30 de outubro de 2022



1955, Tsuki wa noborinu, Kinuyo Tanaka

The moon has risen é daquelas coisas idílicas que nos arrebatem o coração, é coisa ozuiana até ao imo - o argumento é de Ozu e de Ryôsuke Saitô... maravilha de filme. 

29 de outubro de 2022


 

1953, Koibumi (Carta de amor), Kinuyo Tanaka


“aquele que nunca pecou
que atire a primeira pedra”
João, 8:1-11


Perto do final desta assombrosa e feérica obra-prima, filme de estreia duma das grandes actrizes do cinema clássico japonês, Kinuyo Tanaka, já em pleno “momento-redenção” de Reikichi, Yamaji diz-lhe (a Reikichi), “aquele que nunca pecou que atire a primeira pedra”, resumindo numa citação bíblica aquilo de que no fundo trata Koibumi, o perdão. Desse momento até ao final pouco mais nos será mostrado, apenas todo o arrependimento do mundo num homem assombrado pelo orgulho e pela mágoa ao levar as mãos à cara.

Koibumi é filme de quem aprendeu bem com os mestres com quem trabalhou (de Mizoguchi a Ozu, de Naruse a Kinoshita…), é filme de quem percebeu a intensidade e o rigor do momento de aproximar a câmara ou o seu posicionamento. Tanaka filma magistralmente uma história do pós-guerra com o mesmo lirismo e o mesmo vigor de Naruse ou de Mizoguchi, lança-nos num neo-realismo “viscontiano” e “naruseano”, onde o conflito interior expia as feridas abertas do passado e gera a neblina sobre o futuro… na verdade, a redenção é mútua, a salvação é desejada por aquelas duas almas trucidadas pela guerra e suas vicissitudes.

Koibumi, ainda que imerja num realismo ambientado pelo contexto social dum pós-guerra ainda recente, ainda sob ocupação e ainda com as feridas por sarar, é na sua complexidade um melodrama psicológico. Reikichi é um homem amargurado, espelho da nação, vive isolado e sustentado pelo irmão mais novo, o tal que compra livros baratos e os revende muito mais caros, o tal que lhe diz que sair lhe faria bem… e é numa saída que encontra um camarada de guerra que lhe arranja essa estranha forma de ganhar dinheiro que é escrever cartas de amor (sobretudo de mulheres para os soldados ingleses). É aí que voltará a encontrar Michiko (sublime interpretação de Yoshiko Kuga) e a esperança do amor se reacende… mas é também aí que fica a conhecer o seu passado…

Portanto, é naquele final tão mesto quanto ledo, tão sacro quanto feérico, tão melancólico quanto redentor, que o maravilhamento eclode e nos arrebata, é naquele final que o todo se une e que a grandiosidade do filme de Tanaka se nos declara. Monumental!

17 de outubro de 2022


 

1965, A Falecida, Leon Hirszman


A Falecida do Hirszman é daquelas coisas tão pungentes que perduram na memória durante vários dias. Realismo feérico que atinge a monumentalidade na simbologia e no misticismo do intrínseco em si, poderoso artificio sobre a vontade humana e o anseio da remissão da culpa, emaranhamento total da fantasmagoria com o real, a morte como companheira ou, mais ainda, como desejo subversivo de expiação do pecado, veículo irracional de vingança imbuído numa motivação surreal e mórbida do absurdo, coisa obsessiva que da matéria alcança o espírito, ou a alma.
Fernanda Montenegro encarna a carne (ou essa matéria) que vai sendo contaminada pelo espírito, a transfiguração da alma, a exteriorização do interior ou da doença que começa na alma… alma que é assolada pela culpa do pecado - a mácula do adultério - e das amarras dum casamento que não a preenche… mais que a moralidade que reina naquele subúrbio é a falta dela (e a procura dela) em si mesma que lhe traz essa insatisfação e essa vontade de morrer. Momento catarse aquele em que Zulmira abraça a chuva como veículo libertador da sua condição, momento também profético ou sacral em que a alma parece libertar-se do corpo/condição e “saborear” a libertação da morte/desencarne, coisa sublime que só ela bastaria para colocar A Falecida no panteão das grandes obras do cinema brasileiro.

