A primeira vez que vemos a comiseração em nic é quando aquela velha bisbilhoteira do prédio lhe diz pra ir com ela e as crianças dali embora, a segunda é o casal de velhinhos que os acolhe no final, antecedendo a tragédia, tragédia essa que presentimos desde o início do filme; nic expressa assim nessa comiseração, e em meio ao fatalismo e à penúria do mundo, uma esperança na humanidade; é de resto o sepia embrutecido que simboliza essa penúria do mundo, sepia sokuroviano (e nic é soviético em todo o seu imo) que alia os closes, os silêncios e a acção comportamental e corporal - existe no filme de Kędzierzawska uma ambiência quase que onírica -, numa locomoção vertiginosa do arquétipo individual do colectivo que no passado suportou o autoritarismo do patriarcado; assim, na sua totalidade, nic declara o terror do medo e a sua angústia, colhe aí os frutos das acções que precederam e que determinaram a sociedade...
18 de junho de 2023
filmes vistos que interessem destacar:
1971, Une aventure de Billy le Kid, Luc Moullet
2022, Cô gái đến từ Đắk Lắk, Pedro Roman & Mai Huyền Chi
2022, Ankabut-e moqaddas, Ali Abbasi
2022, Tár, Todd Field
1966, Un homme et une femme, Claude Lelouch
1974, Toute une vie, Claude Lelouch
1978, Robert et Robert, Claude Lelouch
2022, Pacifiction, Albert Serra
2022, Saint Omer, Alice Diop
1972, L’aventure, c’est l’aventure, Claude Lelouch
1973, La bonne année, Claude Lelouch
2020, Pão e Gente, Renan Rovida
2016, Zhi fan ye mao, Zhang Hanyi
2005, Pervye na Lune, Aleksey Fedorchenko
1971, Umutsuzlar, Yilmaz Güney
1963, Zlaté kapradí, Jiri Weiss
1972, Stantsionnyy smotritel, Sergey Solovyov
2001, Le Pornographe, Bertrand Bonello
2003, Tiresia, Bertrand Bonello
2011, L’Apollonide (Souvenirs de la maison close), Bertrand Bonello
2014, Saint Laurent, Bertrand Bonello
2016, Nocturama, Bertrand Bonello
2019, Zombi Child, Bertrand Bonello
2022, Tab, Hong Sang-soo
1966, Brigitte et Brigitte, Luc Moullet
1962, The loneliness of the long distance runner, Tony Richardson
2022, As Bestas, Rodrigo Sorogoyen
2016, Qingshui li de daozi, Wang Xuebo
1984, Dong dong de jiàqi, Hou Hsiao-Hsien
2000, guizi lai le, Jiang Wen
2022, Skazka, Aleksandr Sokurov
1983, Feng gui lai de ren, Hou Hsiao-Hsien
1985, Tóngnián wangshì, Hou Hsiao-Hsien
1993, Xi meng ren sheng, Hou Hsiao-Hsien
1996, Nan guo zai jian, Hou Hsiao-Hsien
2001, Qian xi man bo, Hou Hsiao-Hsien
2003, Kôhî jikô, Hou Hsiao-Hsien
2005, Zui hao de shi guang, Hou Hsiao-Hsien
2015, Cike Nie Yin Niang, Hou Hsiao-Hsien
2022, Ta farda, Ali Asgari
1996, Pedar, Majid Majidi
2000, Yi yi, Edward Yang
2007, Ai qing de ya chi, Zhang Yuxin
1978, Pretty Baby, Louis Malle
1986, Dao ma zei, Tian Zhuangzhuang
2007, Mang shan, Yang Li
2003, Mang jing, Yang Li
2022, Jang-e jahani sevom, Houman Seyyedi
2009, Chun feng chen zui de ye wan, Lou Ye
2014, Court, Chaitanya Tamhane
1976, News from home, Chantal Akerman
1962, Otoshiana, Hiroshi Teshigahara
1966, Tanin no kao, Hiroshi Teshigahara
2014, Heaven knows what, Benny Safdie & Josh Safdie
2022, Baradaran-e Leila, Saeed Roustayi
2016, Abad va yek rooz, Saeed Roustayi
2019, Metri shesh va nim, Saeed Roustayi
2002, Ren xiao Yao, Zhang-ke Jia
2006, Dong, Zhang-ke Jia
2008, Heshang de aiqing, Zhang-ke Jia
1933, Minato no nihonmusume, Hiroshi Shimizu
1938, Anma to onna, Hiroshi Shimizu
2008, De la guerre, Bertrand Bonello
1970, Mujô, Akio Jissôji
1971, Mandara, Akio Jissôji
