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29 de junho de 2009

"Deus é uma suposição. (...) Se existissem deuses como suportaria eu não ser um deus? Portanto não há deuses."
F. Nietzsche

8 de maio de 2009

"A Igreja é exactamente aquilo contra o qual Jesus pregou e contra aquilo pelo qual ensinou os discípulos a lutarem"
A Vontade de Poder
Friedrich Nietzsche

"Tudo evolui; não há realidades eternas: tal como não há verdades absolutas"
Humano, demasiado Humano
Friedrich Nietzsche

"A serenidade e a vitalidade da nossa juventude baseiam-se em parte no facto de que nós, ao subirmos a montanha, não vermos a morte, pois ela encontra-se do outro lado da encosta"

"Os homens estão empenhados mil vezes mais em adquirir riqueza do que formação espiritual; no entanto, seguramente, o que se «é» contribui muito mais para a nossa felicidade do que o que se «tem»."
Aforismos sobre a Sabedoria da Vida
Arthur Schopenhauer

"O homem tem duas faces: não pode amar ninguém, se não se amar a si próprio"
A Queda
Albert Camus

"O casamento feliz é e continuará a ser a viagem de descoberta mais importante que o homem jamais poderá empreender"
Conversa sobre o Casamento
Soren Kierkegaard

17 de março de 2009

MORAL COMO CONTRANATUREZA


1

"Todas as paixões têm um tempo em que são meramente nefastas, em que aviltam suas vítimas com o peso da estupidez; e um tempo posterior, muito posterior, em que se casam com o espírito, em que se "espiritualizam". Outrora, em virtude da estupidez na paixão, combatia-se a própria paixão: conjurava-se para a sua aniquilação. Todos os antigos monstros da moral são unânimes quanto a isso: "il faut tuer les passions". A formulação mais famosa desta sentença encontra-se no Novo Testamento, naquele Sermão da Montanha, no qual, dito de passagem, as coisas não foram consideradas de modo algum desde o alto. Aí mesmo, por exemplo, diz-se com respeito à sexualidade: "Se teu olho te escandaliza, arranca-o fora". Por sorte nenhum cristão age segundo este preceito. Aniquilar os sofrimentos e os desejos, apenas para evitar sua estupidez e as consequências desagradáveis de sua estupidez, apresentasse-nos hoje como sendo mesmo apenas uma forma aguda desta última. Não passamos a admirar mais os dentistas que arrancam os nossos dentes, para que eles não doam mais... Por outro lado, é preciso confessar com alguma equidade que, sobre o solo de crescimento do Cristianismo, o conceito de "Espiritualização da Paixão" não podia ser concebido de forma alguma. Como é de facto reconhecido, a igreja primitiva lutou contra os "Inteligentes" em favor dos "Pobres de Espírito": como seria possível esperar dela uma guerra inteligente contra a paixão? - A igreja combate o sofrimento através da extirpação em todos os sentidos: sua prática, seu "tratamento" é o da castração. Ela nunca pergunta: "como se espiritualiza, se embeleza, se diviniza um desejo?" Em todos os tempos, ela pôs a ênfase da disciplina na supressão (da sensibilidade, do orgulho, do desejo de domínio, de posse e de vingança). - Mas atacar os sofrimentos na raíz é o mesmo que atacar a vida na raíz: a praxis da igreja é inimiga da vida...


3

A espiritualização da sensibilidade chama-se amor: ela é um grande triunfo sobre o Cristianismo. Um outro triunfo é a nossa espiritualização da inimizade. Ela consiste em se compreender profundamente o valor que possui o facto de se ter inimigos. Em resumo: frente ao modo como se agia e concluía outrora, se age e conclui agora inversamente. A igreja sempre quis, em todos os tempos, a aniquilação dos seus inimigos: nós, imoralistas e anticristãos, vemos nossa vantagem no facto de que a igreja subsiste... No campo político, a inimizade também se tornou agora algo mais espiritualizado. Muito mais prudente, muito mais meditativo, muito mais cuidadoso. Quase todos os partidos compreendem que os interesses de sua autoconservação apontam para a necessidade dos partidos opositores não perderem suas forças; o mesmo vale para o grande político. Uma nova criação sobretudo, algo como um novo império, tem os inimigos como mais necessários do que os amigos: somente na oposição ele se sente necessário, somente na oposição ele se torna necessário... Nós não nos comportamos de modo diverso frente ao "inimigo interior": também aí espiritualizamos a inimizade, também aí compreendemos seu valor. É preciso ser rico em oposições, e só pagando esse preço que se é fecundo; só se permanece jovem sob a pressuposição de que a alma não se espreguiça, não anseia pela paz... Nada nos parece mais estranho do que o que era desejável outrora, o que era desejável para o cristão: a "paz da alma". Nada nos deixa menos invejosos do que a vaca moral e a felicidade balofa da boa consciência. Renunciou-se à vida grandiosa quando se renunciou à guerra: Em muitos casos, por sorte, a "paz da alma" é apenas um mal-entendido, - algo diverso que apenas não sabe se denominar de um modo mais honroso. Sem rodeios e preconceitos, aqui temos alguns casos. A "paz da alma" pode ser, por exemplo, a irradiação suave de uma animalidade rica no interior do campo moral (ou religioso). Ou o começo da fadiga, a primeira sombra que a noite lança, qualquer tipo de noite. Ou um sinal de que o ar está húmido, de que o vento sul se aproxima. Ou a gratidão inconsciente por uma digestão feliz (às vezes chamada "amor aos homens"). Ou a aquietação do convalescente, para o qual todas as coisas possuem um novo sabor, e que espera... Ou o estado que segue a um intenso apaziguamento da nossa paixão dominante, o bem-estar de uma saciedade rara. Ou a senilidade da nossa vontade, dos nossos desejos, dos nossos vícios. Ou a preguiça, convencida pela vaidade a adornar-se moralmente. Ou a entrada em cena de uma certeza, mesmo de uma certeza terrível, depois da tensão e do martírio produzidos pela incerteza. Ou a expressão da maturidade e do domínio em meio ao agir, criar, efectivar, querer, o respirar tranquilo, a "Liberdade da Vontade" alcançada... Crepúsculo dos Ídolos: quem sabe? Talvez também apenas um tipo de "Paz da Alma"..."
Friedrich Nietzche
"Crepúsculo dos Ídolos"

