6 de julho de 2011

The Tin Star (1957)
Anthony Mann

Fala-se muito nos westerns psicológicos de Mann como principal característica, verdade inegável, coisa que The Tin Star é até ao tutano, filme do recomeço, do voltar a acreditar, implosão irascível que nasce logo no momento inicial do filme, no primeiro plano-sequência, primeiro olhar sobre o homem, a apresentação do caçador de recompensas outrora xerife, homem frio, parco de palavras. Será ali, naquela cidade, que Fonda (ou Hickman) vai receber a maior recompensa de todas, o perdão ao mundo, a Deus, o renascer do homem, do Xerife, do homem da lei e da justiça, o reacreditar. Tudo implode até ao final, até àquele duelo final que traz a recompensa, tanto para Hickman como para Ben Owens, esse outro de justiça e de integridades, é a eminência do confronto até àquele momento, momento-coragem, de confiança, é o triunfo da justiça, o fim dos foras-da-lei ou o prenúncio desse fim, da impunidade dos fora-da-lei dentro da lei. Para Hickman será também a amizade com o puto e a paixão que vai crescendo por Nona que o empurrará para esse recomeço, esse renascer para a vida. O recomeço total, é isso que The Tin Star é, um grande filme sobre o renascer de um homem.

5 de julho de 2011



*Only Angels Have Wings (1939)
*To Have And Have Not (1944)

Isto só para dizer que Thomas Mitchell e Walter Brennan foram talvez os melhores actores secundários que Hollywood já teve.

3 de julho de 2011

Little Odessa (1994)
James Gray

Little Odessa é talvez (e este talvez tem muita mas muita força) o melhor filme de James Gray, o mais negro, o mais trágico (e a tragédia pressentimo-la desde o primeiro momento em que o regresso é falado), o mais caótico, o mais sagrado dos filmes de Gray. Não é um bom nem um grande filme, é uma pequena (de “little” porque na verdade é grandiosa) obra-prima, coisa tão vertiginosa, tão brutal, tão maldita. É tudo pleno de fugacidades, desde o regresso ao bairro até àquela paixão efémera, últimos momentos, tudo tão negro e tão implacável quanto a alma de Joshua, ser errante que tenta o recomeço na família (por mais que o pai o rejeite). É aí que Little Odessa encontra o sagrado, na família, na mãe e no irmão, é aí que se encontra a única réstia de amor, de afecto de Joshua, a família tão lá no alto, coisa que vem de Ford e de Visconti (Ozu é outro mas doutra forma), sagrada. Por isso ele vai ficando e ficando, à espera da morte da mãe, por isso é tão importante o reencontro com ela, pelo perdão, pelas palavras, confissões, último adeus, olhares e aconchegos. É só ela e só o irmão que o fazem homem e não pedra (ainda que o amor por Alla vá crescendo), por isso aquele momento final em que os três se juntam como que numa metáfora da sua morte (não necessariamente física), a frieza total, a morte do pouco amor que lhe restava, coração-pedra finalmente, o olhar final consumido pelo caos, o mesmo caos que deixou ao ir embora e que reencontrou no regresso, o caos da tragédia, da maldição, ausência total de redenção, submersão abismal nas trevas, condenação total.

2 de julho de 2011

Socrate (1970)
Roberto Rossellini

'Socrates' Mirrors the Platonic Touch of Rossellini

Something more than wordplay is involved when one describes Roberto Rossellini's "Socrates," which opened yesterday at the New Yorker Theater, as the great Italian director's most Socratic film, in his most Platonic style.

Although the movie was shot entirely in Spain with lots of correctly costumed extras, who walk around what look to be the freshly painted, spruced-up remains of the sets of Anthony Mann's unfortunate "Fall of the Roman Empire," it concedes no more than it absolutely must to the demands of a popular cinema that seeks access to the intellect through visual grandeur and primal emotions.

Like all of Rossellini's recent films, including the fine "The Rise of Louis XIV," "Socrates" was originally made for television (that is, European television, which is apparently a lot more adventurous than our own). Curiously enough, television's limited budgets and circumscribed physical scope, which might diminish the work of any other film director I can think of (except Godard), have given a certain freedom to Rossellini, allowing him to pursue his humanistic concerns unhampered by the temptations to indulge in conventional masquerades.