21 de setembro de 2022


 

Noite Vazia, Walter Hugo Khouri, 1964


Primeiro filme de Khouri que vejo, Noite Vazia é coisa mordaz, sublime, monumental... o filme de Walter Hugo Khouri é, acima de tudo, uma crítica social intimista e negra onde a expressividade e a linguagem corporal - os olhares, sobretudo os olhares - reinam e atestam o brilhantismo de Khouri. Não obstante, é coisa que vai beber ao cinema de Antonioni de forma absurdamente visível, inclusivamente nas escolhas dos actores/actrizes (uma delas parece a Monica Vitti e a outra a Jeanne Moreau) e nos seus comportamentos, gestos, movimentos ou no tema, sendo o La Notte o paralelo mais demonstrado…

Numa noite onde dois amigos levam duas prostitutas para um apartamento, desenrola-se para os nossos olhos toda a vacuidade daquelas vidas, mergulhadas na solidão e na superficialidade das suas rotinas. Noite Vazia é coisa existencial onde aqueles dois amigos representam a classe média alta daquele Brasil dos anos sessenta. Na busca deles pelo prazer do sexo e pela fuga ao rotineiro, quer seja o familiar ou o aventureiro, o que se abre perante os nossos olhos é o intimismo daquelas personagens a mergulhar numa espécie de crise existencial e de superficialidade individual. Existe, de resto, uma ligação entre as emoções das personagens com a cidade, filmada incessantemente por Khouri, como se todo aquele vazio existencial daquela gente fosse uma extensão, ou uma repercussão, do vazio social e geográfico que, não obstante a imensidade populacional, as grandes cidades acarretam. Magnífico!

18 de setembro de 2022


 

They were expendable, John Ford, 1945

Acerca do They were expendable do Ford, é coisa sumptuosa e magistral… acabo de ver o filme e pergunto-me como é possível nunca o ter visto antes, como é possível ter chegado quase aos 40 anos sem o ter visto… se há cinema idílico no mundo é o de Ford [sem que me esqueça de Borzage que foi outro desses…], capaz de fazer dum filme de guerra uma das coisas mais líricas do cinema americano, capaz de toda a monumentalidade do cinema num filme sobre a luta heróica de uns marinheiros na segunda guerra mundial… os heróis de Ford sempre foram imbuídos desse sentido de dever, de patriotismo e de panteísmo, terra (pátria) família e Deus, e, They were expendables é pleno de patriotismo e de fé!... mesmo nas horas mais negras, na confrontação com a desumanidade da guerra, nos jogos de sombras e de luzes e nos olhares aterradores e abissais de Sandy (maravilhosa Donna Reed) naquela sala de cirurgia, nos planos abertos de Rusty (grande John Wayne) ao ouvir a noticia da derrota na batalha de Bataan, mesmo aí Deus e a pátria estão presentes… mesmo em toda aquela heroicidade dos personagens fordianos, mesmo em toda a tipicidade do seu cinema estar ali presente, mesmo na abdicação do amor pelo sentido do dever, da defesa da pátria, They were expendable rasga a tela com momentos e heróis mundanos, realistas, que tremem como os outros… e que no fundo é uma homenagem ao Capitão Brickley, interpretado por Richard Montgomery, que tinha sido amigo de Ford.

4 de setembro de 2022


 

Ao cinema de Muratova atribua-se a capacidade de atingir o surrealismo embrenhado num certo tipo de grotesco ou bizarria, alicerçado num ambiente caótico e, frequentemente, num absurdismo específico e sarcástico, muito próprio e identitário da cineasta. Na verdade, todo o seu cinema está mergulhado num sentido de alienação e de desolação, principalmente Astenicheskiy sindrom (The Asthenic Syndrome) e as obras pós-sovéticas, talvez sinal dum acentuar da perda de identidade nacional que se estende ao individuo, e por isso as suas personagens parecem andar sempre à deriva. É, portanto, um cinema caracterizado pelo insólito - quer narrativa quer visualmente -, pelo seu humor negro e pelo surrealismo, sendo raro vermos no cinema de Muratova alguma coisa linear. De facto, as grandes influências em Muratova parecem ser Chaplin e Buster Keaton, e sobretudo em Vechnoe vozvrashchenie (Eternal Homecoming) e em Dva v odnom (Two in One) é onde a influência da pantomina dos dois mestres é mais realçada; Parajanov, principalmente o seu ascetismo, um certo tipo de rudimentarização e/ou primitivismo; e a nouvelle vague, com a sua descontinuidade temporal e narrativa (sobretudo Godard e Resnais), principalmente em filmes como Korotkie vstrechi (Breves Encontros) e Poznavaya belyy svet (Getting to Know the Big Wide World), onde existe uma presença existencialista mais expressa, mas também onde a convencionalidade cinematográfica mais está presente.