1972, Uta, Akio Jissôji
1942, Once upon a honeymoon, Leo McCarey
1969, Erosu purasu gyakusatsu, Yoshishige Yoshida
1970, Rengoku eroica, Yoshishige Yoshida
1973, Kaigenrei, Yoshishige Yoshida
2022, R.M.N, Cristian Mungiu
2022, Roza, Andrés Rodriguez
2022, Los reyes del mundo, Laura Mora Ortega
2015, Aferim!, Radu Jude
2018, Îmi este indiferent daca în istorie vom intra ca barbari, Radu Jude
2020, Iesirea trenurilor din gara, Radu Jude & Adrian Cioflâncã
2021, Babardeala cu bucluc sau porno balamuc, Radu Jude
2009, Cea mai fericita fata din lume, Radu Jude
2012, Toata lumea din familia noastra, Radu Jude
2017, The Dead Nation, Radu Jude
1931, Nanatsu no umi: Zenpen – Shojo-he, Hiroshi Shimizu
1932, Nanatsu no umi: Kôhen – Teisô-hen, Hiroshi Shimizu
1929, Fue no shiratama, Hiroshi Shimizu
2022, Coma, Bertrand Bonello
1973, Ludwig, Luchino Visconti
1965, Vaghe stelle dell’Orsa, Luchino Visconti
1967, Lo straniero, Luchino Visconti
1969, La caduta degli dei (Götterdämmerung), Luchino Visconti
1976, L’innocente, Luchino Visconti
1933, Daigaku no wakadanna, Hiroshi Shimizu
1942, Tales of Manhattan, Julien Duvivier
1999, Na shan na ren na gou, Jianqi Huo
1933, Nakinureta haru no onna yo, Hiroshi Shimizu
1971, The Panic in Needle Park, Jerry Schatzberg
1993, Au nom du Christ, Roger Gnoan M’Bala
2022, Khers nist, Jafar Panahi
1969, Liebe ist kälter als der Tod, Rainer Werner Fassbinder
1970, Die Niklashauser Fart, Rainer Werner Fassbinder e Michael Fengler
1972, Die bitteren Tränen der Petra von Kant, Rainer Werner Fassbinder
1973, Welt am Draht, Rainer Werner Fassbinder
1983, The Great Sadness of Zohara, Nina Menkes
1974, Angst essen Seele auf, Rainer Werner Fassbinder
1995, Kardiogramma, Däreschan Ömirbajew
1974, Fontane Effi Briest, Rainer Werner Fassbinder
2013, Palo Alto, Gia Coppola
1986, Magdalena Viraga, Nina Menkes
1991, Queen of Diamonds, Nina Menkes
1996, The Bloody Child, Nina Menkes
2007, Phantom Love, Nina Menkes
2010, Hitparkut, Nina Menkes
2022, Brainwashed: Sex-Camera-Power, Nina Menkes
1975, Angst vor der angst, Rainer Werner Fassbinder
1975, Faustrecht der Freiheit, Rainer Werner Fassbinder
1976, Ich will doch nur, daß ihr mich liebt, Rainer Werner Fassbinder
2022, Padre Pio, Abel Ferrara
1978, In einem Jahr mit 13 Monden, Rainer Werner Fassbinder
1979, Die dritte Generation, Rainer Werner Fassbinder
1979, Die Ehe der Maria Braun, Rainer Werner Fassbinder
1976, Satansbraten, Rainer Werner Fassbinder
2022, Showing Up, Kelly Reichardt
1981, Lili Marleen, Rainer Werner Fassbinder
1981, Lola, Rainer Werner Fassbinder
1982, Die Sehnsucht der Veronika Voss, Rainer Werner Fassbinder
1975, Mutter Küsters’ Fahrt zum Himmel, Rainer Werner Fassbinder
1934, Kinkanshoku, Hiroshi Shimizu
1970, Götter der Pest, Rainer Werner Fassbinder
1971, Rio das Mortes, Rainer Werner Fassbinder
1971, Pioniere in Ingolstadt, Rainer Werner Fassbinder
2022, Master Gardener, Paul Schrader
1965, …a pátý jezdec je Strach, Zbyněk Brynych
1970, Hranjenik, Vatroslav Mimica
1935, Tôkyô no eiyû, Hiroshi Shimizu
revisões:
1922, Dr. Mabuse, der Spieler, Fritz Lang
1971, Warnung vor einer heiligen Nutte, Rainer Werner Fassbinder
1990, Texasville, Peter Bogdanovich
1969, Katzelmacher, Rainer Werner Fassbinder
1971, Whity, Rainer Werner Fassbinder
1982, Querelle, Rainer Werner Fassbinder
15 de junho de 2023
1975, Mutter Küsters' Fahrt zum Himmel, Rainer Werner Fassbinder
