24 de maio de 2011

Drums Along The Mohawk (1939)
John Ford

Ford O cineasta, o lírico dos líricos, patriótico dos patrióticos, poeta das imagens e dos sentidos, cineasta da história da América em toda a sua plenitude, toda a sua monumentalidade, toda a sua grandeza. Drums Along The Mohawk é um portento de filme, coisa irascível na monstruosidade da negrura do cinema e da história da humanidade, coisa que brota tão dentro mas tão dentro da visceralidade do homem, que do sonho do homem foi capaz de triunfar, do nascimento duma nação que luta e resiste por um pedaço de terra (legitimamente ou não face aos índios isso já é outra história), glorificação dessa nação. Drums Along The Mohawk é o filme mais americano que pode haver, mais glorificante, mais apaixonado, mais exaltante, mais patriótico que pode haver no cinema americano. A exaltação da Revolução Americana, o nascimento de uma nação, é isso que é Drums Along The Mohawk, o brotar ou o irromper duma nação das trevas e do fogo e da animalização duma guerra, a conquista do território, o primeiro americano. Ford o maior dos maiores, o contador de histórias, o sentimentalista dos pequenos gestos, o glorificador da sua pátria. Ford O cineasta americano.
Uma lista nada recomendável:

Titanic
Inception
Slumdog Millionaire
Kingdom of Heaven
Eternal Sunshine of the Spotless Mind
Armageddon
Cold Mountain
Brokeback Mountain
Con Air
Avatar

19 de maio de 2011

Il Dono (2003)
Michelangelo Frammartino

E enquanto espero (e desespero) por ver Le Quattro Volte (grande curiosidade da minha parte), vê-se Il Dono, primeiro filme de Frammartino, objecto tão lúcido quanto a consciência da gente daquela aldeia despovoada que espera o fim. É por isso um filme da espera, filme de velhos como velha é aquela aldeia condenada ao abandono (como tantas outras) pelas grandes metrópoles. Il Dono é um olhar seco, lento…desmesuradamente lento, lúcido e desprovido de qualquer emoção ou sensibilização sobre a velhice e principalmente sobre a espera do fim. Que fim? O fim desses velhos, o fim daquela aldeia enquanto local habitado e sobretudo trabalhado, a alusão ao fim da agricultura (que ainda vai sendo, para aqueles velhos, a única fonte de subsistência e de ocupação). Mas Il Dono é mais do que esse filme da espera da morte e do fim disso tudo, é um olhar isento, observador, rudimentar e simples do quotidiano e dos fantasmas daqueles velhos que resultam desse quotidiano e sobretudo do despovoamento, é o registo de memórias daqueles locais que filma, uma certa nostalgia dos tempos de outrora em que a desertificação nem sequer era imaginada, é filmar o que resta, a decadência do que resta, é filmar o nada porque para o nada caminha aquele local. Il Dono funde-se numa oscilação entre o olhar documental e o ficcional, prende-se (literalmente…não há movimentos de câmara) à visão decadente da despovoação (e há tantos planos a aludirem/metaforizar a isso) e segue um velho (o avô do cineasta) e uma puta (que se julga possuída pelo demónio) que vai alimentando os desejos sexuais dos habitantes e dos visitantes. E o filme é isso, o quotidiano daquela gente, o lento esmorecer daquele povoamento e dos seus habitantes, a letargia daquela gente que já nada espera da vida. Aqui não há bandas sonoras, há ruídos há sons há a natureza, aqui não há diálogos ou os que há são de fundo e quase nem os conseguimos ouvir nem interessam para nada, aqui não há um plot e uma narrativa à sua volta, há a procura de filmar o Homem ou o objecto ou o local, o momento, as acções, o realismo acima de qualquer coisa. Há ali tanta influência em Bartas, na lentidão, nos planos, na procura da expressividade, no olhar, na despreocupação da beleza imagética…e lembrei-me tanto de Alonso e do seu rudimentarismo, de Benning e da sua procura no registo. Il Dono é um grande grande filme mas é cinema para pouca gente.
Ao ver isto é caso para perguntar ao palhacinho Se não fosses parvinho que é que gostavas de ser?

18 de maio de 2011

Men in War é muito mais que um simples filme de guerra, é o abarcar de toda a complexidade moral da guerra, é a força da brutalidade da guerra, coisa feroz, seca e desmesuradamente animalesca, é a veemência do confronto entre o humano e o desumano, a irracionalidade da guerra e a forma como transforma o ser humano. Men in War é sobretudo um filme psicológico, brutal no seu realismo e no tal psicologismo que afecta aqueles homens e as suas decisões, ambiguidade da guerra mas mais importante do ser humano, a resignação da barbaridade da guerra. Anti-guerra acima de todas as coisas.