What we are now getting from Rossellini, who so moved us with the neorealism of "Open City" and "Paisan," and then pioneered Antonioni country with films like "Stromboli" and "A Voyage to Italy," is a type of teaching cinema that is not exactly stern, although it is uncompromising. It is the work of a kind of saint, whom I can admire even when I don't find him especially congenial.

The passion of "Socrates" is the passion of its subject, which, to say the least, bears very little relation to the sort of melodramatic, window-dressed passion celebrated by something like "Jesus Christ Superstar." Drawing freely from Plato's "Euthyphro," "The Apology," "Crito" and "Phaedo," Rossellini recalls the last years of Socrates's life almost entirely in terms of Socratic dialogues.

Socrates (Jean Sylvere) moves about ancient Athens surrounded by a small cloud of followers, deflating the pompus, drawing reason out of the unreasonable, defining things like piety and pity, speculating on the aspects of the soul—and infuriating the wise who refuse to acknowledge that the first step to wisdom is the acknowledgement that one knows nothing.

As the words are Plato's, so is Rossellini's style, which is straightforward, pure and serene. This offers not much opportunity for performances, in any conventional respect, or for drama, even during Socrates's trial and execution. The film is a series of rather proper, spoken tableaus that seldom erupt with spontaneity. (One exception: when Xanthippe laments the fact that Socrates is dying "unjustly," he answers with some impatience: "Would you prefer that I died justly?"

Yet there is in this fidelity—in this complete refusal to let the film come between the audience and its subject—a kind of beauty and poetry that are all but unknown in the work of any other contemporary filmmaker. Unfortunately, the film is in Italian, translated by English subtitles that don't always make a great deal of sense. However, if the film sends you back to the original texts, as it did me, it will have accomplished exactly what I suspect Rossellini intended it to do.

"Socrates" employs a minimum of cinematic techniques, and makes no attempt at characterization. We do meet Xanthippe, Crito, Meletus, Anytus and Lycon, in passing, but Plato himself, who was apparently ill during the trial (according to "Phaedo"), remains respectfully off-screen—played by Rossellini.

Vincent Canby, NY Times, November 26, 1971

Blade af Satans Bog - Páginas do Livro de Satanás (1921)
Carl T. Dreyer


30 de junho de 2011

Deep End (1971)
Jerzy Skolimowski

Em Deep End existe uma angustiante, seca e crua forma de tratar ou de confundir o amor, o desejo e a obsessão. Crua visualmente, coisa com grão, sem filtros, sem brilho, coisa semi-profissional ou amadora diriam os adoradores do mainstream ou dos blockbusters. Essa crueza (que se faz acompanhar por movimentos de câmara brutais, iluminação e cores idem aspas) está lá para nos mostrar que o mundo não é bonito, é feio, é cru, carrega consigo a perversidade da humanidade. Assim como o mais profundo desejo sexual também o é, cru, angustiante, frenético, obsessivo, coisa que se embrenha na escuridão da alma tão escura quanto a noite que Mike passa ao relento naquela rua do “pecado” à espera que Susan saia daquele clube nocturno. É o negro da noite que nasce na alma de Mike e que o conduz para as trevas da tragédia, o negro da obsessão e do desejo que corrompe a candura de Mike, que o mergulha na demência e na alienação quer individual quer social. É essa caminhada vertiginosa daquela alma cândida em direcção àquele gesto repentino e impulsivo, coisa de segundos, momento final, a queda de um anjo. É a perda da virgindade ou o desejo dela, dessa perda, como símbolo da mutação quer moral quer intelectual do indivíduo ou da formação do indivíduo, é o primeiro contacto com a perversidade do ser humano, com a libertinagem dos adultos (Mike tem apenas 15 anos), é o fascínio e o desejo e a obsessão a confundirem-se com paixão ou amor, é a candura do homem a dissipar-se na bravura e na iniquidade do mundo. Brutal, tragicamente brutal.