29 de janeiro de 2009

"O cristianismo desenvolve-se num terreno absolutamente falso, onde toda a natureza, todo valor natural, toda a realidade, tinham contra si os mais profundos instintos das classes dirigentes, uma forma de inimizade para com a realidade, inimizade de morte que ainda ninguém ultrapassou. O "povo eleito", que para todas as coisas apenas conservara valores de padres, palavras de padres, e que separou de si, com uma lógica implacável, como coisa "ímpia, mundo, pecado", tudo o que restava ainda de potência sobre a Terra, este povo criou, para os seus instintos, uma última fórmula, consequente até à negação de si próprio: acaba por renegar, no cristianismo, a última forma da realidade, o "povo sagrado", o "povo dos Eleitos", a própria realidade judaica. O caso é de primeiríssima ordem: o pequeno movimento insurrecional, baptizado com o - nome de Jesus de Nazaré, é uma repetição do instinto judaico, por outras palavras, do instinto sacerdotal que já não suporta a realidade do padre; é a invenção de uma forma de existência ainda mais retirada, duma visão do mundo ainda mais irreal do que aquela que a organização da Igreja estipula. O cristianismo nega a igreja.
Não vejo contra quem pudesse ser dirigida a insurreição da qual Jesus, talvez sem razão, passou por ser o promotor, senão contra a Igreja judaica, Igreja tomada exactamente no sentido que hoje damos a essa palavra. Era uma insurreição contra "os bons e os justos", contra os "Santos de Israel", contra toda a hierarquia da sociedade; não contra a corrupção da sociedade, mas contra a casta, o privilégio, a ordem, a fórmula. É uma falta de fé nos "homens superiores", um não pronunciado contra tudo o que era padre e teólogo. Mas a hierarquia que, por esse facto, era posta em causa, nem que fosse por um só instante, era a morada flutuante, a única que permitia ao povo judaico existir no meio da "água", a última possibilidade de sobreviver dificilmente adquirida, o resíduo da existência política autónoma: um ataque contra esta existência era um ataque contra o seu mais profundo instinto popular, contra a mais tenaz vontade de viver que jamais se viu sobre a Terra por parte de um povo. Esse santo anarquista que chamava os mais humildes do povo, os reprovadores e os pecadores, os Chandalas do judaísmo, à resistência contra a ordem estabelecida - com uma linguagem que, ainda agora, a acreditar nos Evangelhos, levaria à Sibéria –, esse anarquista era um criminoso político, pelo menos tanto quanto um criminoso político era possível numa comunidade absurdamente impolítica. Foi isso que o conduziu à cruz: a prova disso é a inscrição que se encontrava no cimo da mesma cruz. Ele morreu por causa dos seus pecados – não há qualquer razão para se pretender, embora muitas vezes se tenha pretendido, que ele morreu pelos pecados dos outros."

Friedrich Nietzsche
"O ANTICRISTO"

11 de junho de 2007

Além do Bem e do Mal

"A falsidade de um juízo não pode constituir, em nossa
opinião, uma objeção contra esse juízo. Esta poderia ser uma
das afirmativas mais surpreendentes de nossa linguagem. A
questão é saber em que medida este juízo serve para conservar
a espécie, para acelerar, enriquecer e manter a vida. Por
princípio estamos dispostos a sustentar que os juízos mais
falsos (e entre estes os "juízos sintéticos a priori") são para nós
mais indispensáveis, que o homem não poderia viver sem as
ficções da lógica, sem relacionar a realidade com a medida do
mundo puramente imaginário do incondicionado e sem falsear
constantemente o mundo através do número; renunciar aos
juízos falsos eqüivaleria a renunciar à vida, a renegar à vida.
Admitir que o não-verdadeiro é a condição da vida, é opor-se
audazmente ao sentimento que se tem habitualmente dos
valores. Uma filosofia que se permita tal intrepidez se coloca,
apenas por este fato, além do bem e do mal."
Friedrich Nietzsche
"Além do Bem e do Mal"