A primeira impressão que um filme de Muratova nos deixa é a de que estamos perante algo difícil de ver e de compreender, mas sobretudo, algo estranho e peculiar que nos atrai (a quem procura algo mais que entretenimento) e não nos deixa indiferente (inclusivamente Uvlecheniya [Petty Passions] onde a acção revolve em torno da afeição por cavalos e nos discursos filosóficos de alguns personagens). Assim, quase todo o cinema de Muratova adquire uma conotação simbólica nas suas abordagens visuais e narrativas, com a desolação, o surrealismo e o absurdismo revelando uma alusão ao comunismo e ao seu fim (ou àquilo que lhe sobreviveu). Astenicheskiy sindrom, Chekhovskie motivy [Chekhov's Motifs], Tri istorii [Three Stories], Vechnoe vozvrashchenie e Dva v odnom são filmes onde as rupturas narrativas e temporais existem para dar essa ambiência e metáfora social e política dum país órfão de sua cultura e tradições que se vê imerso no caos identitário. É como se Muratova tentasse apresentar a Rússia e a Ucrânia pós-soviéticas numa visão etnológica ou num etnocentrismo muito próprio e particular, com uma linguagem tão peculiar e singular que nenhum outro cineasta alcançou.
Magnífica!

22 de agosto de 2022

 






2021, Un Monde, Laura Wandel



Geralmente pensamos no cinema como a arte de mostrar algo, das imagens em movimento e de como tudo isso nos contam uma história. A obra de estreia de Wandel é coisa preciosa, coisa que imerge no realismo das imagens e da arte de contar uma história. Esse mundo do seu título original revela-se mais complexo e tortuoso que à partida possamos imaginar, mergulhamos na crueldade que existe na infância e no impacto psicológico que daí resulta. O trauma resultante do bullying que atormenta Abel é o mesmo processo traumático que atinge Nora, a irmã, que assiste a isso... na realidade, Un monde é mais Nora que Abel, é mais luta interior de quem vê sofrer do que de quem sofre. A câmara de Wandel segue Nora como a câmara dos Dardenne seguia Rosetta, com uma aproximação absurda aos personagens principais na procura do intimismo e dum tipo de inserção realista no espaço, bem como um enquadramento e um posicionamento dessa câmara sempre ao nível das crianças, criando assim uma distância entre estas e os adultos. Desde o primeiro instante, em que Nora, com as lágrimas no rosto, resiste a ser "largada" no palco que irá preencher a tela durante pouco mais de uma hora, a escola, que o trauma se adivinha. Aos poucos, a frieza e a crueldade das vicissitudes daquele campo de batalha irá afectar emocionalmente e psicologicamente aqueles dois irmãos, o processo traumático desdobra-se desde o instinto de protecção (de parte a parte) até à rejeição e finalmente, no final, à redenção. Ainda que Un monde viva do processo traumático de quem sofre e vê sofrer, da impiedade que por vezes a infância tem, Laura Wandel foge de negruras e ambiências sombrias, como que a querer dizer que, apesar de tudo, a infância é luz! Filmaço.

20 de agosto de 2022

 



1951, Cielo Negro, Manuel Mur Oti



Se nos mês passado lembrámos aqui Cottafavi e a ironia da sua carreira, agora chegou a vez de Manuel Mur Oti, cineasta espanhol da geração de Luis García-Berlanga e Carlos Saura, que começou a fazer cinema aos 41 anos e que, apesar da boa recepção pelo público e pela crítica da generalidade dos seus filmes (chamavam-no “el genio”), caiu no esquecimento a partir da morte do General Franco.  A explicação para tal é simples. É que com a entrada de um novo regime eram precisas obras que simbolizassem a ruptura, não os sucessos comerciais, feitos com o apoio e graças de uma ditadura e do seu líder. 