sobre o mutter küsters: é das coisas mais cínicas e descrentes do seu cinema, se bem que todo o seu cinema seja descrente ou pessimista, filme no meio da transição da primeira para a segunda fase de fassbinder (parece-me), portanto, ainda straubiano e brechtiano e nouvelle vaguiano, mas já sirkiano e menos formal na interpretação, sirkiano sobretudo no final alemão (o americano é um happy end curioso); declara nele toda a feiura do mundo para arrasar com todos os movimentos políticos e ideológicos e espreme assim toda a conduta desprovida de escrúpulos e empatia na ânsia da obtenção de uma única coisa, o poder; opõe a candura à malícia, prevalecendo a malícia no final alemão e a candura no americano.
9 de junho de 2023
O casamento de maria braun é dos fassbinders mais contundentes e simbólicos, só a cena em que maria, numa festa em casa, deambula de mão em mão pelos familiares até acabar no amante rico personifica toda uma nação erguida dos escombros, vencida e prostituida ao poder económico no pós-guerra; verdadeira obra-prima, maria braun impõe toda a contenção do mundo num leitmotif caótico, coisa recorrente em fassbinder, e num kammerspiel de maria, ainda que mais palavroso, análogo à alemanha e ao seu milagre económico; é portanto, na sua análise ao poder e à sua ascenção alcançada sob a batuta da frieza emocional e do cinismo, repleta de esvaziamento moral, em decrescente e que culmina na explosividade após reunificação do casal (como se fassbinder preconizasse a actualidade alemã), um filme completamente ambíguo onde a masculinidade que é ameaçada - depois de vencida - é a mesma que assegura a lealdade de maria, e logo no primeiro momento de reencontro ela declara isso com aquele acto - kammerspiel também declarado; maria braun é, numa incessante procura da personificação nacional, uma coisa tão brechtiana quanto straubiana e quanto sirkiana, é portanto na sua sacralidade da mise-en-scène, na composição imagética e sonora do seu todo e na relação com as suas personagens, dissecando-as emocionalmente e psicologicamente, nos seus movimentos de câmara, nos fora de campo e na sua découpage que esta obra-prima de fassbinder se eleva, assim como a alemanha se elevou e ergueu dos escombros.
8 de junho de 2023
1979, Die dritte Generation, Rainer Werner Fassbinder
die dritte generation afigura-se talvez, a par do seu primeiro filme, das coisas mais godardianas e anárquicas do seu cinema onde o caos em meio ao satirismo loquaz e mordaz do aburguesamento do marxismo (ou do suposto marxismo) se entrelaça com o mesmo tom cínico e mordaz do progressismo e do capitalismo, numa amálgama satírica e caótica expressa e evidenciada não só na trama como na faixa sonora da obra, recheada de barulho e de sons/diálogos confusos, bem como na construção narrativa da trama e dos seus personagens.
28 de maio de 2023
São transformações que não se devem apenas à idade que as personagens agora têm; devem-se ao que lhes aconteceu e, sobretudo, ao que aconteceu ao mundo que as envolve. The Last Picture Show não era só a crónica das deambulações de um grupo de personagens apanhado no fim da adolescência; era também o filme sobre o fim de um mundo, e sobre o vazio que ficava depois desse fim. Do mesmo modo, Texasville não se limita a retratar as personagens agora na idade adulta, mas preocupa-se em apontar o modo como esse vazio se abateu sobre elas e foi -ou não - preenchido e iludido.
