucos é possível. Beleza cristalina da candura da infância que força a descoberta ou a auto-descoberta, o tempo que arrasta a ternura e esse humanismo tão presente como tão tempestuoso, relação tempestuosa entre aquela professora reformada e aquela criança que perde a mãe tão brutalmente e abruptamente que culmina nessa conquista desses laços tão fortes e tão sólidos que naquele final se revelam, a beleza daquela poeira amarela do nordeste brasileiro, da desertificação do nordeste, das localidades. A busca daquela criança pelo pai é a fé e a esperança que desapareceu em Dora, causa do tempo, da dor que o tempo traz, da resignação que o ser humano normalmente aceita. Aquela viagem é essa redescoberta da esperança, do amor paternal, da rejeição do esquecimento. Provavelmente o melhor filme brasileiro que vi até hoje.