Ao vermos um dos seus melhores filmes Cielo Negro (o segundo de uma carreira de 17), temos precisamente os temas queridos da ditadura como a importância da religião cristã ou a materialização do melodrama nos dilemas do amor como marcas de um género e de uma “atmosfera”. Contudo, a sua protagonista, Emília (Susana Canales), uma jovem que sempre viveu com a mãe, que nunca teve um namorado, que nunca foi à verbena (festa), que vê muito mal, não é o protótipo de mulher submissa que esperaríamos. Há nela uma força (apesar da inocência) com que agarra o homem que quer para namorado, com que rouba o vestido para a festa, com que obriga o poeta impostor [Fernando Rey instigado pela antagonista Lola (a presença da actriz portuguesa Teresa Casal, à data mulher de Arthur Duarte)] a prolongar a farsa até à morte da mãe. Uma força que em último instinto a impele a pôr a hipótese do suicídio.

É por sobre essa força que Mur Oti se revela como cineasta. Ao contrário de muitos filmes feito no Estado Novo em Portugal onde o folhetim era tudo e a expressividade cinematográfica algo raro, Cielo Negro controla a tragédia lacrimejante (o filme da ceguinha como lhe chamavam), com absoluta certeza. Eis alguns traços:

1. A ponte da cena final vista logo no primeiro plano do filme, a partir de casa de Emília, quando tudo estava bem (quando ainda não chovia). Se esse plano inicial nos mostra a simbologia da vida de Canales antes do amor, com os pássaros na gaiola à janela, a saída lá para fora revela o preço da liberdade;

2. A cegueira. Antes desta ser apresentada como elemento da tragédia [como o é por exemplo em Magnificent Obsession (Sublime Expiação, 1954) de Douglas Sirk] ela é, logo no início, trabalhada na relação com espaço: é o dia tan hermoso de Emília, onde o céu surge pequenino emparedado entre linhas de cimento; ou são os gerânios que ela pergunta à mãe se estão à janela da vizinha, ao que esta mente ante a visão das meias estendidas; ou essa sequência tão erótica quanto difusa da ida à festa com o amado Fortún. Como se a sua alegria que são 75 minutos e depois duas horas (ela conta o tempo que passa) fosse só uma questão de música, de luzes (os fogos de artifícios são estrelas) da proximidade dos corpos. Nessa sequência ela tira os óculos à boneca que ganha nas rifas, como o fizera a si própria antes de sair de casa. Mais do que se impor a beleza, Emília quer impor-se a cegueira, para poder amar Fortún por breves instantes (para ir-se à felicidade é preciso ir-se sin gafas), ainda que ele seja boémio, ainda que ele não a queira da mesma maneira. Esse acto perfeitamente edipiano, a auto-cegueira é uma etapa de crescimento que depois se converte numa inevitabilidade. É quando Emília sabe que vai ficar cega e que não pode trabalhar, o momento em que realmente “vê”: como se a cegueira física fosse o preço a pagar pela clarividência interior.

3. E quase nos esquecíamos da sequência final. A mãe morreu. Ela ficará cega. Tudo aponta o trágico. Emília revolta os olhos e sai. Junta às escadas perguntam-lhe: “¿A dónde vas Emília? Sube!”. Mas Emília desce. E nós sabemos onde vai. Sai para a rua. Chove, chove sempre. Voltamos a ver a ponte ainda com mais certeza de uma tragédia. Corre, resoluta, mesmo cega sabe o caminho. Quando chega à ponte vira-se para nós e sentimos outra vez essa força, essa espécie de abertura do ser ante o sofrimento extremo. Vira-nos costas, debruça-se sobre a ponte e a câmara com ela. Lá em baixo passa um eléctrico. Mur Oti põe a câmara junto ao solo para nos dar a distância. Mas é no último momento que Emília ouve os sinos, inesperados, belos, que numa torrente demencial a chamam. Das igrejas, de todas. A salvá-la. E para quem tinha dúvidas desse milagre rosseliniano no final, esses sinos não lhe pedem que viva, intimam-na a fazê-lo. E depois é o regresso à vida com os sinos “celestiais” cada vez mais intensos. Já se foi o vestido comido pelas traças e só há um xaile sobre os ombros a amparar da chuva num travelling inenarrável, considerado por muitos o mais belo de toda a história do cinema.

Carlos Natálio

daqui (https://www.apaladewalsh.com/2012/09/cielo-negro-1951-de-manuel-mur-oti-2/) 

13 de agosto de 2022

 


Garbo Laughs” foi a frase mais insistentemente usada pela publicidade para lançamento desta célebre película, que marca o único encontro de dois dos mais famosos nomes de Hollywood nos anos 30: Ernst Lubitsch e Greta Garbo.

