13 de outubro de 2009

Taxidermia (2006)

Um filme de György Pálfi











Visceral. Do princípio ao fim.
“Taxidermia” é uma obra ousada, controversa, provocatória, grotesca, bizarra e perversa. Mas Pálfi cria além disso uma obra esteticamente muito cuidada, com uma fotografia espantosa de Gergely Pohárnok e muito bem editado. A cena da banheira em que a câmara roda a 360° ao redor desta mostrando os vários usos está simplesmente brilhante. György Pálfi fez de “Taxidermia” um filme insólito, onde a sua precisão estética balança com a peculiaridade da relação de três gerações com o seu próprio corpo. Não se pode dizer que Pálfi não fez um filme original porque estaria a mentir. “Taxidermia” é sobretudo original e, ainda mais o é, porque consegue mostrar toda essa perversidade, todas essas personagens bizarras e grotescas com uma estética visual poderosa e cuidada.
“Taxidermia” é daquelas obras que, ou se ama ou se odeia. Porque não é um filme fácil, porque chega a ser repugnante (e com isto só me lembro de “Saló” como filme mais abjecto), porque é um filme muito peculiar. Mas se é verdade que é um filme visceral e peculiar, também é evidente a extraordinária narrativa de Pálfi. O tom de comédia negra e por vezes absurda que o cineasta húngaro assume mistura-se com esse cariz obsessivo e animalesco das personagens. Aqui o belo e o hediondo convivem lado a lado. E Pálfi explora a mente humana e as suas obsessões, explora a excentricidade, o grotesco, explora visualmente e explicitamente o corpo humano. É impossível ficar indiferente a “Taxidermia”, seja para o admirar como obra de extrema importância, seja para o condenar à repugnância.

7 de outubro de 2009

Videoclips que me enchem o olho - Parte XXVI

Slipknot - Dead Memories

Die Blechtrommel – O Tambor (1979)

Um filme de Volker Schlöndorff
















É de facto uma obra-prima este filme que em 1979 dividiu a Palma de Ouro em Cannes com “Apocalypse Now” de Coppola. A primeira vez que o vi (há uns anos) fiquei completamente maravilhado com o poder de Schlöndorff em contar uma história surrealista em pleno domínio nazi. E o cineasta alemão preocupa-se sobretudo em contar uma determinação indómita de quem prefere não crescer. A infância é aqui (e sempre) a alusão à inocência. Mas Schlöndorff acaba por censurar essa escolha explorando o não crescimento físico com o crescimento psicológico, intelectual. E embora Oskar continue sempre criança, a idade que lhe vai acercando traz-lhe o desejo sexual e o desenvolvimento intelectual. Porque essa revolta interior que possui, relacionada com a mãe e o triângulo amoroso a que assistiu em criança (altura em que se deita das escadas abaixo e provoca (voluntariamente) a interrupção do crescimento – e aqui, juntamente com o dom bizarro de conseguir gritar tão agudamente até partir os vidros, entra o surrealismo –) acaba por se desvanecer no decorrer dos anos, na vivência que Oskar vai adquirindo. Embora Schlöndorff queira sobretudo explorar essa vertente surrealista e ao mesmo tempo mágica e de uma poesia crua, o cenário da Segunda Guerra Mundial traz uma conotação anti-nazi e sobretudo uma exposição do absurdo das tropas alemãs em solo polaco (numa região em que têm a sua própria linguagem – chamados de Kashubians). E Schlöndorff mostra que o grande trunfo de “O Tambor” é precisamente essa exposição do grotesco, do bizarro e excêntrico das personagens da obra de Günter Grass.