The Last Picture Show era também um discurso sobre o cinema, que passava não só pelo modo como o cinéfilo Bogdanovich prestava homenagem a John Ford (nunca ninguém mimetizou tão bem o cinema de Ford como Bogdanovich o fez então) como, sobretudo por alguns aspectos do argumento. Entre estes, o encerramento da sala de cinema da terra, na sequência da morte do seu dono, o “fordiano” Ben Johnson. E era com a sala de cinema que Picture Show abria e fechava, em duas dolorosas panorâmicas. Por oposição ao “travelling”, em que a câmara “perfura” o espaço e de certo modo o vence, a panorâmica, mera rotação da câmara em tomo do seu eixo, é um movimento em que toda a liberdade é ilusória: o espaço circundante permanece inatingível, a sensação de uma claustrofóbica imobilidade impõe-se. É a mesma imobilidade, e a mesma circularidade, que encontramos em Texasville. Este também é um filme “em panorâmica”, com as personagens a mexerem-se muito mas a andarem em círculos. E é de novo com panorâmicas que Bogdanovich abre e fecha o filme; pormenor significativo, tomado “símbolo” da mudança dos tempos: na panorâmica de abertura, em vez da velha sala de cinema o que se vê é uma antena parabólica.
Esse é o sinal de que Texasville vem de algum modo completar o discurso sobre o cinema que já estava presente em The Last Picture Show. O filme de 1971 era um filme sobre a “morte do cinema”; Texasville, sobre o que aconteceu depois dessa morte. Não que Bogdanovich sublinhe essa linha temática e a transporte, de modo explícito, para primeiro plano. O que lhe interessa, subtilmente, é fazer coincidir o “vazio” criado pela morte do cinema com o “vazio” que se abateu sobre as personagens. Não por acaso, todas as personagens surgem marcadas por alguma perda (da auto estima, no caso de Jeff Bridges; do filho, no caso de Cybill Shepherd; do juízo, no caso de Timothy Bottoms), e todas elas nos aparecem - perdoe-se o jogo de palavras - “em perda”. É essa perda que está na base da radical mudança de estilo em relação ao filme precedente: Texasville vive num estado de euforia artificial, como se se tratasse, para as personagens, de nunca ficar a sós com o silêncio e a melancolia que reinava em Last Picture Show (e repare-se que a música, aquela “country” triste que com tanta força pontuava o filme de 1971, continua presente; simplesmente, por alguma razão, parece que já ninguém a ouve). Mas é essa mesma perda que autoriza Bogdanovich às mais poderosas referências directas a Picture Show: através das fugas da personagem de Timothy Bottoms, em estado de semi-inconsciência, para as ruínas da antiga sala de cinema, onde continua a “ver” e a “ouvir” os filmes que, evidentemente, já não pode ver nem ouvir. E repare-se num pormenor genial, que quem tiver agora visto os dois filmes não deixará de notar: sempre que Bogdanovich nos dá, nessas cenas, o contracampo do olhar hipnotizado de Bottoms, o que vemos são planos em que o céu invade todo o écran - o mesmo céu que invadia o écran de Picture Show, na cena do funeral de Ben Johnson, ou seja, na cena do funeral do cinema.
Texasville foi um “flop” absoluto quando se estreou, nada fazendo para recuperar - junto da indústria - a carreira de um dos cineastas mais “amaldiçoados” da Hollywood contemporânea. Ao que parece, o tom cáustico e cruel com que Bogdanovich tratou agora as suas personagens (para quem, em 1971, tinha sempre um olhar doce) terá sido o maior “put off” para o público. Isso e o registo de “sitcom” acelerada e levemente ordinária com que Bogdanovich filmou, por exemplo, todas as cenas com a família de Jeff Bridges. Uma coisa e outra (causticidade e “sitcom”) parecem, no entanto, essenciais; causticidade, porque Texasville tem muito de (auto)punitivo, e estas personagens, pelas quais em 1971 todos nos podíamos apaixonar, vivem agora o drama e a consciência de que já ninguém se vai apaixonar por elas; “sitcom”, porque se em 1971 havia um espelho onde as personagens se podiam rever (o cinema, John Ford), em 1990 esse espelho, como o indica a antena parabólica do início, só pode ser a televisão. É isso: se Texasville, um dos grandes filmes “esquecidos” da década de 90, é “desagradável”, é porque nos fala de um mundo em que a televisão separou o que, muitos anos antes, o cinema tinha unido.
Luís Miguel Oliveira
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Porque o cinema sempre me acompanhará para onde quer que vá. Até qualquer dia companheiros.