Até Ninotchka, a “divina” tinha feito sempre papéis sérios ou trágicos e nunca participara em qualquer comédia. Daí a curiosidade com que foi aguardada esta nova faceta e aquele que seria o penúltimo filme de Garbo. Ela voltaria a rir (pelo menos tão bem como na obra que vamos ver) no seu último filme, igualmente uma comédia: Two-Faced Woman, realizado por George Cukor em 1941.

Aliás, Cukor, que já dirigira Greta Garbo em 1936 no magnífico Camille, foi o realizador inicialmente designado para dirigir Ninotchka, quando, depois de enorme pega com David O. Selznick, este lhe retirou Gone With the Wind. Lubitsch ia então começar a realização de The Women. À última hora, Mayer trocou-os. Lubitsch ficou com Ninotchka, Cukor com The Women.

Há muitos anos que Lubitsch queria dirigir a Garbo e dizia a quem o quisesse ouvir: “How wonderful Greta and I would be together. What a wonderful picture we could make together”. Finalmente, a ocasião surgiu neste filme a que Mayer torceu muito o nariz. Não só achava que Greta Garbo nunca seria convincente numa comédia, como, apesar do seu visceral anti-comunismo, receou as reacções de muitos críticos e intelectuais influentes que há 69 anos pensavam e escreviam sobre a URSS exactamente o contrário do que os bisnetos deles pensam e escrevem hoje. Greta Garbo também teve medo. Foi o próprio Lubitsch quem declarou que foi difícil convencê-la e que, na célebre cena da gargalhada, a actriz estava em pânico. Pediu ao realizador que mudasse. Lubitsch ter-lhe-ia respondido: “I’ll do anything you want. I’ll change the script, the dialogue, anything, but this can’t be changed. Too much depends on it”. E dependeu.

Noventa por cento da publicidade e noventa por cento do êxito do filme vieram dessa cena. Mas deve dizer-se que o êxito, inicialmente, não foi muito grande, apesar de três designações para o Oscar (melhor filme, melhor actriz, melhor história original). Mas ainda não foi dessa vez – não foi nunca, aliás – que Garbo obteve a estatueta. Vivien Leigh bateu-a, no Gone, como “toda a gente” sabe.

Se comecei por falar de Garbo é porque, ainda hoje, é o seu mito o mais poderoso pólo de atracção para esta obra. Mas falar de Ninotchka é sobretudo falar de Lubitsch, numa das suas mais portentosas realizações. Certamente, Ninotchka não é o melhor Lubitsch, mas nele estão integralmente presentes as suas decantada e depurada arte e o famigerado Lubitsch touch.

Antes de chamar a atenção para alguns dos mais belos exemplos do seu estilo neste filme, digamos algo sobre o seu argumento e a sátira anti-URSS, que tanta tinta fez correr e tantos engulhos causou. Estava-se em 1939 e Estaline acabava de assinar com Hitler o famoso pacto de não agressão que caiu como uma bomba nos meios ocidentais. Embora a América guardasse ainda algumas distâncias em relação ao conflito europeu, a política de Roosevelt tinha uma orientação marcada (a favor das democracias ocidentais) e o pacto autorizava consequentemente a que às sátiras à Alemanha nazi (das quais a mais célebre seria O Ditador de Chaplin no ano seguinte) se juntassem as dirigidas à União Soviética. O famoso gag da troca, na estação, entre o camarada russo e o dirigente hitleriano é uma charge directa ao espírito desse Pacto e à luz dele se compreende.

Mas, de tanto se falar na sátira à URSS, têm-se esquecido que Lubitsch – mestre das aparências e ambiguidades – não apontou só para esse lado. Três anos depois, seria dele um dos filmes que mais ridicularizaria o nazismo (To Be Or Not to Be) e, mesmo em Ninotchka, a aristocracia (francesa ou russa) não é melhor tratada do que os camaradas soviéticos. A Grã-Duquesa Swana não é objecto de mais meigo tratamento (para já não falar do Conde-criado) e o próprio Melvyn Douglas é implacavelmente caracterizado (as relações com o criado e, sobretudo, o jantar no restaurante dos operários com a sua suposta familiaridade). Mais uma vez, Lubitsch ri de tudo e à custa de todos e não será Ninotchka que provará parcialidade. Nesse capítulo, a invenção mais genial é a escolha de Constantinopla (com tudo o que de pouco europeu e muito pouco democrático, à época, cidade e país evocavam) para o encontro final dos comunistas russos e do conde francês. Pode dizer-se que Lubitsch inventou avant la lettre o “terceiro mundo”, do qual, aliás, se ri tanto como dos outros dois.

Noto agora, alguns dos mais saborosos achados de Lubitsch nesta comédia:

a) Mais uma vez, as honras são para o seu sentido de elipse, tanto visual como sonoro. A sequência em que os três camaradas instalados na suite real, fazem as suas encomendas, com a banda sonora a funcionar em off sobre as portas que se abrem e fecham, é um exemplo antológico, como o são o já citado gag da saudação hitleriana, a troca de chapéus, a cena em que Garbo propõe a Douglas mostrar-lhe os ferimentos, a estátua da república com a coroa no quarto de Douglas, a cena da casa de banho do restaurante de luxo ou as sucessivas entradas e saídas do comissário Razinin (desempenhado pelo popularíssimo especialista de filmes de terror, Bela Lugosi, o que já de si é um achado). Como achados são as utilizações dos retratos de Lenine e Estaline ou a sequência dos beijos, com o famoso “Again” da Garbo.

b) Os portentosos diálogos, funcionando para todos os lados. Tanto para justificarem a instalação no hotel dos russos, como para as maquinações de Douglas e da Grã-Duquesa (“comprarmos o nosso futuro com o teu passado”).

c) A construção da narrativa com o clou na famigerada sequência das gargalhadas de Garbo (repare- se na utilização anterior da anedota dos escoceses) ou na da sua não menos célebre bebedeira. Talvez Greta Garbo nunca tenha sido tão admirável como quando bebe champagne pela primeira vez (“lt’s good”) ou quando, depois, de olhos fechados, ouve o barulho da rolha da garrafa.

d) Finalmente, o último gag, talvez hoje o que mais faz pensar. Apesar da conversão ao capitalismo, os três ex-comissários continuam em purgas. Kopalski apagou-se no anúncio luminoso do restaurante e exibe o cartaz onde se lê: “Buljanoff and lranoff unfair to Kopalski” e ficamos sem saber se aprendeu à sua custa o que significa a livre concorrência ou se tudo mudou para tudo ficar na mesma.


JOÃO BÉNARD DA COSTA

10 de agosto de 2022


 

Últimas coisas vistas, entre filmes da Muratova, Bressane e revisões do Stalker, A torinói ló e Madam Satan do DeMille, quatro filmes de Grémillon, portentosas obras, maravilhamento total pelo cinema clássico francês. Lumière d'été, safra de 43, é noir que transpira tragédia desde o início, desde aquela chegada de Michele ao hotel, coisa progressiva que vai revelando a personalidade das personagens, coisa negra que se serve da distância entre as personagens para cavar o fosso de trevas que se vai revelando e crescendo… onde nuns existe amor, noutros há obsessão, caminho demoníaco, as trevas dominam Patrice como no passado já o haviam dominado, o destino afigura-se trágico e aniquilador. Lumière d'été é um portento de filme.
Le ciel est à vous, no ano a seguir, volta a trazer a deslumbrante Madeleine Renaud no papel duma esposa dum ex-piloto e mecânico que se deslumbra e apaixona pela aviação. Fábula emocional, Le ciel est à vous é coisa singela e humana que exalta a mulher.
De 44 saltamos para 51, L’étrange Madame X, filme de enganos e desenganos, de amor e de traição, de ilusão e decepção, de candura e de astúcia. É naqueles dois amantes, um iludido e outro perdido, que se encontra o contraste social, ele operário e pobre, conduzido por um amor idealizado que mal sabe ele não corresponder à realidade, e ela madame rica, perdida nas incertezas e nas mentiras duma vida dupla, a correr contra o tempo que a cerca com os acontecimentos do presente e a pressionam a tomar uma decisão…coisa melancólica.
Por fim, L’amour d’une femme de 53, ultima longa-metragem de Grémillon, assombro total. Tal como L’étrange Madame X, L’amour d’une femme é coisa melancólica, mais ainda até, mergulha na ambiguidade e no confronto dum amor que impõe com a vocação que a preenche.
Os filmes de Grémillon são coisas líricas e melancólicas que atestam a sua grandiosidade.